Paladar

Luiz Horta

Chablis de orquestra de câmara

14 agosto 2013 | 23:22 por Luiz Horta

A rua e o número estavam certos, mas a viela em Chablis era tão estreita que nem parecia passar um carro. A placa dizia Domaine Denis Race. A aparência, no entanto, era de uma pensão do interior da França. “Deve ser o escritório, a vinícola só pode ser fora daqui”, cismei.

Toquei a campainha e fui recebido em um cubículo. Descemos as escadinhas. Milagre! Compactada, apertada, havia ali uma estrutura inteira de vinícola, do tamanho de um apartamento de dois quartos, completa, com cubas de fermentação, estocagem, sala de expedição e engarrafamento. Tudo lá, como uma residência de Tóquio.

A família tem quatro filhas (Denis, o pai, brinca que é um matriarcado), com a mãe, Laurence, tocando tudo. As uvas chegam de madrugada, num momento em que o caminhão (quase um tratorzinho) consegue se esgueirar pela viela e despejar as uvas colhidas no porão. Enquanto me ofereciam uma degustação de 12 vinhos, atendiam clientes que compravam no balcão e terminavam um envio para o Brasil. “Temos ótimos clientes lá, o Verdemar e a Nova Fazendinha.”

Ficou com água na boca?

As uvas são totalmente trabalhadas no microporão – mesa de seleção, desengaço, fermentação. Tudo em inox, não usam madeira. Uma das filhas, Claire, de 27 anos, é a enóloga atual, sucedendo ao pai, que quer mais falar de política e rúgbi. E de música. Lá na altura do quinto vinho chegou a caçula, que ainda não trabalha na empresa, é trombonista. Pergunto seu repertório, achando que seria mais para o jazz; a resposta: “Berlioz, Beethoven e Wagner”.

Vinhos e metais. A ‘adega de bolso’ e parte da família vinhateira que forma um grupo de sopro. FOTOS: Luiz Horta/Estadão

Mas o grupo todo se revela da música. Formam um grupo de sopros. A mãe é o sax, o pai o trumpetista, a primeira filha, que está no Loire, clarinetista, a enóloga é saxofonista e a menor é a do trombone. Mostram um vídeo, tocam muito bem.
E os vinhos são puros, têm exatamente a limpidez e sinceridade dos produtores, vinhos de expressão cristalina do terroir, físico e humano. O Montmains Premier Cru Vieilles Vignes 2011 é elétrico, mineral ao extremo, sedutor. É duplamente incrível, por sua qualidade e por se materializar ali, na adega de bolso em que é feito.

O Mont de Millieu 2011 é quase mastigável, para beber sorrindo, longo, enche a boca e faz salivar. O 2012, ainda estagiando em aço, tem um nariz de flores brancas, de cítrico, parece uma pequena aula de Chardonnay em Chablis, na sua voluptuosa acidez, que vai ganhar arredondamentos na garrafa.

O Chablis 2011, o mais básico, tem bela estrutura e frescor, muito mineral e muito agradável. Não consigo imaginar vinho melhor para o clima brasileiro no verão. Tem muito mais qualidade que alguns Chablis de mais estirpe e preço alto. Belo achado para ter em casa.

Já tínhamos levantado da mesa, que se tornara um exercício de tai chi em avião, taças rolando e braços passando pela nossa cabeça e todos falando ao mesmo tempo. A campainha da porta tocando sem parar (era festa na cidade, as pessoas vinham comprar vinho). Passamos a rodar pelas salinhas com cuspideira e taça; dos tanques de inox fomos provando os vinhos ainda em processo de produção. O traço de pureza e franqueza estava presente, a igual mineralidade e translucidez, com algo de elétrico. O clichê é evidente: são vinhos jazz, feitos por um quinteto de metais, não escapam de ter algo das virtudes da música ali. Os vinhos do Domaine Denis Race chegam ao Brasil pela Nova Fazendinha (tel.: (21) 2471-3654) e pela rede Verdemar de Belo Horizonte.


Férias. Nas próximas duas semanas Glupt! estará de férias. A coluna volta em setembro.

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 15/8/2013

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