Paladar

Luiz Horta

Chez Campanas

03 setembro 2010 | 21:31 por Luiz Horta

Publicada no Glupt! de papel do Paladar em 2 de setembro

Os irmãos Campana e as rolhas tiradas com muito estilo

Humberto completa a frase de Fernando, que continua o raciocínio de Humberto. A sintonia é tanta entre os irmãos Campana que é difícil acreditar quando dizem que na hora de criar há muita dúvida e opiniões conflitantes. “É verdade que precisamos nos falar por telefone para evitar aparecermos vestidos iguais, com frequência”, riem. “Só que a criação é conjunta e com suas divergências, cutucões e provocações de amigos sintonizados.”
O ateliê dos dois é no centro, quase debaixo do Minhocão. Tem prateleiras de cactos, muitos livros, alguns protótipos e vários de seus trabalhos, como a polo que fizeram para a Lacoste com centenas de jacarés tecidos emoldurada em destaque. Apesar da fachada discreta, que parece a de um galpão abandonado, o interior tem muita luz entrando por grandes janelas e uma bela visão da retaguarda do skyline do centro, ambiente de uma tranquilidade suíça.
Mas eles são mesmo de Brotas, netos de italianos. “Eu tinha medo de minha avó, da ironia dela. Hoje vejo que essa ironia é uma forma de carinho muito do norte da Itália.” Passam a imitar os diversos dialetos italianos, divertindo-se. “Na nossa cidade não tinha televisão, tinha um cinema, que era obrigatório frequentar. Cada noite Fellini, Pasolini, o neorrealismo, Totó: vimos tudo ali, tudo italiano.”
Eles dizem dever muito à Itália. “Aceitaram nosso trabalho rapidamente. Conhecemos vinhos principalmente por isso, por frequentes viagens ao país. Antinori, Chianti…” Mas a encomenda de um saca-rolhas símbolo, pelo IIbravin (Wines of Brazil), foi decisiva para conhecerem os vinhos brasileiros. “Visitamos a Serra Gaúcha, ficamos encantados. Visitamos a Valduga, que faz ótima grapa. Gosto muito de grapa” diz Fernando. “Numa noite dessas, no La Casserole, com um grupo de amigos estrangeiros, servimos um vinho nacional. Todos gostaram, acharam que era europeu.”
Quando folheio o “catálogo de sua obra completa até agora”, publicado no ano passado, percebo que os objetos deles, nada óbvios, causam aquele desequilíbrio muito delicado entre o familiar e o surpreendente que posso chamar de arte. Algo que sutilmente complica seu olhar, faz olhar de novo, causa um rebuliço na percepção. Por exemplo, pedi água na tarde sequíssima do nosso encontro. Veio o copo numa forma metálica toda vazada, como um molde irregular de ladrilho hidráulico, linda, imediatamente desejável. “Que bandeja fantástica”, comentei, descuidando da neutralidade obrigatória de repórter. “É uma fruteira, mas serve de bandeja.”
Esse tremor entre sentido e outro sentido dá uma leveza que permite que eu sonhe em usar os seus “vasos-folha” como decanters. São vasos de vidro em formato irregular, de braços interligados, como caules. Dariam um decantador perfeito, para fazer Herr Riedel ranger os dentes de inveja.
Semelhante puxada de tapete entre o que as coisas parecem ser e o que são, com rebeldia sorridente, é raríssima. Só consigo pensar em Zaha Hadid, assim mesmo, apenas pela necessidade de pensar em paralelos para buscar alguma segurança. A tal ironia da vó transformada em objetos, muito distante das piadas de um riso só de outros designers. As criações dos Campanas até podem fazer rir, mas sempre será um sorriso de canto de boca, nunca uma óbvia gargalhada.
O próximo projeto deles na área do vinho, também para a Wines of Brazil, é o desenho de uma garrafa, mas disso ainda não podem falar, mesmo que vários esboços já sejam visíveis no livro de rascunhos.
Bonito, mas é para ser usado
O Ibravin pediu um ícone do vinho brasileiro, para as promoções e degustações da Wines of Brazil no exterior. “Gostamos que as coisas tenham funcionalidade, não queríamos só um enfeite”, dizem os irmãos. “Que fosse bonito, mas arrancasse as rolhas, um desenho lembrando algo etéreo, como os vapores e aromas dos vinhos.”
Alguns esboços do projeto dos irmãos Campana estão reproduzidas à direita.
ONDE COMPRAR
Tramontina
Apesar de feito para ações da Wines of Brazil, estará à venda no site da coleção de design da Tramontina, (www.tramontinadesigncollection.com): R$ 360

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