Paladar

Luiz Horta

Garrafa totalmente virtual

16 setembro 2009 | 21:31 por Luiz Horta

Na segunda passada houve um encontro sobre blogs de comida. Alguns convidados, entre eles o Luiz Américo e a Neide Rigo, debateram o tema. E outros mandaram textos. O meu é o seguinte:

A existência virtual me convém. Eu sou virtual. Quer dizer, tenho uma vida física como todo mundo, com apetite, sono e preguiça. E contas para pagar, muitas. Mas gosto desta ideia de estar em contato com todo mundo sem precisar ir aos lugares.

Na época da minha adolescência a imaginação mais delirante sobre o futuro, ou seja, em torno do ano 2000, era do tipo da família Jetsons. No século 21, iríamos comer pílulas, haveria tele-transporte e seríamos vestidos ainda dormindo, por robôs. O século 20 acabou, o atual já vai rapidinho para frente e nada disto aconteceu, o que deu um certo desanimo de blefe em nós todos. No caso de São Paulo nem mesmo transporte há…

Ficou com água na boca?

Mas espera lá! Pouco mais de dez anos atrás, eu precisava ter muita sorte e um dinheiro considerável para conseguir comprar um exemplar, com dias de atraso, da edição dominical do New York Times, na banca da praça da Republica. Hoje leio o jornal diariamente on-line. E de graça.
Para escutar um disco era preciso contar com a boa vontade de algum amigo viajante, que traria na mala o LP, aquele bolachão, meses depois de ter saído. Agora baixo as músicas em minutos. E se não gosto até deleto logo que escuto. Cinema não vou e não tenho TV, mas assisto o que quero. E por aí afora. Então não foi tão decepcionante assim o acontecimento de mudança de século, só foi bem sutil. Aconteceu a generalização da internet. Algo bem melhor, convenhamos, que os Jetsons, que não tinham a rede e a nuvem.

Para um ilhota (atenção! De ilha…) como eu, a internet permitiu que construísse meu jardim de Epicuro eletrônico, me livrei do que não gosto: não vejo nem escuto o que não quero; recebi a carta de alforria da tirania das unanimidades, como o som do Fantástico no domingo. Voltei para o armário e virei a mônada de Leibniz que sempre sonhei ser. Outro dia discutia (no twitter, claro) com um amigo sobre meu ídolo, o pianista canadense Glenn Gould e como ele teria adorado ter todos estes instrumentos de inclusão social sem sociedade junto. O eremita contemporâneo só precisa de uma conexão 3G. Mas tergiverso. Basta de teoria de mesa de computador.

Talvez para um cidadão virtual que não comparece a debates, o formato mais certo de enviar um texto não seja esse, discursivo. Deveria ser algo ligado ao nosso ofício de blogueiros. Ao convite da Janaína Fidalgo e do Carlos Dória, a resposta deveria ser um post, assim [que postado aqui ficou ainda mais engraçado, um texto que finge ser um post para ser lido num debate e que na verdade virou um post sobre um post sobre um debate. Alguém gritou Foucault e Barthes aí?]:

Como os celulares são a licença para andar falando sozinho pela rua sem parecer louco os blogs são uma forma de pensar alto, por escrito e jogar o conteúdo no oceano cibernético, dentro de uma garrafa, esperando que alguém, algum dia, leia. E a surpresa é que lêem. E ate comentam, repercutem, linkam, tecem uma rede de blogs, criam inimizades e amizades, clubinhos e confrarias.

A ideia é discutir para que servem os blogs ligados a comida. O meu sempre foi sobre vinhos. Estou conectado desde 1997, meu primeiro endereço de e-mail foi em 1998, um ponto com ponto ar pois eu morava no país vizinho. Tenho blog desde 2003, nestes 6 anos matei alguns computadores, mudei de provedores e de hospedeiros, mudei de opinião sobre vários vinhos, mudei de opinião sobre outros tantos assuntos. Mas mantive o mesmo blog, sempre chamado Glupt! E, felizmente, a mesma gata, a Frederica.

