Paladar

Luiz Horta

Talk sweet, drink dry

07 novembro 2009 | 16:19 por Luiz Horta

Não é incomum ter uma decepção e uma alegria num mesmo movimento.

Sempre tive a certeza que São Paulo era uma metrópole, onde poderia achar o que quisesse na hora que precisasse. Por muito tempo fiz minhas compras de supermercado às 3 da manhã, o que garantia minha segurança sobre o assunto SP-24 horas. Isto até ontem.

Depois de um jantar de comida decepcionante, deu vontade de continuar a conversa com os amigos tomando um drinque. Mas num lugar próprio para isto. Um simples desejo humano cosmopolita de beber um Dry Martini numa boa poltrona. Foi aí que começou a saga. E as decepções em cascata.

Ficou com água na boca?

Rumamos para o lobby do Hotel Fasano. Eu poderia morar lá. Não sei porque tem gente que mora em saguão de aeroporto, como aquele personagem de filme. Se eu tivesse que escolher viveria para sempre ali, naquelas poltronas de club inglês. Isto até ontem. Pois numa 6a feira à noite – com a cidade quente no calor da temperatura e no chill in em todas as caras pelas ruas lotadas – o Fasano não serve drinques no lobby, depois de 1 da manhã…

Emiliano! Claro, como me esquecia do meu outro lobby predileto? Poltronas dos irmãos Campana, serviço atencioso, coquetéis bem misturados, serviço noite adentro, que pode ser continuado com o café-da-manhã, cujos pães jã estão sendo preparados, atendentes vestidas de Ninotchka por Ocimar Versolatto…

Entramos fagueiros, bem recebidos, nos sentamos, ottomans para jogar as pernas e…nada de bebidas depois de 2 da manhã. O Emiliano era minha última garantia de uma sala de visitas para beber um drinque quando eu desejasse, na metrópole que nunca fechava nem dormia. Isto até ontem.

Desespero. Era um drinque, um simples drinque! Mas precisava ser num ambiente onde a voz pudesse ser ouvida. Não queria Vegas, Glória, Club A, Funhouse ou D-Edge, nada de baladas, mauricéia desvairada, baticum no ouvido, gente produzida, calças skinny e celebridades empoeiradas e desconhecidas. Nada de festa. Só um simples gin com vermute misturado e não batido, aquela velha história.

Tragédia é uma coisa que começa bem e acaba mal. Comédia o contrário. Três pessoas suspirando por um lugar, não mais por vontade de beber algo, mas para provar uma tese, sem admitir voltar para casa e constatar que o melhor sempre é nossa própria sala, minha permanente tentação de eremita amador. Eis a cena cômica. E tais pessoas conseguiram coletivamente extrair da memória um endereço. o Sub Astor. E veio o hollywood ending.


[Escondido e perfeito. Foto cedida pelo blog Que Bicho]

O Sub Astor redimiu São Paulo do rebaixamento na minha cabeça para a segunda divisão da vida noturna.
Descendo as escadas para o porão perfeito do bar meu cérebro cantarolou com voz de Fred Astaire: “Heaven, I mean Heaven…” e foram os mais perfeitos Dries, Dirties e Vodca Martinis, Whisky Sours e até uma novidadeira e deliciosa molecularidade, a Foam Margarita.


{Martinis: Dirty, Clássico, Tradicional,etc e mais]

Faltou o Midori Martini e o Água do Mar do Henrique do Kinoshita. Minha ideia, quando cheguei em casa, já amanhecendo, foi propor aos donos que abram o Sub Braz em Higienópolis. Mas foi só um devaneio…


[Bourbon Sour, quando vi, já tinha acabado]

São Paulo tem tônica sim (no gin) às 4 da manhã. Aconteceu e ela voltou a ser Madri, voltou a ser Buenos Aires. E isto foi ontem.


[Foam Margarita, a molécula a serviço da felicidade]