Paladar

Luiz Horta

† R.I.P. Saul Galvão

09 setembro 2009 | 10:42 por Luiz Horta

Conheci o Saul Galvão quase 20 anos antes de conhecê-lo de fato.

Tive como primeiros livros o “Vinhos do Mundo” do Amarante, o “Atlas do Vinho” de Hugh Johnson e o “Prazeres da Mesa” do Saul. Era fantástico. Lá no profundo deserto de garrafas que era Belo Horizonte em 1987, folhear o livro -e imaginar como aquele sujeito de bigodes elaborados passava bem em São Paulo, indo a todos aqueles restaurantes- era como um delírio. Sonhar com a São Paulo do Saul, onde havia o Mássimo, o Fasano, o La Casserole, o Freddy e tantos outros, era como imaginar Paris. Repeti, desastradamente, inúmeras vezes, a sua receita de tarte tatin, e nunca deu errado.

Só fui apresentado a ele em 2001. Pouco depois tive a chance de vê-lo em ação. Numa degustação de vinhos do Piemonte e da Toscana comandada por Ciro Lilla, na Figueira Rubayat, Saul chegou atrasado e esbaforido. Os vinhos já estavam servidos e não havia identificação. Ele bebeu todos, um a um, e identificou todos, às cegas. Pediu para encherem as taças de novo e continuamos a degustação. Conhecimento e habilidade semelhantes, em pessoa com outro temperamento e noutras temperaturas, teria resultado num Parker. Ele preferiu, para nosso bem, ser o Saul. Um Parker hedonista, pois para que serve o vinho sem prazer?

Ficou com água na boca?

Depois disto, tive a felicidade de trabalhar com ele no Paladar. Tempo muito curto, infelizmente, mas o suficiente para acompanhá-lo numa entrevista com o Doutor Nicolas Catena. Na verdade fui de coro grego, porque não tinha que abrir e nem ousei mexer, a boca. Mas vi o Saul se transformando num adolescente animadíssimo, fazendo um Catena deliciado desenhar mapinha de Mendoza, com todas as subregioes, num guardanapo, que guardou para um futuro livro, que agora não existirá. O propósito do Saul, anunciado no percurso até o Hilton, era fazer o grande produtor argentino admitir que gostava mais de Cabernet que de Malbec. Conseguiu.

Não era esnobe, não era pomposo, e era – está em todos os depoimentos escritos ontem- muito generoso, compartilhando a mesa e as garrafas. Sem maiores complicações, se você gostasse de vinho ele dividia, informava, explicava, como tão bem contou o Luiz Américo.

Apesar do temperamento em permanente combustão, divertidamente mercurial (bastava sugerir qualquer coisa anti-francesa que ele embarcava em apaixonada defesa de seu segundo país querido) não era rancoroso e reagiu com nonchalance ao ataque gratuito e de má-fé do punguista intelectual chamado Jonathan Nossiter.

Mas as amargas, não. Prefiro lembrar só mais dois episódios, luminosos.

Depois de um espetacular almoço no D.O.M. com a prova de todos os vinhos de Monsieur Aubert de Villaine, do Domaine de la Romanée Conti, Saul me deu uma carona para casa, e bestamente comentei: “gostei muito do Montrachet, mas não seria um vinho que beberia todo dia, pois é muito complexo, pede atenção demais, intenso”. Ele de bate pronto, com um ar desafiante que lhe dava um aspecto juvenil e um sorriso irônico, muito típico, parou o carro, virou para o neófito atrevido que dizia tamanha bobagem e disse: “eu beberia!”. Riu, fez uma curva quadrada e me deixou em casa com a boutade reverberando.

E no Paladar do Brasil, no Hyatt, poucos meses atrás, de bengala, muito frágil, com grande esforço, enobreceu a mesa da degustação vertical de Miolo Lote 43. Apesar da voz fraca seu charme e sua verve estavam lá intactos. Talvez na que tenha sido sua última aparição pública profissional, emocionou a todos dizendo: “bebam as garrafas, não fiquem guardando”.

Espero que tenha dado tempo, que ele tenha bebido todas, cultor que era da boa vida, da alegria de viver e da forma superior de humanismo que é a sabedoria à mesa. Savoir-vivre parisiense, elegância jauense e cavalheirismo britânico. Não são poucas virtudes e a sua morte faz, muito além do clichê dessas situações, um grande oco no nosso conhecimento de vinhos. Felizmente teremos sempre os livros e os artigos.

O Glupt! não gosta de posts comovidos. Desta vez foi inevitável.

É como ter sua adega inundada pela chuva e todas as garrafas se perderem. Taí a sensação que fica da morte do Saul. Passei a mão na foto do Blog do Didu, que mostra uma imagem que vale guardar na memória.