Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

What’s good? Lou Reed was good

27 outubro 2013 | 22:39 por Luiz Américo Camargo

Os poucos textos aqui do blog que não tratam de comida e afins – podem procurar nos arquivos – abordam a cultura pop. E falam particularmente da morte de artistas admirados. Georges Moustaki, Malcolm McLaren, Salinger… (Estarei eu com pendores para redator da seção de falecimentos?) Hoje, o tema é Lou Reed. Uma notícia inesperada, eu diria até que meio deslocada no tempo, no espaço. Lou Reed não parecia, digamos, perene? E nem velho, nem jovem, quase sempre moderno?

Vou forçar um pouco a barra. Digamos que o rock, chutando, tenha umas cem canções que valham a pena. Acho que Lou Reed foi responsável por umas dez desse montante. E outras tantas foram feitas por músicos diretamente influenciados por ele. São poucos, na história da música popular, com tamanha capacidade de intervenção.

Enquanto a Califórnia e a Costa Oeste se engajavam no flower power, na segunda metade dos 60, Lou Reed, em NY, mostrava uma outra face da contracultura: cética, sardônica, subterrânea, marginal. Reed e o Velvet Underground foram os pais-fundadores da música simples e inteligente, do barulho enquanto estética, do alargamento/aprofundamento das temáticas do rock para territórios aparentemente impensáveis. O punk, o pós-punk e outras ramificações da música dita alternativa serão seus eternos devedores.

Ficou com água na boca?

Lou Reed foi brilhante até os anos 70. Nos 80 e no início dos 90, fez algumas coisas de grande valor artístico (acho que parei de achar realmente bom depois de ‘Songs for Drella’ e ‘Magic & Loss’). Assim como, no geral, também cometeu discos muitos chatos. Eu sempre gostei mais de seu lado chansonnier, muito mais do que do bardo radicalmente declamatório dos últimos tempos, quase como se negasse qualquer possibilidade de melodia. Prefiro, de longe, a produção antiga: Heroin e todo o universo que ela abriga em dois meros acordes. A beleza e o sofrimento psicológico contidos em Femme Fatale. A ironia mórbida de Stephanie Says. Fora os ‘quase-sucessos’ Sweet Jane, Walk on the Wild Side…

Lou Reed forjou uma linguagem única, meio impossível de ser recriada – apesar de tão maciçamente imitada. Fosse ele um escritor (e também era), seria por si só um gênero à parte, com direito a prateleira própria nas livrarias. Já o citei em outros posts, aqui e acolá, como referência de pontos de vista. Não levando-o a sério como um filósofo. Mas simplesmente como um formulador – muito heterodoxo, convenhamos – de possibilidades para o que é bom, o que é justo, o que é normal.