Paladar

Luiz Horta

Em nome do impuro

02 fevereiro 2009 | 19:16 por Luiz Horta

Venho adiando como posso tratar de um assunto complicado: a pureza.
A ideia idílica do homem do campo intocado, em contato direto com a natureza e interpretando-a na garrafa de seus vinhos imaculados é um dos mitos mais queridos por nós, urbanóides. Talvez o último refúgio mental para nossas existências, pouco ou nada campestres.

Daí o sucesso, por exemplo, do filme Mondovino. Ele fazia vibrar justamente esta corda, a do último romantismo, do pequeno produtor contra a grande corporação que destrói os vinhos verdadeiros. Era divertido, mas não exatamente verdade. A coisa tomou tais proporções, entretanto, que a palavra orgânico começou a ficar mais importante que o resto. E então incomoda.

Uma boa comentarista de vinhos, como Alice Feiring, se destruiu sendo xiita. Não dá mais para lê-la, ela não fala mais de vinhos, do que bebe, mas sómente da sua doentia ideologia anti-Parker e das zurrapas que aprecia, horríveis vinhos rústicos, mas absolutamente puros. Diga-se, aliás, que ela cada vez gosta de menos coisas. A consequencia mais imediata do radicalismo é o encolhimento. Primeiro não bebe vinhos industrializados, depois restringe à um país, depois região, finalmente vira uma espécie de religião leiga, a do terroir.

Ficou com água na boca?

Vinho é a respeito de curiosidade, interesse pelo mundo, crescimento de horizontes. Uma pessoa que diz: “não bebo Chardonnay californiano” ou “não ponho Pinot Noir que não seja da Borgonha na boca” já deu o primeiro passo no estreitamento de sua visão. Começa assim e para deixar de gostar de vinho é o passo seguinte.

No tamanho de um post não dá para tratar de todas as nuances do tema. Mas posso tentar resumir numa coisa: não abro mão de um grande Bordeaux -um Cos d’Estournel, um Lafite, para mencionar dois notáveis- por não ser orgânico. Seria tolice e seria contraditório com o próprio prazer dos vinhos.

Acho que o zelo pelas plantações (e uva é um produto agrícola) é desejável. Ninguém mais tem o entusiasmo furibundo por pesticidas e fertilizantes que havia quando surgiram estes auxílios químicos à agricultura. Mas não dá para quebrar toda a tecnologia e perder sutilezas que a ciência permite à uva. É preciso entender que em certas regiões problemáticas, o ataque de mildio, oidio, botritis indesejada, tem que ser combatido, ou se perde a safra.

Nem todo vinho orgânico é bom, atenção para isto. Antes as pessoas perguntavam de que região o vinho era. Depois veio a mania de saber as variedades. Agora, antes de qualquer coisa, vem a pergunta: “é orgánico?”. Já vi produtores sérios de vinhos excelentes tendo que fazer contorcionismos verbais para não responder a isto. Não querem perder o cliente, não querem mentir, mas prefeririam que seus vinhos fossem avaliados pelo que são e não por uma palavra no rótulo.

Eu ainda estou abalado pelo ruim que era um Riesling Binner que tomei mês passado. Toda a graça desta uva espetacular perdida em nome de uma autenticidade duvidosa. Adianta ter a santíssima trindade: orgânico, biodinâmico e natural, estampada no rótulo e ser muito ruim? Menos, pessoal, menos.

Entre um vinho orgânico e um não-orgânico, prefiro o que estiver melhor.