Paladar

Luiz Horta

Maravilhosamente portugueses

25 setembro 2013 | 23:05 por Luiz Horta

A Viniportugal, organismo de difusão e promoção dos vinhos portugueses, fez uma coisa notável. Portugal tem milhares de vinhos e centenas de castas autóctones e internacionais. Em lugar de eleger os melhores do país e passar a exportá-los para lugares tão diferentes em clima e gosto como seus maiores mercados, Estados Unidos, Brasil, Reino Unido, Alemanha e China, decidiu com sabedoria sair do prêt-à-porter das degustações e partiu para a alfaiataria fina.

Vem convidando especialistas de cada país e deixa que eles elejam quais seus 50 vinhos favoritos. Criam-se assim listas de 50 melhores no feitio, trabalhadas por palatos e olfatos locais; especialistas ingleses escolheram os melhores portugueses para o apreciador britânico e sucessivamente.

Agora é a vez do Brasil. O encarregado da tarefa cujo volume líquido é o de um Tejo foi o único master of wine brasileiro, Dirceu Vianna Junior; dele é a complicada missão de eleger entre 500 vinhos (5 centenas!) os 50 melhores para o gosto, comida e hábitos de consumo brasileiros. A lista foi divulgada ontem em almoço e o Paladar deu a notícia em primeira mão. Vianna está contente com o trabalho. “Tenho confiança de que não deixei passar nenhum vinho sem ter demonstrado o devido respeito a cada garrafa. Em certos casos, garrafas foram separadas e degustei os vinhos várias vezes, justamente para ter certeza.”

Ficou com água na boca?

Time da casa. Colunista degusta os tintos portugueses e monta sua seleção de 11 rótulos. FOTOS: Dênis Pagani/Arquivo Pessoal

Hoje falo das 11 garrafas da lista que escolhi para provar (afinal, sou jornalista de vinhos e não um degustador com o fôlego de Vianna Junior). Pincei alguns rótulos de Touriga Nacional, a maioria só da variedade, alguns em cortes com outras uvas, pois a Touriga Nacional é soberba e verdadeira uva símbolo de Portugal.

Já conhecia boa parte dos vinhos, mas houve novidades e surpresas (veja ao lado). Há uma exceção que explico em um box. Foi uma boa viagem ver como a uva se comporta do sul (Alentejo) ao norte (Douro).

Não resisti e comparei a lista brasileira a duas outras dos melhores para diferentes mercados: a de Julia Harding, feita em 2011 para o mercado inglês, e a de Doug Frost, deste ano, para o americano.

Os três degustadores – Harding, Frost e Vianna – são masters of wine. Curioso ver em que coincidem: apenas dois vinhos apareceram na lista dos três, ambos do Douro, os tintos Poeira e Chryseia. Quinta dos Roques, Quinta do Crasto, Quinta do Vallado, Batuta, Quinta dos Roques, Quinta do Perdigão e Vinha Pan aparecem sempre em 2, mas sem sobreposição; em média os degustadores coincidiram alternadamente em dez vinhos, o que mostra que os mercados não são tão diferentes assim.

O ponto de vista correto de Dirceu Vianna é que o consumidor brasileiro gosta de vinhos mais frutados, com estilo mais encorpado, e não se importa tanto com a potência dos vinhos, apreciando a presença ostensiva de carvalho e uva madura e álcool mais alto.

Concordo. Mas provando os maravilhosos vinhos do Douro que escolheu, os amplos e suculentos alentejanos e os estranhamente esquecidos vinhos do Dão, sutis e elegantes, dá para ver que não há como emular um estilo novo-mundista em Portugal.

O país é velho, a tradição de vinho remota; fazer de outro jeito é difícil, seria como um escritor com estilo muito peculiar, como Eça de Queiroz, por exemplo, tentar escrever de outra maneira. No caso, terroir é esse determinismo do estilo. Não adianta os portugueses tentarem fazer outra coisa: as uvas não deixam e seus vinhos sairão sempre maravilhosamente portugueses.

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FOTO: Luiz Horta/Estadão

11 entre os 50 melhores

Herdade da Pimenta 2010 | Potente corte alentejano com a Touriga Nacional temperada com Syrah. Bastante presença de carvalho, taninos ainda um pouco duros. Um vinho intenso. (Indisponível)

Tinto da Talha Grande Escolha 2009 | Bastante fruta madura no nariz, aroma de tabaco e tostado, suculento e carnudo na boca, taninos educados. Gostoso. (R$ 80, na Adega Alentejana, tel. 5044-5760)

Cortes de Cima Reserva 2009 | Um refinado corte de quatro uvas. Nariz complexo, toque de baunilha e tostado do carvalho. Boca impressiona. Taninos em evolução, bastante corpo, mas com fineza. Bom vinho. (R$ 488, na Adega Alentejana)

Quinta do Perdigão 2008 | Quando bebo um Dão, penso: preciso beber mais vinhos da região. Nariz algo fechado, na boca é delicioso. Mais para o lado elegância que potência. Grande vinho. (R$ 176, na Mistral, tel. 3372-3400)

Fonte do Ouro 2009 | Outra prova da qualidade do Dão. Aromático, floral, com taninos macios, suculento e elegante. Merece alguns anos de espera, quando vai chegar ao auge. Muito bom. (R$ 260, na Adega dos 3, tel. 99466-7060)

Vinha Pan 2009 | O auge do talento de Luís Pato, a suma do que é a Baga. Poderia passar por um austero Pinot borgonhês. Para guardar durante muitos anos. Encantou. (R$ 246, na Mistral). (Leia mais sobre este vinho no box acima)

Quinta do Noval Touriga Nacional 2009 | Um acontecimento. Nariz sedutor, floral e leve fruta madura. Na boca é longo, com acidez equilibrada. Taninos ainda por domar, para guarda. (R$ 418, na Adega Alentejana)

Chryseia 2009 | Unanimidade de todas as listas, não é exceção aqui. Um grande vinho, chance de usar a descrição de suntuoso. Taninos finos, longo, excepcional. Belo vinho. (R$ 396, na Mistral)

Passadouro Touriga Nacional 2010 | Do onipresente Jorge Serôdio Borges, um vinho notável. Taninos ainda muito duros. Jovem, denso e carnudo, caloroso e amigável, diria moderno. Feito com maestria. (R$ 208, na Adega Alentejana)

Quinta La Rosa Reserva 2009 | Nariz de porto que engana. Na boca é austero, mineral, elegante, um grande vinho ainda longe de seu auge. Para guardar. Lindo trabalho de Sophia Bergqvist. Um dos melhores da lista (R$ 337, safra 2007 – 2009 ainda não tem – na Ravin)

Quinta do Pessegueiro 2010 | Uma surpresa. Bastante aromático, floral e frutado, ainda bem jovem. Taninos delicados por evoluir. Boa presença de madeira, equilibrado e de bom preço para a região (R$ 174, na World Wine, tel. 0800 721 881)

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 26/9/2013

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