Paladar

Vinhos do Alentejo

28 julho 2008 | 02:40 por Jamil Chade

O Alentejo ilustra muito bem a evolução do vinho de Portugal. Há algumas décadas, a região produzia principalmente tintos e brancos rústicos, alcoólicos, sem classe e que eram consumidos principalmente nos balcões dos bares e das tascas.

A região é bastante extensa, com perto de 20 mil hectares de vinhas, que aparecem em manchas esparsas numa paisagem monótona, plana, com muitas florestas de sobreiros, que dão a cortiça usada em rolhas. Mais da metade da cortiça do mundo vem de Portugal, principalmente das planícies do Alentejo.

Uma região relativamente pobre, com uma cozinha espetacular e variada, que sabe utilizar com inteligência todos os produtos da terra.

Ficou com água na boca?

Portugal mudou muito recentemente, principalmente após a adesão do país Comunidade Européia. Evidentemente, o progresso chegou também ao mundo do vinho.

No Alentejo, o nível técnico era precário. Eram comuns as fermentações a altíssimas temperaturas, que geravam produtos alcoólicos e sem classe. Hoje, as vinícolas são normalmente bem equipadas com sistemas de controle da temperatura, o que representou um grande progresso.

É meio difícil definir os tintos do Alentejo que são feitos em várias zonas, usando um leque amplo de cepas. Portalegre, Borba, Redondo, Évora, Vidigueira, Moura, Granja Amareleja e Reguengos de Monsaraz são as principais zonas, cujos nomes podem aparecer nos rótulos.

Uvas autóctones e muitas “importadas” entram nos vinhos. Trincadeira, Alicante Bouschet. Moreto e Castelão Francês são as uvas tradicionais. A Alicante Bouschet é de origem francesa, mas está no Alentejo há muito tempo. Atualmente, encontramos ainda uvas portuguesas de outras regiões, notadamente a Touriga Nacional e de outros países, como Cabernet Sauvignon e a Syrah, que vem se dando muito bem.

Com tantas sub-regiões e uvas, há tintos de vários níveis, desde os comuns, mais baratos a alguns espetaculares, verdadeiras obras de arte. Vamos ficar aqui com tintos de um nível intermediário, de uma faixa de preço abaixo de R$ 70.

Vinha da Tapada 2005
Onde encontrar: Mistral. Telefone: 3372-3400.
Preço: R$ 53,63
Cotação: 87/100 pontos.

Provado para a coluna Tintos e Brancos, publicada em julho no suplemento Paladar, do Estadão. Os preços e a disponibilidade são da época da publicação.

Uma espécie de “segundo vinho” d Tapada dos Coelheiros. Um corte muito particular de uvas autóctones com outras de origem francesa: Aragonês, Trincadeira, Cabernet Sauvignon, Syrah e Castelão Francês. Segundo o rótulo, breve estágio em carvalho francês, cujo toque é delicado, aparece só ao fundo. O aroma agradou bastante. O ponto forte do vinho, que foi ficando mais intenso com mais tempo no copo. Evocou ameixas e amora. No nariz, frutas e o pano de fundo do carvalho. Um vinho novo, que já dá prazer, mas deve evoluir. Na boca, boa fruta. Tinto com bastante acidez, Um vinho com bastante acidez, que alguns podem não gostar. Final meio rústico, com um certo amargor. Álcool bem comportado, sem se destacar demais 13% de álcool.

Monte da Ravasqueira 2005
Onde encontrar: Vinci. Televendas: 6097-0000.
Preço: R$ 55,83
Cotação: 88/100 pontos.

Provado para a coluna Tintos e Brancos, publicada em julho no suplemento Paladar, do Estadão. Os preços e a disponibilidade são da época da publicação.

Um tinto interessante, gostoso, que deve agradar quem gosta de tintos marcado pela madeira. Quase “Novo Mundo”, potente, alcoólico, concentrado e com toque bem nítido de madeira. Um corte nada habitual de uvas locais e de origem francesa: Syrah, Alicante Bouschet (originária da França, mas que já pode ser considerada autóctone do Alentejo, onde se adaptou muito bem), Touriga Nacional, Aragonês, Touriga Franca e Petit Verdot. O resultado da mistura de tantas uvas agradou. Bem escurão e com aroma intenso, marcado pelo carvalho, com notas de coco, mas também de frutas. Também algo mineral. Aroma complexo, com muitas nuances. Continuou no mesmo tom na primeira impressão na boca. Redondo, potente, concentrado. Apesar da alta graduação, o álcool não aparece tanto. Final um pouco duro. Taninos secam um pouco a boca, mas retrogosto intenso, mais uma vez marcado pelo coco. 14,5% de álcool.

Alentex Premium 2004
Onde encontrar: BR Bebidas Importadas. Telefone: 3071-0777.
Preço: R$ 67
Cotação: 86/100 pontos.

Provado para a coluna Tintos e Brancos, publicada em julho no suplemento Paladar, do Estadão. Os preços e a disponibilidade são da época da publicação.

Um vinho produzido pela Enoforum, uma espécie de consórcio de várias vinícolas que visa difundir os vinhos do Alentejo. O rótulo especifica que foi feito com as uvas Trincadeira, uma das mais difundidas da região e Aragonês, que é o nome pelo qual a Tempranillo é conhecida no Sul de Portugal. Cor não muito intensa e aroma agradável, direto e sem muitas nuances. Algo vegetal, herbáceo domina o aroma, sugerindo eucalipto e outras características balsâmicas, mas aparecem ao fundo notas muito bem colocadas de madeira. Um aroma que pode não ser dos mais intensos, mas agrada. Gostoso, doce e frutado. O ponto alto do vinho. Na boca, dois tempos. Primeira impressão agradável, de vinho redondo, sem arestas. Bom equilíbrio entre fruta e carvalho. Depois cai um pouco. Concentração de sabor razoável, mas um pouco rústico. Acidez marcante, que alguns poderão estranhar e taninos bem perceptíveis, que secam um pouco a boca ao final. Deverá evoluir na garrafa. Álcool equilibrado. Toques herbáceos continuam na boca.

Borba Touriga Nacional
Onde encontrar: Kylix. Telefone: 3825-4422.
Preço: R$ 69,40
Cotação: 89/100 pontos.

Provado para a coluna Tintos e Brancos, publicada em julho no suplemento Paladar, do Estadão. Os preços e a disponibilidade são da época da publicação.

A Cooperativa de Borba vem mantendo um bom padrão de qualidade. Este é feito com a Touriga Nacional, considerada uma das melhores entre as uvas autóctones de Portugal. Ela é do Dão, é mais do que importante no Douro e está se dando bem ainda no Alentejo. Normalmente, dá vinhos de classe, que precisam de alguns anos nas garrafas para demonstrar sua classe. O Touriga Nacional da Cooperativa de Borba já está pronto, mas deve melhorar. Segundo o rótulo, passou quatro meses em barricas de carvalho francês, que aparece muito delicadamente. Os aspectos florais, característicos da Touriga Nacional aparecem no aroma e na boca. Algumas vezes, os vinhos da Touriga têm um o que de violeta, como acontece neste exemplar. Um vinho macio, “doce”, fácil de beber e de gostar. Álcool equilibrado. Apenas o final é um pouco duro. 13,5% de álcool.