Paladar

Feijoada e Vinho

01 dezembro 2007 | 12:54 por Jamil Chade

Eu sei que o assunto é mesmo polêmico, mas vou me arriscar. Já escrevi sobre o assunto para o Paladar e agora volto ao assunto, atualizando alguns aspectos.

Talvez o fato de eu gostar tanto de vinho (e de feijoada) me levem à conclusões meio discutíveis. Mas o fato é que a feijoada não é tão hostil assim ao vinho, bem ao contrário. Pois suas carnes aceitam tintos de vários estilos, desde que não sejam tânicos. O tanino é aquele componente de alguns tintos, normalmente encorpados, que amarram a boca, como algumas frutas verdes. Assim, a lógica sugere tintos bastante frutados como um bom Lambrusco e um espumante tinto (ou rosado). Meu amigo Jorge Lucki me indicou um Bourgogne com o nosso prato.

O Bourgogne, feito com a Pinot Noir tem classe, mas não é tânico. Provei e gostei. Outros tintos ligeiros, frutados e não tânicos, como um bom Merlot nacional, um cru do Beaujolais e muitos outro não vão brigar com o prato. Podem não proporcionar grandes casamentos, mas as partes se suportam e, em alguns casos, se ajudam.

Ficou com água na boca?

Mas a melhor combinação que encontrei até agora foi de um espumante tinto, no caso um Chandon, com a feijoada. Uma sugestão do amigo Amarante. Não são tantos os espumantes tintos, mas há bons exemplares em Portugal. Um bom espumante rosado, tão na moda, pode ser experimentado. As bolinhas têm o condão de “limpar” a gordura da feijoada.

Há algum tempo, a Associação Brasileira de Sommeliers promoveu uma degustação mais do que interessante, no restaurante Tordesilhas, para verificar a compatibilização desse prato nacional com vinhos e cervejas.

O resultado não foi propriamente uma surpresa, pois um Lambrusco foi o melhor. Atenção, estamos falando do verdadeiro Lambrusco, feito com a uva do mesmo nome na Emilia-Romanha e não essas bebidas docinhas, baratas e medíocres que encontramos normalmente nos supermercados. É difícil encontrar um bom Lambrusco em São Paulo. O Lambrusco original é um tinto clarinho, com gás, seco e bastante frutado. Um vinho praticamente sem tanino A Emilia é famosa pela sua cozinha primorosa, pelas massas recheadas e, principalmente pelos seus embutidos e pratos gordurosos, feitos com o porco. Tanto que é chamada pelos italianos de “Emilia, la grassa” (a gorda). E é o Lambrusco o vinho escolhido para acompanhar esses pratos gordurosos. Mais uma indicação de que as bolinhas ajudam a lavar as gorduras.

Os frisantes tintos vão bem, mas é bom esquecer o duro e tânico Vinho Verde tinto.

Voltando à degustação da ABS, foram testadas ainda várias cervejas com a feijoada. As grandes, encorpadas, cheias de lúpulo, cervejas européias, notadamente belgas, estranharam o prato. Já uma leve e muito bem gelada cerveja tipo Pilsen nacional foi melhor. Mais leves, elas não competiam tanto com a feijoada (cerveja é quase um prato, chamada de “pão liquido”) e ajudavam a “lavar” a gordura.