Paladar

Luiz Horta

Atire no pianista

28 fevereiro 2010 | 01:13 por Luiz Horta

Recebi por email um texto publicado no blog do jornalista carioca Rogério Rebouças, sobre o escândalo de falsificação de vinhos no Languedoc. A principal empresa citada é a Sieur d’Arques, cooperativa gigantesca do sul da França, que forneceu o vinho falso aos importadores americanos. O texto é longo e vale a pena lê-lo na íntegra no blog dele. Acho a visão correta, feita por uma pessoa envolvida – profissional e emocionalmente- com o assunto.

Quando estive lá, ano passado, visitei desde pequenos produtores até a própria fábrica da cooperativa. Há de tudo, como aqui, como no Chile e na Espanha e em qualquer outro país produtor. Tem o sujeito que colhe a uva, faz o vinho engarrafa e vende, sem interferências e a mega empresa, que compra caminhões de coisas que nem sabe bem o que sejam, despeja lá, fermenta aos milhões de litros e engarrafa em série, mudando rótulos. Nada disto é minimanente ilegal, vinho de garrafão existe em toda parte e desde que não se chame Meu Louro de Château Urubu, está tudo correto. Ninguém disse, em nada do que eu li, que o vinho falso não era vinho, mas que o vinho vendido como Pinot não era Pinot. Só isto.

Mesmo assim, há uma coisa meio risível para mim, procurar culpar alguém evidentemente alheio à patifaria. No texto que recebi, post do Conexão Francesa, quem fica como maior culpado da falsificação de milhares de litros de Pinot Noir do Languedoc é Marvin Shanken. Conhecem? É o dono da Wine Spectator, a revista mais influente dos EUA no assunto vinhos. WS deu 83 pontos ao suco mix de uvas fermentado Languedoc, chamado pela empresa Gallo que o vendeu de “Bicicleta vermelha” (ic! zô meio zuado….imagine uma ressaca disto? Como ter um guidon dentro da cabeça). Enganou o público. Enganou?

Ficou com água na boca?

Enquanto cozinhava um gohan com banchá (arroz feito no chá verde, minha receita para indisposição, pois estou meio acamado estes dias) pensei numa fábula. Um restaurante descobre que está infestado por ratos. O cozinheiro mata um rato. Acha a carne interessante e resolve cozinhá-la. Faz um molho madeira forte, prova. Acha bem bom. Contrata gente e extermina todos os ratos e coloca no cardápio como escalope ao madeira.

Um crítico de restaurantes importante come lá. Acha uma delícia. Escreve um artigo entusiasmado. O restaurante estoura de reservas, clientes. Começa a comprar carne de rato, entra no submundo do comércio ilegal de carnes para comprar toneladas de ratos.

Um dia, numa visita de rotina, a inspeção sanitária descobre a rataiada. Fecha o restaurante, multa. Há indignação de clientes, revolta. Então é preciso achar um culpado. E claro, o grande responsável por tudo só pode ser o crítico, pois ele achou gostosa a carne de rato. Prendem o crítico.

No affaire Pinot falso do Languedoc, portanto, ignoremos a má qualidade destes vinhos feitos em escala nas indústrias, verdadeiras linhas de montagem, esteiras rolando e engarrafando qualquer coisa (sim, com gosto aparente do que são, mas entre uva plantada e você em casa tirando a rolha, há etapas demais, correções de laboratório, misturas de safras, adição de outros vinhos para dar gosto, não há mais traço de verdade de expressão do terroir nisto. O enólogo nestes casos é um sujeito de avental branco que acerta o resultado do líquido final, tão distante de um vinhedo quanto eu, aqui em São Paulo). Esqueçamos o ruim que estes vinhos sem personalidade são.

Fiquemos com a solução rápida, sugerida: prendam logo o Marvin Shanken!

[O nome deste post podia ter sido “Ladrões de Bicicleta”…18 milhões de garrafas, 7 milhões de euros de lucro e ninguém estava percebendo…tem inocente francês demais neste caso para a culpa ser de uma revista americana por uma nota dada 4 anos atrás e relativa à safra 2005 do vinho…]

Bottleshot-PinotNoirgallo_bicyclette

Limoux_cooperative_sieur_d_arques_05163BICI 26 HARO MTB FLIGHTLINE INTRO T-XS=14  ROJA

Tags: