Paladar

O Cachacier

Tudo sobre cachaça, por Mauricio Maia

Existe uma forma correta de beber cachaça?

Qual a melhor forma de apreciar todos os aromas e sabores que uma cachaça pode oferecer? É uma heresia colocar gelo? E a cachaça gelada? É válida ou é só modinha? Ache sua resposta!

01 novembro 2016 | 20:28 por Mauricio Maia

Uma pergunta recorrente, e que ressuscitou após o post sobre os copos apropriados para se beber cachaça, é se existe uma forma apropriada para se degustar cachaça.

Não é uma resposta fácil. Uma das coisas que mais me atraem na bebida é sua simplicidade e sua espontaneidade, e ficar determinando regras e limites em nada combina com isso. Para tirarmos alguma conclusão, é necessário que olhemos para o assunto através de alguns conceitos diferentes. Vou começar pela parte técnica.

 

Ficou com água na boca?

Cachaça on the rocks

Uma cachaça envelhecida em carvalho americano e 42% Vol, com uma bela esfera de gelo. FOTO: Mauricio Maia / Acervo Pessoal

Segundo a legislação, devemos medir a graduação alcoólica da cachaça utilizando um aparelho, semelhante a um termômetro, chamado alcoômetro, que nada mais é que um densímetro que indica a densidade da mistura de álcool e água de um determinado volume de cachaça. Como sabemos a densidade da água e a do álcool, fazendo uma conta simples (ou, mais fácil ainda, utilizando uma tabela), descobrimos a porcentagem de álcool presente na mistura. E essa medição deve ser feita a 20°C.

A partir desse dado poderíamos afirmar que a cachaça deve ser apreciada a uma temperatura de 20°C, correto? Não exatamente, pois existem diversos fatores mais subjetivos (sensoriais e de ambiente) que podem tornar a experiência mais prazerosa e não são considerados pela regra técnica.

Por exemplo: vivemos em uma país de clima tropical, que no verão pode atingir temperaturas escaldantes. Em um dia quente, de bastante calor, pode ser muito agradável apreciar uma cachaça bem gelada. E o motivo vai além do poder refrescante. Gelada, a cachaça fica menos volátil e libera menos vapores. Esses vapores carregam as moléculas responsáveis por sensibilizar nossos sentidos e nos fazer sentir as características de aroma e sabor da bebida. Enquanto a temperatura do copo vai subindo, a bebida vai liberando cada vez mais esses vapores. Assim, cada estágio vai nos permitindo novas sensações. Resumindo: a bebida evolui no copo.

E o inverso também é válido. Em um dia frio de inverno, uma cachaça pura a temperatura ambiente vai nos oferecer uma sensação de calor e aquecer nosso corpo e nossa alma.

E o gelo? Ah! O gelo. Polêmico, ele também pode ter seu papel. À medida que ele resfria a bebida, limita os já citados vapores alcoólicos, o que vai suavizando a sensação da bebida. Ao mesmo tempo, ele também vai diluindo a cachaça, o que permite que a sensação alcoólica seja menor e interfira menos nos aromas. Ou seja, pode nos permitir sentir sabores mais sutis que possivelmente ficariam mascarados pela potência do álcool.

Mas aqui vale um alerta. Não é qualquer cachaça que consegue segurar uma boa pedra de gelo. Cachaças com graduação alcoólica baixa – lembrem, a cachaça pode ter de 38% a 48% de álcool – podem ficar aguadas rapidamente conforme o gelo derreter. Por isso, se você quiser apreciar uma cachaça “on the rocks”, prefira uma com volume alcoólico superior a 41%.

Tirando isso, minha dica mais valiosa é: aprecie sua cachaça da maneira que lhe dê mais prazer. E, preferencialmente, em uma boa roda de amigos.

Saúde!

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