Paladar

Luiz Horta

Na ilha

04 julho 2009 | 05:36 por Luiz Horta

Acho que já falei de um poema de W.H.Auden de que gosto muito. “Thank you, fog”, um grupo de amigos isolado pela neblina aproveitando o que há de melhor: esquecer o mundo por um tempo, conversar. comer. “Jimmy, Tania, Sonia, me” diz o poema, em perfeito pentãmetro iâmbico tetrâmetro trocaico (veja o post seguinte).

Fui a um jantar do tipo, chez des amis queridos, que voltaram da lua-de-mel com garrafas, fotos, boa conversa. O cardápio primoroso foi de outro amigo, Nico Ravel. Uma boa desculpa para falarmos de vinhos e prová-los.

É preciso não levar vinho tão a sério, eu gosto de falar em fermentação malolática e leveduras, meu assunto clubístico, mas fora do métier o que importa é esta discussão à mesa, em torno de comidas e garrafas, sem querer convencer nem ser convencido. Toma-lá-dá-cá de civilidade. “Combinou, não combinou?” ou “Me passa de novo o Mouchão para ver se abriu na taça?”. E por aí vai.

Ficou com água na boca?

Começamos com Champagne Fleury e uma Insalata Di Strada (alface roxa e rúcula, zuchinni, berinjela, abóbora kabotian, échalotes, alho confitado, pimentão vermelho. Tudo sob um balsâmico de beber, não de salpicar, o que faz lembrar quanta porcaria de caramelo se vende por aí como aceto).

Depois um Muscat Bott-Geyl e beterraba com chèvre gratinado, broto de alfafa e grapefruit. Eu adoro grapefruit, minha fruta favorita, deu um citrino ao broto que foi relevante. Mas o Muscat fez muito bonito, nada planejado, apenas aconteceu. Muscat seco é algo para ser considerado, uma uva menosprezada demais, estragada por décadas em espumantes doces e enxaquecantes.

Então um salmão grelhado com vinagrete de mel e guacamole que para mim foi o auge do menú. O guacamole estava tão bem feito, com pequenos pedaços de abacate misturados ao creme e o tempero fresco contrastando com o salmão. Choque de texturas e temperaturas, precioso. Ficou melhor com o branco, mas flertou com os tintos que seguiam, o estranho Mouchão Tonel 3-4 e um magnífico Pera Manca 2005.

Uma pequena e perdoável maldade abrir um tinto destes tão cedo. A madeira ainda está se integrando ao líquido bem estruturado e com acidez viva. Pera Manca é o Vega Sicilia português, sem dúvida, até por um DNA (como diz o caro Saul Galvão) de Ribera del Duero, no uso imodesto mas focado de carvalho americano.

Os tintos iam acordando nos seus decanters enquanto chegava o prato seguinte, um mignon em crosta de cogumelos com manteiga de trufas e purê de batatas. A crosta levava umas pimentinhas cujo nome não anotei, mas que eram verdadeiro alucinógeno, de tão boas. E o purê era estilo Robuchon, aveludado de manteiga (uma coisa impossível, convenhamos, veludo e manteiga, mas o que eu quero dizer acho que ficou claro, velvet underground like).

Tínhamos ainda um Madeira, que nem foi aberto e queijos. O Livarot roubou meu coração. É como estar sentado no meio das vacas, no curral. Quem teve infância em fazenda saberá do que falo. Neuchatel, Reblochon, outros que esqueci. Um prato de queijos é um país, tem climas, picos, vales. E um Camembert, mas the real thing, untuoso, de má catadura e cheio de expressão, um camponês sem meias palavras.

Nesta altura já eram tantas taças que as harmonizações viraram dodecafônicas. Um branco engraçado da Campagnia, do grupo dos vinhos produzidos em condições on the edge (chamado vinis extremis) marcou lugar com os queijos.

Continuo em dúvida se vale mesmo a pena sair para comer em restaurantes,tendo amigos e vinhos assim. Onde aconteceria um jantar igual, com 6 horas de duração, refestelado num sofá?