Paladar

Luiz Horta

Degustação em boleia de caminhão

07 agosto 2013 | 23:03 por Luiz Horta

Já degustou em um caminhão? Eu já. Não em movimento, felizmente. E foi divertido.

Fui visitar o Domaine Cathèrine et Claude Maréchal. Pedi a meus anfitriões para incluí-lo em meu roteiro borgonhês porque gosto muito de seus vinhos. Como aconteceu o tempo todo na viagem (e já contei em colunas passadas), os domaines quase nunca são châteaux, apenas casinhas simples, confortáveis e acolhedoras, com um jardim florido e uma plaquinha artesanal na porta.

Claude Maréchal, um produtor tranquilo e sorridente, preparou uma amostra pequena do que produz, e era para provarmos os vinhos no pátio da sua casa, ao ar livre. Mas choveu, bem forte, temporal com trovoadas. Tivemos de correr para o galpão que serve de cantina.

Ficou com água na boca?

Claude Maréchal, vinhateiro na Borgonha, e seu caminhão. FOTOS: Luiz Horta/Estadão

Fiquei tomando notas agachado (francês não descobriu a graça de degustar em cadeiras, não entendo a razão. Vinicultor francês nunca se senta), equilibrando a caderneta em uma mão, a taça no joelho e segurando precariamente a caneta.

Ele ficou incomodado com a cena, foi lá fora, manobrou o caminhão de maneira engenhosa e criou a maior mesa de degustação sobre rodas do mundo. E começou a enfileirar garrafas no que veio a ser uma das grandes memórias que levarei dos vinhos da Borgonha, tanto pela qualidade e diversidade quanto pela atipicidade da degustação na boleia.
Basta de anedotário. Bebamos. Foram 16 vinhos, com pequenas verticais no meio, enquanto a chuva ia e voltava, o sol se abria e sumia. Antes, ele mostrou, orgulhoso, sua sala de barricas. “Meu avô veio para a Borgonha porque passava fome em Paris. Trabalhou anos no Comte Armand, gostava muito da família que o acolheu. Por casualidade, eu trabalho no Brasil com Geoffroy de la Croix, da mesma família, meu importador e amigo.”

Pergunto sobre as barricas – que estão chegando. “Meu toneleiro vem da floresta de Tronçais e provamos os vinhos; ele decide o que combina com meu vinho, porque Tronçais é do tamanho de um aeroporto, enorme. Cada um cuida do seu trabalho, ele faz toneis e entende disso; ele decide, e eu decido sobre vinhos.”. E completa: “Quem diz o grau de tostagem e qual carvalho vão ter as barricas é sempre ele, não quero carvalho no gosto do meu vinho, interferindo. Temos a morte inteira para degustar madeira”.

Savigny. De ‘montes de exclamações’ a ‘começando a viver’

Destaco os vinhos de que mais gostei. O Chorey-Lès-Beaune 2010, com nariz mineral, bela expressão da Pinot Noir, acidez no lugar, longo, saboroso. Provei também o 2009, mais pesadão, levemente desequilibrado, pelo ano muito quente. No Brasil está o 2007 (R$ 165, Delacroix, tel.: 3034-6214), que conheço bem e é um favorito, boa aula de Borgonha por um preço decente.

Depois foram os Savignys-Lès-Beaune, em que a equação se inverte: o 2009 ganhou montes de exclamações na minha caderneta, com um toque de carne assada no nariz e uma surpreendente fluidez. Comentei essa contradição, taninos finos, corpo elegante, acidez adequada, mesmo diante do calorão daquele ano. Ele deu um sorrisão: “Eu brinco que é como na cozinha, não se pode passar do ponto de cozimento para a carne ficar macia. Colhemos no momento certo”. Provei também o 2010, bem fechado e meio adormecido, mais denso também, precisando de espera na garrafa. E o 2011, ainda começando a viver. A importadora tem o 2007 e o 2009 (R$ 178 cada).

O Volnay 2011 foi um despudorado, nariz floral, mineral, que encantou, fino, macio. É fermentado em cimento e estagia sobre as borras por um longo tempo. Maréchal é praticante do que chamei “third wave” da vinicultura orgânica: tem o gosto pela lentidão e observação da natureza, deixa que as uvas se expressem como queiram, mas não quer ser chamado de nada, nem orgânico, nem biodinâmico, apenas um homem do campo que faz vinhos.

Nessa altura, ele teve o atrevimento de mostrar um Bourgogne Blanc, genérico. Que poderia ter sido esmagado pelos demais. E não. Foi um lindo vinho, que pensei ideal para beber frio na piscina, com sol e com frutos do mar. Pensando melhor, sem a piscina e sem sol.

E a apoteose final, o Savigny Blanc 2011, com toque mineral fascinante. Foi logo para a lista dos favoritos. A extrema bebebilidade dos brancos explicou algo que incomoda muita gente: servirem os brancos depois dos tintos. Faz muito sentido.

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 8/8/2013

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