Paladar

Luiz Horta

Onde anda o Dry da madrugada?

31 maio 2011 | 13:25 por Luiz Horta

Cada um classifica as cidades como gosta ou precisa. Pode ser em grandes, médias e pequenas, modo mais comum na visão do geógrafo. Ou bonitas e feias, como um turista as verá. No caso do termo metrópole, a coisa complica.Gosto do que escreveu Edmund White, no melhor livro que conheço sobre Paris: O Flâneur
(Companhia das Letras, esgotado). White, nascido no interior dos Estados Unidos, em Ohio, diz que uma cidade para ser grande precisa ter negros, prédios altos e dormir tarde. Daí começa um brilhante ensaio sobre os jazzmen negros na Paris entre guerras.
Pego o mote e afirmo: para mim, uma cidade realmente grande permite que você beba um dry martíni às 6 da manhã. Não que eu queira ou precise do drinque nesse horário, mas quero saber que está lá, que pode ser tomado calmamente num fim de noite prolongado. Passei meses pesquisando a hipótese do martíni da madrugada. Não queria num clube com música nem em bar da Vila Madalena. Queria o de lobby de hotel, com silêncio, poltronas e serviço. Procurava o estereótipo do man about town, um David Niven ou Fred Astaire, sempre com a taça na mão. O homem mundano que quer um coquetel na hora que tem vontade, porque sim. Minha primeira opção foi o Emiliano, onde me sento confortável, com os pés nos ottomans dos irmãos Campana… Fechado. De lá fui para o ambiente perfeito do Hotel Fasano, fechado também antes de amanhecer. Tem o Baretto, mas é outra coisa, música ao vivo. O SubAstor, delicioso dry, fecha no meio da noite. São Paulo parecia grande – cada vez maior no mapa e diminuída no mito de metrópole. O bar Volt, cujos drinques aprecio pela impecável execução, não vê o sol nascer. Já estava sem opções e a urbe paulistana ficando indefensável quando alguém falou no Maksoud. O velho hotel ainda estaria aberto? “Não fechamos”, informou o manobrista. O gigantesco hall tinha garçom de gravata borboleta, poltronas e o dry de rigor. Tomado, como desejado, às 6 da manhã. São Paulo é uma metrópole, afinal.
[publicado originalmente na coluna Glupt! do Paladar, edição de 19 de maio de 2011]