Paladar

Luiz Horta

El pibe que virou mestre

20 novembro 2013 | 20:05 por Luiz Horta

Conheci Gabriel Pisano antes de ele virar gente, como sobrinho entusiasmado de Daniel e Gustavo e filho de Eduardo Pisano. Foi na minha primeira viagem ao Uruguai e ele devia ter uns 15 anos. Subia e descia numa escadinha de madeira e tirava com a pipeta provas de vinhos para experimentarmos. Nem podia beber, cheirava e disfarçava, mas dava muito palpite. Já tinha a chispa de inovação na tradição que é a prática dessa família ímpar, que parece dirigida por Wes Anderson.

Depois daquela minha primeira ida ao micropaís voltei diversas vezes. Gabriel cresceu, acaba de ser pai, se tornou um criador, estagiou no Priorato (Espanha), na Austrália e no Chile. Mas permaneceu rigorosamente uruguaio.

Inventou, com a aquiescência dos tios (“meu pai e meus tios adoram tudo que faço, fico querendo uma opinião sincera porque eles são condescendentes demais”, reclama entre sério e irônico), o licor de Tannat, o espetacular fortificado de uvas passificadas Etxe Oneko (R$ 137, Mistral), um dos grandes êxitos da vinícola. Nem tinha 20 anos. Agora ele tem a própria bodega, a Viña Progreso, em Canelones, como a Pisano.

Sem perder os taninos. Gabriel cresceu, ficou pai, viajou – e está mais uruguaio que nunca. FOTO: Luiz Horta/Estadão

Gabriel Pisano tem a melhor matéria-prima possível. E sabe usá-la. A Tannat já foi indesejada por sua agressividade de taninos. Depois de um século de aculturação uruguaia, ganhou uma elegância excepcional, sem perder um toque de rusticidade que é seu encanto. A técnica que ele aprendeu na Austrália, trabalhosa, de fermentar com a barrica sem tampa enquanto se revolvem as cascas, amacia o vinho e dá uma sutileza aveludada totalmente nova.

Gabriel contou das suas inquietações, que gostaria de ficar mais no vinhedo como o pai, emocionou-se às lágrimas pensando nisso; que é forçado a viajar, vender, demonstrar vinhos, mas seu lugar é lá.

Provei com ele alguns vinhos, seu Tannat fermentado com a barrica aberta (Sueños de Elisa Open Barrel, R$ 205, importados para o Brasil pela Vinci, tel. 3130-4500), todo feito à mão, maceração lenta em carvalho, leveduras do meio ambiente. É um grande vinho, taninos finos, corpo delicado, mantendo-se Tannat. É preciso amaciar sem jamais perder os taninos.

Serviu um Sangiovese que me encantou. Como fã da uva, esperava algo gordo e super maduro, longe dos encantos da Toscana. E um Viognier que me fez lembrar de quando o tio dele, Daniel, em uma manhã gelada, me levou ao vinhedo de velho Tannat, uma aula sobre a capacidade da casta. O solo, a brisa de rio e mar fazem do privilegiado terroir uruguaio o melhor do continente, em tão pouco espaço de um país quase portátil.

A prova

FOTOS: Divulgação

1. O Sangiovese da Viña Progreso tem notável DNA italiano, foi um dos meus favoritos e destaque aqui da coluna (R$ 66).

2. O Viognier (R$ 66) fresco, delgado, refinado, melhor que muito Viognier feito com mão pesada por aí. “Acidez? Temos de sobra, e cultuamos essa virtude, é do solo e do clima”, diz Gabriel Pisano.

3. O Viña Progreso Tannat Reserva 2008 (R$ 66), vinificado de modo mais convencional, é delicado e aromático, com taninos evoluídos e suculentos.

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 21/11/2013

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