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A febre dos champanhes pouco conhecidos em Nova York

Colunista de vinhos do 'New York Times' fala de 2015 como o ano em que rótulos de pequenos produtores de Champagne ganharam a cidade

03 fevereiro 2016 | 11:41 por Eric Asimov

The New York Times

Comprar vinho geralmente exige cair de cabeça no desconhecido – e essa máxima foi especialmente verdadeira, em 2015, para o champanhe, graças à nova onda de pequenos produtores que tomou conta das prateleiras e pode confundir até os fãs mais experimentados: Éric Rodez, Guillaume Sergent, Suenen, Bourgeois-Diaz, só para começar. Quem são esses caras?

Se você gosta de verdade da bebida, vai querer conhecer esse pessoal; eu mesmo fui apresentado a alguns há pouco tempo.

Já houve tempo – em outro universo, talvez há uns 25 anos – em que comprar champanhe não era complicado; bastava se familiarizar com algumas das pouco mais de duas dezenas de casas.

O sucesso dos produtores anões redefiniu a champanhe como vinho e forçou a região inteira a melhorar a oferta.

O sucesso dos produtores anões redefiniu a champanhe como vinho e forçou a região inteira a melhorar a oferta. Foto: Tony Cenicola|NYT

Todas essas grandes marques, ou marcas, afirmavam ter um estilo próprio, ao qual se mantinham fiéis, ano após ano, misturando vinhos não só de terroirs diferentes dentro da própria Champagne, como também de variadas safras. Enquanto os vinhos finos de praticamente todas as outras regiões do mundo buscam expressar as particularidades de determinado lugar e ano, Champagne se orgulhava da regularidade de seus blends.

Só que esse mundo simples começou a mudar, na década de 90, com o surgimento de plantadores-produtores – pequenos vinicultores que cultivavam as próprias uvas e faziam o próprio vinho – no mercado internacional.

Sem a vasta capacidade de combinação das grandes casas, esses champanhes, como outros vinhos, se caracterizavam pelas qualidades únicas do terroir, e quase sempre mudavam de uma safra para outra – ou seja, ofereciam um contraste gritante em relação à mesmice dos bambambãs.

Com o tempo, ao se tornarem mais conhecidas, passaram a desafiar a noção do que era a bebida. As grandes marcas já não podiam se prender à definição batida de "opção perfeita para comemorações guardada na adega". Não, o sucesso dos produtores anões redefiniu champanhe como vinho e forçou a região inteira a melhorar a oferta.

E também aumentou de forma extraordinária a demanda do segmento, mesmo se, juntos, correspondam a uma porcentagem mínima das vendas: em 2014, quase um milhão de garrafas foram exportadas de Champagne com destino aos EUA – em 2000 foram apenas 273 mil, segundo a associação comercial Comité Champagne. E embora esse volume corresponda a apenas 5% de todo o champanhe exportado em 2014, ele mais que triplicou em relação aos 1,4% de 2000.

Alguns dos participantes da primeira leva de nanicos são encontrados praticamente em todo lugar em Nova York, especialmente nos domínios dos sommeliers menos experientes que, da mesma forma como aqueles que passaram a ignorar os Bordeaux há alguns anos, insistem em estocar somente os plantadores-produtores baseados na convicção errônea de que as grandes casas estão fora de moda.

Éric Rodez é um produtor francês estabelecido em Ambonnay.

Éric Rodez é um produtor francês estabelecido em Ambonnay. Foto: Tony Cenicola|NYT

Excelentes produtores, nomes como Pierre Peters, Pierre Gimonnet, Larmandier-Bernier e Egly-Ouriet, não são mais raridades. Os da segunda leva, como Raphael Bérêche, Cédric Bouchard e Ulysse Collin são muito procurados e alguns, como Jacques Selosse e Jérôme Prévost, ganharam o status de figuras cult.

