Paladar

Luiz Horta

A língua do oki

10 março 2010 | 00:35 por Luiz Horta

Perguntam, como desdobramento de um post anterior, se a palavra Languedoc significa vinho ruim, porcaria, quando estampada nos rótulos. Se é necessário fugir correndo dos vinhos da região.

A resposta é um não gigante e sublinhado. Não! O que acontece lá é o tamanho. Languedoc é uma palavra imprecisa no caso de vinhos, engloba desde alguns gostosos vinhos do Minervois e os vetustos investimentos de alguns produtores de Bordeaux até cooperativas sérias, e outras nem tanto.

A região tem má fama, era a origem do vinho vagabundo francês desde o final da 2a guerra, usando mesmo uvas compradas ou contrabandeadadas da Argélia e do Marrocos. Parece que as bicicletas vermelhas já eram pedaladas faz tempo por ali.

Ficou com água na boca?

Sei que a pergunta seguinte será: “então cooperativa só produz vinho ruim?”. Outra vez a resposta vai ser: não. Só que um não menos animado, dessa vez.
A idea da cooperativa é brilhante. Eu tenho dois hectares de uva, meu vizinho 3 e o dele 1. Nenhum de nós pode investir num bom maquinário para desengaço, nem numa esteira para separação de uvas, nem em barricas de qualidade. Somados, com algumas centenas de outros, todo o instrumental adequado para a produção correta custa muito menos e é usado por todos, em revezamento. Ótimo.
Só que cooperativas imensas como as maiores do Languedoc, além deste papel de dividir custos e manter atualizada a capacidade técnica de produção do microprodutor, produzem também vinhos próprios. E usam uvas de toda a região, compram todo o Merlot de todos os que preferem vender as uvas que fazer vinho, compram o excedente de diversos produtores, compram vinho já feito. E tudo isto vai ser vendido, em centenas de gamas de bebida, desde garrafões ou bag-in-box de 1 euro até alguns top de linha. E aí reside o perigo.

Seu Fulano com suas uvinhas, sabe tudo que aconteceu num ano de vinhedo, usa a cooperativa só para o que não pode fazer sózinho, fica lá ao lado controlando, vê o engarrafamento, paga sua cota à empresa e vai para casa com suas garrafas. Mas a Coop não sabe muito do que se passa nos vinhedos, exerce um controle genérico sobre os produtores, sabe superficialmente do uso de pesticidas, faz visitas de inspeção, mas nunca irá conhecer cada cacho de uva utilizado.

Eu já vi, é deprimente e muito pedagógico (não foi na França, nem no Brasil) o processo acontecendo. Chegam caminhões basculantes lotados de uvas e vão despejando num piscinão. Boa parte daquilo já está fermentando, com vespas sobrevoando. Como brinca um amigo, entra tudo, pedaço de pneu (que vai dar o toque empireumático no nariz), toco de cigarro (toque de tabaco) e as abelhas que zunem sobre a ante-casca do inferno vinícola. Tudo vai sendo puxado com pás por operários e móido, com cabinho e tudo.

Para ajudar a limpar o nome da região, fiz uma degustação para “As Viagens engarrafadas de Glupt!”. Deve aparecer em breve, no Paladar. Mas posso adiantar que todos os vinhos eram bons, tanto no preço quanto na qualidade. Só que, infelizmente, nenhum era de cooperativa.