Paladar

Luiz Horta

Aula ao vivo com o mestre do Chablis

17 julho 2013 | 21:44 por Luiz Horta

Era uma manhã calcária. Dura, fria, branca e pétrea, manhã de cortar com entalhadeira de tão sólida na sua opacidade. Afinal, estamos vivendo 2013, o ano sem verão na Europa. O calor vem, dura uns poucos dias, some, volta o frio insistente. As árvores não sabem o que fazer, brotam e se arrependem. Flores abrem e murcham em dias. Naquele manhã em Chablis, o sol não apareceu, nem os ares mornos da temporada. O vento fustigava o valoroso Citroën 2CV azul-cobalto de Eric Szablowski, especialista na região e educador refinado.

Foi com Eric que subi montanhas no carrinho, para ver o que antes só bebia: ali, Les Preuses; no fundo, Grenouilles; lá, Valmur; depois, Les Clos; no canto, Blanchots, e lá atrás, Vaudesir. Eric segurava o mapa contra o vento, franzino e longilíneo. Parecia que ia sair voando tendo a carta geográfica como asa-delta.

Ficou com água na boca?

Ericmóvel. Citroën, pedras, mapas: o arsenal pedagógico do professor de vinhedos. FOTOS: Luiz Horta/Estadão

Eric, um educador enológico com sua Au Coeur du Vin, foi escalado para me mostrar os 22 vinhos vencedores da avaliação de 2013 de Chablis para o BIVB (Bureau Interprofessionnel des Vins de Bourgogne). Mas achou que prová-los sem ver de onde saíram não era negócio, não ensina nem fixa na memória. E lá fomos pisar o chão, tocar a pedra e sentir o terroir (o e-mail que recebi com o convite avisava: “Traga sapatos adequados para andar nos vinhedos”).

Calcário. O chão de Chablis é assim: pedras do fundo de um mar remoto fundidas com conchas da pré-história

Já tinha passado calor mais ao sul, em Beaune, por exemplo. Mas Chablis tem o clima de sua bebida, a limpidez do aço e cristal e o frio mineral. Foi uma espécie de Gesamtkunstwerk, aquele conceito wagneriano da obra de arte total, pois tivemos som, imagens, aromas, experiências físicas (solavancos na estrada…). E tudo terminou em grande degustação.

Degustação. Dividida em cinco baterias, mostrou todas as denominações de origem e os vinhos premiados em 2013

Em sucessivas baterias, a degustação consistiu de cinco grupos (leia aqui), com detalhadas explicações de Eric. Um curso completo dado em algumas horas. A avaliação original constou de exemplares inscritos por 347 candidatos (cada um com mais de um vinho), examinados por 150 degustadores. Provamos uma amostragem dos que ganharam medalhas, divididos em Petit Chablis; Chablis; Premieur Cru 2011 Rive Gauche; Premier Cru 2011 Rive Droite; e Grand Cru 2010. Alegria é uma palavra fraca para fotografar minha expressão no final de tudo. Falamos frequentemente de diferenças entre vinhos, mas ali a coisa é bem séria, pois se trata de uma única região com uma única casta para ser trabalhada. A multiplicidade de características vem da Chardonnay (nunca mencionada no rótulo – afinal, para um francês o que importa é o pedigree territorial do vinho e o produtor). Chablis é Chablis, expressão extraordinária da uva trazida por metros de separação entre videiras e algo do estilo do produtor, ligeira assinatura enológica dos domaines. Se alguém quiser entender o que faz da França o mais importante nome do vinho (ainda e para sempre), basta passar umas horas com Eric Szablowski. A originalidade de cada vinho e a expressividade de seu terroir deixa minha francofilia exacerbada. Acredito nos vinhos do Novo Mundo, vejo as diversidades do Chile, do Uruguai, admiro o que está sendo feito em Mendoza, busca de solos para a Malbec, o trabalho de Pedro Parra com os Zuccardis e os seus próprios vinhos, os Clos de Fous (e de muitos produtores, como Altos Las Hormigas). Mas a França tem isso de modo histórico tão remoto que parece um fenômeno natural.

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