Paladar

Tintos baratos feitos com a Malbec

10 abril 2008 | 00:41 por Jamil Chade

Reprodução de uma coluna publicada no suplemento Paladar em março deste ano.

A história da uva Malbec mostra muito bem os altos e baixos da industria vinícola argentina, atualmente numa ótima forma. Ela chegou à Argentina em meados do século 19 e hoje é a principal tinta em quase todas as regiões vinícolas, principalmente em Mendoza, de longe a maior e mais importante do país. Com ela são feitos tintos muito bons em vários níveis. Aqui, produtos mais populares, porém bons, com preços que não ultrapassam os R$ 25.

O escritor Gustavo Choren, em seu belo e muito útil El Gran Libro del Mabec Argentino, destaca que é muito difícil precisar a rota da uva até Mendoza. Ele lembra a versão de que ela foi levada do Chile para a região de Mendoza pelo enólogo francês Michel Aimé Pouget, que fundou a primeira estação de pesquisa vinícola no país. Mas argumenta que essa história não explica satisfatoriamente a chegada da Malbec a outras regiões, algumas bem distantes. Para ele, é pouco provável que os 60 mil hectares que existiam em 1950 tivessem uma única origem. É mais lógico, conclui, que a uva tenha sido levada para Mendoza por várias pessoas e em várias épocas.

Ficou com água na boca?

Ela foi muito bem aceita, pois produzia bastante e seus vinhos tinham muita cor, um aspecto muito importante na época.

Curiosamente, a Malbec foi vítima do enorme sucesso da indústria do vinho na Argentina, que estava no auge em meados do século passado. O negócio era produzir vinhos comuns em série para matar a sede dos consumidores. Em 1970, o consumo era de 91,66 litros por habitante-ano. Hoje, fica em torno dos 30 litros por habitante-ano. No “milagre econômico”, privilegiando a quantidade em detrimento da qualidade e perto de 50 mil hectares de Malbec foram arrancados, substituídos por uvas mais produtivas e piores, como Cereza e Criolla.

Na década de 1980, premida pela queda de consumo, as vinícolas passaram a dar mais atenção à qualidade. Com esse “renascimento” do vinho argentino, que continua até hoje, a Malbec recuperou a posição de uva fina mais plantada no país, mas nunca mais chegou aos níveis de 1950, subindo de pouco mais de 10 mil hectares em 1990 para perto de 26 mil hectares em 2006.

Trivento Tribu 2006
Onde encontrar: Wine Premium: 3040-3411.
Preço: R$ 23.
Cotação: 87/100 pontos.

Provado para a coluna Tintos e Brancos e publicada no suplemento Paladar em abril de 2008. O preço e a disponibilidade são da época da publicação.

A Trivento é ligada à gigante Concha y Toro, do Chile, que montou uma vinícola grande e moderna em Mendoza. Seus vinhos estão melhorando sensivelmente de ano para ano. Vinhos de vários níveis e preços. Este é da linha básica e impressionou muito bem mesmo, especialmente se levarmos (como se deve) seu preço. Um vinho novo, mas pronto para o consumo. Cor de vinho novo, violácea. Aroma intenso, de frutas muito maduras, evocando compotas, o que encontramos em bons exemplares da Malbec. Algo de ameixas pretas e caramelo. Agradou principalmente pela sua concentração de sabor na boca. Redondão, gostoso, fácil e beber. Boa acidez, nada enjoativo. Álcool muito bem equilibrado. Ainda um pouco tânico, mas não amargo. Final agradável. 13,5% de álcool.

Anúbis Reserva 2005
Onde encontrar: Cantu: 0300-210-1010.
Preço R$ 23.
Cotação: 87/100 pontos.

Provado para a coluna Tintos e Brancos e publicada no suplemento Paladar em abril de 2008. O preço e a disponibilidade são da época da publicação.

Um tinto da Domínio del Plata, uma vinícola de Agrelo, Mendoza, dos grandes enólogos Susana Balbo e Pedro Marchevsky, que trabalharam na Catena e são muitos respeitados em Mendoza. Uma vinícola relativamente pequena, mas com tintos, brancos e rosados de vários níveis. O Anúbis é um tinto bem feito, com ótimo aroma e não tão bom na boca. Aroma complexo, com toques tostados e de baunilha. Na boca, dois tempos. Começa realmente muito bem. Intenso, redondo e gostoso. Boa acidez, mas ainda um pouco tânico. Ao final, os taninos vão ficando mais marcantes, mais agressivos. Talvez melhore com mais tempo na garrafa. Ao final, deixa a boca meio seca, rugosa. Álcool bem equilibrado, nada agresivo. 13,8% de álcool.

Tília 2006
Onde encontrar: Vinci, Televendas: 6097-0000.
Preço: R$ 25.
Cotação: 87/100 pontos.

Provado para a coluna Tintos e Brancos e publicada no suplemento Paladar em abril de 2008. O preço e a disponibilidade são da época da publicação.

A Tília é uma nova marca da Bodega Esmeralda, que faz também os vinhos Los Alamos e é ligada à Catena. Seus vinhos chegaram recentemente ao Brasil e vêm, agradando, principalmente quando consideramos os seus preços. Este Malbec é um tinto atraente, com boa concentração de cor e que está mais do que pronto para o copo. Aroma não dos mais potentes, mas agradável. Muito melhor na boca. Aparecem frutas, compotas e algo de chocolate, de cacau. Redondo, pronto, com taninos macios, nada agressivos. No aroma e na boca, evocações florais muito gostosas. Simples, direto, fácil de beber e com boa acidez. Dá sempre vontade de continuar bebendo. Taninos macios, nada agressivos e sem toques de amargor. Apenas um pouquinho alcoólico ao final. 13,5% de álcool.

Neto Senetiner 2004
Onde encontrar: Casa Flora: 6842-5199.
Preço: R$ 25
Cotação: 88/100 pontos.

Provado para a coluna Tintos e Brancos e publicada no suplemento Paladar em abril de 2008. O preço e a disponibilidade são da época da publicação.

Um vinho muito gostoso, pronto e com ótima relação custo-benefício. Tem a vantagem de ter mais tempo na garrafa que os demais. Um tinto mais evoluído que os demais provados. Apesar disso, cor de vinho bem jovem violáceo. Um tinto que agradou ao primeiro contato. É evidente a presença da carvalho, que pode ter vindo das barricas, das tábuas ou de cavacos dessa madeira, O mercado gosta dos toques de carvalho e as tábuas e cavacos podem ser colocados em contato com os vinhos para emprestar suas características. O envelhecimento em barricas é um processo mais lento e caro. Aroma complexo, misturando frutas e carvalho. Ameixas, baunilha e caramelo. Na boca, continua no mesmo diapasão. Redondo, com boa acidez e ótimo final. Taninos finos, nada ressecantes. Álcool equilibrado. 14% de álcool.