Qual a graça do blog de vinho? A mesma de qualquer outro tema, comparar experiências -ver o que pensaram de vinhos bebidos em diversas partes- de gente que nunca se encontraria de outra forma. É uma imensa, permanente e infinita mesa de degustação. Serve também de um bom aconselhador para compras. E é um hobby, uma confraria impossível de juntar de outra forma que não através da internet.

Durante meus primeiros tempos eu conversava diariamente com um grupo espanhol chamado Verema, era um clube que se reunia para bebericar e trocar impressões, mas ninguém estava no mesmo lugar. Todo dia colocávamos em foruns o que tínhamos provado, notas de degustação, palpites, pedidos. Aquilo virou um banco de dados gigante, guia algum de papel conseguirá superar o seu volume e abrangência. Quer saber como anda o Vega Sicília 1998 e quando abri-lo? Checa lá (ou em qualquer outro site via google) e terá uma chuva de respostas.

O formato é ótimo para vinhos (para receitas também, como provou a matéria sobre twiceittas que foi capa do caderno Paladar). Dá perfeitamente para descrever vinhos em forma de fichas blogadas. Já são milhares e qualquer vinho será encontrado nalgum comentário, de um advogado em Baltimore ou de uma dona de casa inglesa em Hampstead . Como em tudo mais, as autoridades, Robert Parker, Jancis Robinson e outros, tem seus sites que são mais requisitados. Mas nada impede que dona Chiquinha da cidade de Catas Altas no interior de Minas Gerais – tendo um computador- escreva sobre o Concha y Toro que comprou e achou com cheiro de compota de goiaba. Talvez do cruzamento de milhares de opiniões, dos taninos macios no jargão profissional de Jancis à compota de dona Chiquinha, consigamos vislumbrar uma silhueta do mais esquivo de todos os líquidos para ser descrito.

Tudo isto pode ser resumido: os blogs sobre vinho defendem duas coisas, o direito de cada um ter sua opinião e expressá-la e, mais importante, evita que se compre gato por lebre, ou no caso, zurrapa por Sauternes.

Você vê aquele vinho de rótulo imponente na importadora, nome francês complicado, com hífens e tal, algo como Château “Le petit Jésus en culotte de velours”, Presque-à-Bordeaux, Demi Classé rien de Cru, Cuvée Détraqué 2003 e antes de ficar confuso e pagar caro (todos os vinhos estão imensamente caros no Brasil) vai na internet e descobre que é um resto de uva Carignan produzido em tetrapack na Argélia e engarrafado aqui mesmo, um famoso Château Port de Santôs. Ou seja, vê isto e cai fora, antes de embarcar, como vítima, no crime de lesa palato.

Não vou continuar, ameaça ficar um “post” gigante. E atualmente estou muito mais entusiasmado com os microblogs, como o twitter. Falar em 140 linhas no princípio é difícil, porque quer comentar o climão que estava na hora de abrir a garrafa, o ser amado iluminado pela luz das velas, as suas taças Riedel que custaram uma nota e os canapés de foie e blá-blá-blá e mi-mi-mi… Serve a lição do mestre zen ao discípulo que escreveu seu primeiro poema. O poema era assim: “sob o luar, as cerejeiras” e exibiu o texto orgulhoso. O mestre, só fez um comentário: “tem cerejeira demais”. Pois no twitter é do mesmo jeito, sempre tem cerejeira demais.

Então duas tuitadas finais.
A descrição de um vinho em 140 toques:
Tondonia blanco Gran Reserva 1981, Rioja. Cor dourada, aroma de favos de mel, almíscar, peras, marzipã, acidez perfeita, intenso, sublime.

E a outra, o conselho definitivo em 140 toques:
Fique esperto, melhor guia de vinhos do mundo é o google, sempre consulte antes da compra uma garrafa. Leia blogs, compare. E leia o Glupt!

Precisa mais?