Paladar

Luiz Horta

Ótimas notas de corte

11 setembro 2013 | 22:30 por Luiz Horta

Provei vinhos que se destacaram no recente Decanter Wine Show, para fazer um resumo para a coluna. Acabei fascinado pelos cortes sul-americanos e selecionei três. Voltarei ao assunto, porque quero falar mais de Marcelo Retamal, esse inquieto enólogo da De Martino. Mas hoje só falo dos cortes (embora haja um vinho de Marcelo na lista).

O Chile está mais acostumado aos blends, apesar de ainda muito preso aos monovarietais, como os feitos com sua emblemática Carménère; os chilenos já fazem excelentes vinhos de corte faz tempo. A Argentina, ainda muito fixada na Malbec, custou mais a produzir grandes cortes. Claro, estou generalizando. Vinhos clássicos como os Montchenot das Bodegas López são cortes. E há os excelentes Caro (Catena + Rothschild), Z de Zuccardi, Pulenta Estate, DiamAndes e muitos outros. Mesmo assim, a ênfase foi na Malbec, que atingiu seu auge recentemente.

A fixação em uma uva e seu aperfeiçoamento é trabalho do campo. Acontece nos vinhedos, com os desdobramentos solo adentro a que se dedicam alguns atualmente. O corte é trabalho na cantina, arte da assemblage, talento de enólogos.

Ficou com água na boca?

Melhor exemplo de região de excelência em poucas uvas é a Borgonha, com a terra por vocação, onde a natureza domina a qualidade dos vinhos. Exemplo ideal de região de grandes cortes é Bordeaux, onde impera a capacidade enológica de manter padrões e estilos, misturando uvas para um efeito que minimize o impacto da natureza, respeitando regras. Bordeaux, a racional; Borgonha, a temperamental.

Chile e Argentina, por suas qualidades climáticas e de solo, podem ter as duas coisas: a surpresa de cada ano, as características das safras apreendidas nos vinhos de uma uva só, e a cartesiana obra de equilíbrio nos vinhos de corte. Avaliei 12 vinhos, todos com muita qualidade. Destaco os que mais me encantaram, excelentes. Beberia o Benegas Lynch Meritage com muita frequência e adoraria ver como vai seguir evoluindo na próxima década. O preço é que não ajuda, mas o vinho vale. É um verdadeiro château mendocino, surpreendente.

FOTOS: Divulgação

De Martino Armida 2007 – Excelente
Nariz com toque floral, muitas especiarias no aroma. Na boca é delicado, tem mineralidade quase salgadinha, taninos refinados e gosto de quero mais. Ótimo (R$ 375, na Decanter, tel. 3702-2020)

Riglos Gran Corte 2010 – Muito Bom
Nariz muito elegante, incenso, vela apagada, tabaco. Ótima acidez na boca, longo, equilibrado, não mostra os 14 de álcool. Feito com precisão, sem arestas. Taninos um pouco duros e marcados (R$ 179, na Decanter)

Benegas Lynch Meritage 2007 – Favorito!
Nariz de fumo fresco, ameixa seca, couro, muito atraente. Leve mentolado na boca, fino, elegante, longo, taninos finos e em evolução. Grande vinho com possibilidade de guarda. Um acontecimento. Entre os melhores argentinos que já bebi (R$ 278, na Decanter)

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 12/9/2013

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