Paladar

Luiz Horta

E quem liga para a pronúncia?

30 janeiro 2013 | 20:38 por Luiz Horta

Gewurztraminer, também conhecida apenas como Traminer, é uma uva complicada. Com esse nome impronunciável, mais comum na Alsácia e com aparições principalmente na Alemanha e Itália, sensível no cultivo, delicada na hora de vinificar, podendo resultar em vinhos desequilibrados e alcoólicos, anda meio esquecida, quase fora de moda.

Facilmente seria abandonada na vala comum das curiosidades. Mas, como toda uva caprichosa, quando dá certo, em bons vinhos aromáticos, refrescantes e bem estruturados, encanta e se torna uma mania. Tive esse encanto umas poucas vezes. Foram marcantes memórias e sou um apreciador da casta. O mundo não é só das uvas facinhas e produtivas. O desafio é importante.

Sempre achei que a Torrontés era sua parente. Ambas têm intenso aroma floral, ambas podem ter um traço amargo aborrecido no final e as duas tendem aos vinhos de alto teor alcoólico. O novo big book com todas as variedades, livro de consulta diário desde o lançamento, Wine Grapes, dirime as dúvidas de parentesco. A Traminer é europeia. Apareceu por mutação e foi mencionada pela primeira vez apenas século e meio atrás, na Alemanha.

Ficou com água na boca?

Exatamente um ano passado, estive na Serra Gaúcha e experimentei ainda em tanque inox, recém-fermentado, o Gewurztraminer Valduga. O enólogo me deu a taça sem dizer o que era, um branco, ainda sem filtrar. O nariz era um sopro de lichia e lírio e eu acertei na hora a variedade, coisa que acontece uma vez em uma vida. Ponto para a tipicidade. Se esse negócio de traços típicos das castas existe, a prova é isto: uma uva que coincide com sua descrição. Fiquei encantado e cismei que a região era adequada para a uva.

Quando decidi fazer esta coluna, comecei a procurar exemplares brasileiros de Traminer. Confirmei o problema que tem o vinho brasileiro: a distribuição. Consegui só os três vinhos que aqui estão, embora existam outros.

O Valduga, engarrafado agora, um ano depois da minha primeira experiência, perdeu parte do aroma, mas continua muito equilibrado, bem feito, de bom corpo e acidez marcada com um contraponto elegante de doçura. Um vinho muito bom. O Angheben também é virtuoso, tem floral discreto no nariz, boa acidez, corpo mais leve, é bem fácil de beber com comida (os Anghebens são da região italiana onde a Gewurztraminer se notabiliza, o Trentino-Alto Ádige, fronteira com a Áustria). E o Luiz Argenta tem bom nariz, mas é um pouco monocromático na boca, acidez um pouco deslocada. Nenhum deles tem álcool exagerado.

 

FOTOS: Filipe Araújo/Estadão

Casa Valduga – Muito bom

Nariz de lichias, bem típico. Na boca tem interessante doçura que faz lembrar os alsacianos, gostoso de beber, bem feito e sem traço de amargo

Angheben 2012 – Muito bom

Nariz discreto, com toque floral. Boa boca, bem matador de sede, corpo médio, elaborado com cuidado, não cai nas armadilhas da uva, tem muita elegância

Luiz Argenta – Muito bom
Nariz floral com um toque lácteo, bem amanteigado. Faz, curiosamente, lembrar a Grüner Veltliner, com algo repolhoso, picante e com acidez pronunciada

+ Argenta: designs que não vêm para o bem

ONDE COMPRAR

Angheben (R$ 36, Vinci Vinhos, tel.: 3130-4500); Valduga (R$38,90, mais frete, www.bebidaonline.com.br)
Luiz Argenta (R$ 44,90 mais frete, www.boccati.com.br)

VIAGEM ENGARRAFADA

Parada 56/100
Vale dos Vinhedos, Serra Gaúcha, RS, Brasil

Gewurztraminer
Uva não muito comum, mas que tem qualidades na região

>> Veja todos os textos publicados na edição de 31/1/13 do ‘Paladar’

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