Paladar

Luiz Horta

Três natais em um ano

02 janeiro 2014 | 11:44 por Luiz Horta

Passei dezembro na França, visitando a Alsácia, por uma semana (contarei tudo em breve) e depois flanando por Paris. Isso me deu a encantadora possibilidade de atravessar tradições natalinas bem peculiares. Do mesmo modo que as crianças francesas sonham com Tintin e Milou e não com Mickey Mouse, elas esperam seus presentes de outras figuras não criadas nos Estados Unidos.

Papai Noel na Alsácia é São Nicolau, que faz sua entrada em cena no dia 6 de dezembro, com as devidas companhias gastronômicas para os adultos. Come-se  quantidades descomunais de foie gras e a especialidade chamada baeckeoffe, uma calórica torta assada com carnes de vitelo, porco e cordeiro entremeadas por batatas. Com as castanhas, os biscoitos amanteigados típicos do período e os poderosos chucrutes, a presença dos Rieslings, Pinot Gris e Gewurztraminers é de rigor. Enquanto minha expectativa era por Rieslings botritizados como combinaçãocom a comida, quem se destacou foi o Pinot Gris Vendanges Tardives Trimbach 1999, um inesperado e sutil vinho doce de uma uva normalmente neutra e pouco dada a este tipo de aparição longeva e complexa, pelo menos até onde a minha ignorância sobre ela me permitia. Voltei convertido ao Pinot Gris alsaciano (e o Pinot Noir e o Pinot Blanc de lá também).

Meu segundo Natal, o tradicional, em Paris, tem menos terroir, a cidade está ocupada demais com sua beleza, olhando-se refletida no Sena o tempo todo. Meu natal parisiense foi mais urbano, Missa do Galo na espetacular igreja de St.Eustache, concerto de orgão com o grande Jean Guillou, pain d’épices, marrons em confit com vinhos doces de Maury, Sauternes e champagne.

Ficou com água na boca?

Como capital e centro do país, para onde os vinhos e melhores produtos acabam indo, Paris me deu tempo de pensar sobre a terceira festa, visitando museus (ando em uma erudição insuportável, preciso voltar ao normal, deve ser a água). A tradição dos Reis Magos (péssima tradução que ficará para sempre, na verdade, no curto relato de Mateus, homens sábios vindos de terras distantes, sem número preciso, a tradição fixou em três) não é desprezível. São eles que trazem presentes em grande parte da Europa e o dia de reis é a festa mais importante em muitas cidades. Em Barcelona é o feriado maior, passei um dia de Reis lá, anos atrás, e a cidade foi para a rua ver o desfile dos visitantes, que desembarcam no porto, são recebidos pelo prefeito e recebem as chaves da cidade.

Há em todos museus  franceses dedicados à pintura pré-moderna muitas representações destas figuras. Eles são provavelmente apenas um símbolo dos continentes conhecidos, quando começaram a ser exibidos em cenas da Natividade. Europa, Ásia e África e traziam o que todo mundo sabe à exaustão: ouro, incenso e mirra.

Mirra sempre intriga, pois ouro e incenso são autoexplicativos. Na verdade uma bela alegoria sobre a dor que aquele recém nascido vai passar na sua vida futura, na morte de cruz, mirra é um analgésico ancestral e também óleo usado para embalsamar. Mas a coluna é sobre vinhos, eu sei, e estou demorando a chegar neles.

Trouxessem os reis vinhos seriam doces, porque os pratos são para eles, como o Pinot Gris que me encantou, o ouro poderia ser um  Sauternes para o foie, o incenso um Madeira que tem tanto aroma de incenso e tostados para as castanhas e a mirra, antes que a piada e a metafóra se estiquem demasiado, termino não com um remédio para ressaca, mas um delicioso Porto Ruby para a rosca de reis. Depois de 1 mês de festas, o dia 6 de janeiro, dia da Epifania, marca a hora de um cálice adional para encerrar a temporada e começar o ano revisitando o que terminou. No próximo post faço um balanço final de 2013.

Feliz dia de Reis!

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