Tudo isso deixa os importadores mais afoitos por novidades – o que, em parte, explica a invasão de champanhes pouco conhecidos que ando vendo nesta temporada. Alguns desses nomes com certeza merecem ser explorados, como Éric Rodez, cujos vinhos aprendi a amar.

Rodez não é produtor novato: sua família vem fazendo champanhe há várias gerações, mas só agora comecei a ver seus vinhos no mercado de Nova York. Está estabelecido em Ambonnay (França), conhecida por ser uma região de Pinot Noir, mas produz um blanc de blancs soberbo e pouco comum, a partir da Chardonnay local. É mais rico e redondo que a versão da Vertus, digamos, mas, ao mesmo tempo pura e belamente equilibrada com muita finesse e mineralidade. Rodez também faz um blend mais convencional de Chardonnay e Pinot Noir, o Cuvée des Crayères, encorpado, mas gracioso, cheio de vida e absolutamente delicioso.

Ao contrário de Rodez, Guillaume Sergent é novo, tendo criado sua marca só em 2011, mas Les Prés Dieu, seu blanc de blancs extra brut, sem dúvida chama a atenção. Embora seja engarrafado muito jovem (Sergent não tem recursos para envelhecer os vinhos adequadamente), possui uma leveza e elegância fora do comum, com sabores minerais cremosos.

Também adorei o blanc de blancs extra brut de outro jovem produtor, Suenen, que mostrou ser fino e preciso e revelar tons salgados e de giz. Outro blanc de blancs muito agradável é o Conversation, da JL Vergnon, produtora cuja disponibilidade nos EUA ainda não é constante – rico, cremoso e mineral.

Já tinha ouvido falar do Veuve Fourny & Fils, mas, por algum motivo, nunca encontrara o champanhe em Nova York. Quanto tempo perdi! Esse pequeno produtor faz vinhos maravilhosos e interessantes – como o Grande Réserve, com o qual entrou no mercado, blend complexo composto por 80% de Chardonnay e vinte de Pinot Noir, equilibrado, fino e cheio de vida.

Por outro lado, os champanhes da Bourgeois-Diaz são completamente diferentes. O brut, blend de Pinot Meunier, Pinot Noir e Chardonnay, é rústico, pouco elegante, embora bem arrematado, mas ao mesmo tempo fresco, equilibrado e vibrante.

Não é surpresa saber que esses rótulos estarão disponíveis em apenas alguns mercados dos EUA. Por um lado, a maioria desses plantadores-produtores não tem vinho suficiente para abastecer o mercado nacional. É bem possível que os consumidores de Chicago, San Francisco, Atlanta e Portland, no Oregon, encontrem opções completamente diferentes.

Por outro, lidar com o sistema complicado de distribuição de vinhos dos EUA, em três fases – no qual os produtores geralmente têm que passar por vários distribuidores (e leis) em cada estado para chegar ao comércio – pode ser um processo muito mais confuso e longo do que simplesmente seguir as regras da União Europeia.

Como sempre acontece com os vinhos, é preciso, acima de tudo, conhecer quem produz.

Onde comprar no Brasil

 

  Foto: Divulgação

Pierre Gimonnet & Fils Champagne Cuis 1er Cru Brut NS

Local: Champagne, França

Preço: R$ 449,91 na Premium Wines

Este Blanc de Blanc Chardonnay de Côtes des Blancs é exemplar do estilo de seu produtor: vivo, leve e pouco dosado. Sem passagem por madeira, tem corpo médio e perlage persistente. Faz sucesso entre a crítica especializada internacional. É possível encontrar outros rótulos do produtor na mesma importadora.

 

  Foto: Divulgação

Champagne Egly-Ouriet Rosé Brut

Local: Champagne, França

Preço: R$ 824,50 na World Wine

Feito com 60% de Pinot Noir e 40% de Chardonnay, este rótulo tem cor rosa claro com reflexos alaranjados, perlage muito fina e constante. Seus aromas são cítricos e extremamente frescos e o paladar apresenta uma surpresa de notas de especiarias e até um toque apimentado.

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