Paladar

Luiz Horta

Garrafa de pandora

03 julho 2009 | 02:07 por Luiz Horta

Semana passada, durante a apuração de uma matéria para o Paladar, o Luiz Ligabue, colega de suplemento, levou duas garrafas para provarmos. Uma eu matei de cara que estaria espetacular, só de olhar o rótulo. Era um Gewurz Hugel, Jubilee 198x.
O x no caso não é descuido de digitação, o papel rasgado não diz o ano exato, como dá para ver na foto.

Um produtor com este nome, um dos notáveis da Alsácia, não faz vinhos fracos. E quando feitos para evoluir no tempo são uma coisa fantástica. O outro eu desdenhei. Um Sauvignon Blanc Mondavi, de 1994. Os Chardonnays californianos fizeram fama, como se sabe, mas um SB californiano de 15 anos de idade? Duvidei. Mesmo com as palavrinhas mágicas Stag’s Leap District.

Ficou com água na boca?

Destapamos o Gewurz. So foi crescendo na taça, cada minuto ganhava mais, só se abrindo, parecia um rabo de pavão, exibido, multicor. Subiu na mesa e ficou se mostrando, encantando. Todas as camadas possíveis de sabor e aromas, mel, favo de mel, especiarias esquecidas na gaveta e acidez perfeita na boca. Fascinante.

Quando terminou, falta de opção, fomos para o SB. Eu tinha o ânimo preparadíssimo para a decepção e o discurso ensaiado “sabe como é, Sauvignon não dura, em geral e tal e tal”. Nossa! Primeira cheirada. Que interessante. Tinha madeira evidente, uma fineza e um foco curiosos. Nada de fruta mais, claro, este era um vinho que não era para ser longevo assim, mas foi. Também tinha peso e complexidade na boca, corpo e estrutura e envelheceu muito bem.

Parece, embora nem a internet tenha ajudado, que Mondavi acrescentava 10% de Sémillon a estes vinhos. Pode ser, deve ser. E a madeira, coisa bem pouco usual em Sauvignons e quase sempre ruim, jogou um papel importante na coisa toda. Lembrei de Manfred Tement, da Styria, sul da Aústria, que também brinca de tudo com seus SB, carvalho variado, sur lies, longas fermentações.

Não roubou a cena, porque ela era do Hugel imbatível. Mas ganhou uma prata honestíssima e deixou uma marca potente no paladar. Era intrigante, continha estes mistérios de uma garrafa desgarrada viver tanto além do que se espera dela, mais que seu destino de consumo rápido. Pena o que aconteceu com Mondavi, pois se era capaz de um vinho assim com uma coisa menos nobre, imagine os grandes vinhos que fazia com verdadeira ambição.