Paladar

Luiz Horta

O Davi do Cone Sul

27 novembro 2013 | 22:10 por Luiz Horta

Na semana passada, falei da Viña Progreso, voo solo do jovem Pisano, quinta geração da família fazendo vinho na região de Canelones.

O Uruguai, tão pequeno, tão pouco conhecido, país do tamanho de uma região vinícola europeia, vai cumprindo seu papel de valente terroir, impondo-se pela qualidade dos vinhos, já que nunca se imporá por volume de produção ou por tamanho. É um player pequeno, mas capaz de derrotar os adversários com grandes vinhos. Falei e reitero: é o melhor lugar de vinhos aqui do Cone Sul, se levarmos em conta o número de rótulos e de vinícolas que tem. Não tem vinho ruim no Uruguai, tem medianos, mais simples, melhores, mas imbebível, nenhum.

Aproveito o fato de ter provado, em sequência, a linha de vinhos de dois produtores no espaço de um mês para voltar ao país – agora um pouco mais para fora do tradicional entorno de Montevidéu, onde ficam os mais conhecidos vinicultores.

A Garzón está próxima de Punta del Leste, sem tradição vinícola forte, mas com solo e, principalmente, clima atlântico de brisas frescas e colinas moderadas, onde a videira se dá bem. Por ali fica a Alto de La Ballena, que já foi descrita em coluna anos atrás. O chão é argilo-calcário.

Curiosamente, e para minha felicidade, a Garzón ousa concentrar sua produção nos brancos. Tem um Pinot Grigio muito gostoso, Albariños, um rosado de Pinot e dois Tannats. Como tudo na região, é bodega garagista, pequena, de produção medida em escala humana.

Todos os brancos uruguaios que bebi, e não foram poucos, têm grande personalidade, mas, lá como aqui, as pessoas bebem menos brancos que tintos, ainda por cima tendo a Tannat com grande estilo e forte apelo comercial no mercado externo. Lembro, sem querer esgotar a lista, dos excelentes Sauvignons Blancs do Castillo Viejo e dos precisos e frescos de Pizzorno.

A única vez em que participei de uma colheita foi justamente em uma noite de lua cheia na Castillo Viejo. A brigada usava capacetes de mina, daqueles com luzinha. Munidos de tesouras de podar, iam cortando os cachos de uvas maduras na madrugada, para manter o frescor aromático da casta. Colhi alguns cachos e percebi como é dura a vida de vinhateiro. Depois de tanta tensão ao longo do ano, diante das mudanças climáticas, no momento auge de recolher o fruto do que é seu modo de vida, ainda resta um pouco de medo de perder toda aquela uva pela chegada brusca do sol. Ao amanhecer, já tínhamos terminado tudo. Ufa!

Também brancos dignos de nota são o Torrontés da Pisano, o Albariño pioneiro dos Bouzas e o vetusto Preludio branco da Juanicó. E muitos outros. A Garzón produz dois Albariños, um reserva com estágio em madeira (R$ 97, na World Wine) e o que destaco ao lado. Preferi o frescor do sem madeira. A uva já fornece bom corpo e o vinho é fantástico.

FOTOS: Divulgação

Albariño 2012 – Muito Bom
Muito aromático, flores brancas e toque de pedra molhada. Na boca tem ótimo corpo, é presente sem ser pesado, acidez saborosa que faz salivar. Convida a umas ostras ou mariscos na plancha. Um achado, prova definitiva da qualidade dos brancos uruguaios. (R$ 53, na World Wine)

Tannat 2011 – Muito Bom
Belo nariz de frutas escuras, violeta, taninos presentes, mas em evolução, equilíbrio e elegância. Um Tannat fino sem deixar de ser o verdadeiro vinho do país; final longo e agradável. É amigo dos assados, da carne com camada de gordura. (R$ 53, na World Wine)

Tannat Reserva 2011 – Muito Bom 
Um pouco mais sóbrio que o outro, algo de tostado e de madeira no nariz. Na boca o carvalho aparece um pouco, mas de modo correto, é mais potente e tem visível capacidade de guarda. Feito com precisão. (R$ 97, na World Wine)

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 28/11/2013

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