Paladar

Luiz Horta

O Pinot filhote do homem-tatu

06 fevereiro 2013 | 21:30 por Luiz Horta

Fiz duas longas degustações de Pinot Noir da América do Sul logo que assumi esta coluna, três anos atrás. O efeito Sideways – Entre umas e outras, filme que colocava a Pinot como única uva digna de atenção e achincalhava a Merlot, ainda era quente. Suas reverberações foram tão fortes que até hoje há quem plante Pinot na esperança de pegar um rescaldo do sucesso cinematográfico. São as aberrações da cultura de massa. Nem todas as uvas se dão bem em toda parte. A insistência em países sem uvas autóctones (e mesmo aqueles) em ter um Pinot seu é geralmente frustrante. Mesmo assim, insistem – em alguns casos, admito, com bons resultados.

Nas duas degustações de Chile e Argentina de anos atrás a decepção foi, mais ou menos, generalizada. Salvaram-se os patagônios de Rio Negro, que voltarão em breve a ser provados aqui: os Bardas e Humbertos Canales. Mesmo promessas como o chileno Sol de Sol, de Viña Aquitania, fruto da mesma artesania que gera o Chardonnay maravilhoso do mesmo nome, talvez o melhor da nossa região, saiu-se mal. Casualmente, voltei a provar esse vinho agora, na safra corrente no mercado brasileiro, a 2008, e que mudança! Foi isso, mais o Clos de Fous, filhote do homem-tatu, Pedro Parra, que vem escavando terroirs dos dois lados da Cordilheira, que me motivou voltar a provar a casta. “Give Pinot a chance”, pensei.

Tem uvas que são globe-trotters, adaptam-se com facilidade, as chamadas variedades internacionais. É possível achar Cabernets e Chardonnays decentes em qualquer lugar, mesmo que nada notáveis. Já bons Pinots fora da Borgonha se contam em dezenas e não em milhares. Mesmo na Borgonha, a uva temperamental só se mostra na sua beleza com parcimônia.

Ficou com água na boca?

Pois os chilenos surpreendem. O Clos de Fous tende ao amigável, com muita tipicidade. É delicioso, equilibrado e diz com firmeza ser Pinot, do lado claro e feminino da uva. O Aquitânia é de outra prateleira, dos para guarda longa. Tem pretensões mais evidentes, no estilo másculo, com taninos marcados, excelente acidez e vai indo imutável nos seus cinco anos de vida. O Leyda é mais simples, boa compra, para beber logo e ser feliz. E o Marques de Casa Concha, com a mão certeira de Marcelo Papa, seu enólogo na Concha y Toro, é bem chileno, concentrado, denso, mas guarda boa pinoteidade. Um quinto vinho que fez bela figura foi o Undurraga Terroir Hunter T.H. Tão bela que resolvi deixá-lo para uma próxima coluna.

Agora sim, sem decepção, posso dizer que temos Pinots sul-americanos.

VIAGEM ENGARRAFADA

Documento

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Parada nº 57/100
Várias regiões do Chile

Pinot Noir
A uva delicada, tão ligada à Borgonha, está com boa adaptação nas regiões mais frias do Chile

Clos de Fous 2010 – Muito bom
Nariz muito típico, sanguinolento e com toque de defumado. Na boca é excelente, longo, acidez perfeita, mineral. Surpreendente. Pedro Parra está só começando… (R$ 168, Ravin, tel.: 5574-5789 ).

Marques de Casa Concha 2010 Concha y Toro – Muito bom
Fruta madura e toque compotado. Intenso na boca, taninos para amaciar, muito bem produzido, com longo retrogosto, em um estilo potente  (R$ 110, preço sugerido. VCT Brasil, tel.: 5105-1599).

Leyda Reserva 2011 – Muito bom
Nariz frutado, boca ainda bem jovem, é mais simples, mas muito satisfatório pelo preço, tem qualidades de Pinot, sem ser notável. Bom para introduzir a casta (R$ 47, Grand Cru, tel.: 3062-6388 ).

Sol de Sol 2008 Viña Aquitania – Muito bom
Nariz de frutas escuras, vetusto, bem sério na boca, para guarda, ainda está no início de sua vida, ótima e elegante acidez e taninos presentes mas muito finos. Um grande vinho (R$ 106, Zahil, tel.: 3071-2900).

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