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Alvaro Palacios: ele tira grandes vinhos das pedras

O espanhol Alvaro Palacios, Homem do Ano da Decanter, trocou vinícolas comportadas da França e EUA pelas pedregosas montanhas acidentadas do Priorato espanhol, onde produz vinhos que encantaram Jancis Robinson

08 abril 2015 | 18:03 por redacaopaladar

Por Isabelle Moreira Lima

Especial para o Estado

O Homem do Ano eleito pela revista inglesa Decanter é um careta. O enólogo espanhol Alvaro Palacios, produtor do vinho L’Ermita e um dos pioneiros da região do Priorato, na Catalunha, se autoproclama um tradicionalista, assume odiar invenções e diz que gosta mesmo é dos grandes clássicos.

“Fico com medo quando vejo muita coisa por trás de um vinho. Algo que me irrita são as mecanizações. Todas essas invenções em Bordeaux, a micro-oxigenação. Não consigo entender nem suportar. Rejeito imediatamente”, disse em entrevista por telefone ao Paladar.

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A honraria da Decanter premia a trajetória de um homem que acredita que o vinho se faz na natureza, nos vinhedos. Para ele, quanto menos intervenção, melhor. “Se você interfere muito, muda a beleza e a personalidade do vinho.” Ele prefere, por exemplo, as uvas nativas de cada região; aposta na Garnacha do Priorato e na Mencía de Bierzo. “É possível vê-las aproveitando o melhor da terra, ‘se divertindo’ no parreiral.”

Orgânico. Palacios gosta de ver as uvas nativas ‘se divertindo’ no parreiral. FOTOS: Divulgação

Na quinta geração de uma família de vinicultores, Palacios estudou e trabalhou em Bordeaux, onde se apaixonou pelo vinho clássico. Depois seguiu para o Napa Valley, nos EUA, onde – ironia das ironias – caiu de amores por sua Espanha.

“Tudo que eu ouvia lá era sobre a grandeza da Espanha. Quando voltei, sabia que havia vinhedos esquecidos que poderiam ser resgatados.”

Assim, com um toque de paixão e outro de masoquismo, como ele mesmo diz, começou, há mais de 20 anos, a escrever a história que lhe rendeu o prêmio. Em vez de assumir de cara a vinícola da família, a Bodegas Palacios Remondo, na Rioja Baja, seguiu 300 km para o leste rumo ao Priorato, uma pequeníssima região de geografia confusa – morros cheios de vincos e pedras – e dificílimo trato, para instalar sua vinícola e produzir nos moldes do Château Petrus, onde trabalhou na juventude.

“Em 1989, um amigo (René Barbier, líder dos pioneiros do Priorato, leia ao lado) me chamou para conhecer a região. Fui lá e vi encostas íngremes e um clima específico. É uma área de vinicultura extrema.”

A verdade é que Rioja já era muito mecanizada e, em vez de produzir muitas caixas, ele conta, queria fazer o grande vinho que sempre admirou. Em 1993, comprou o vinhedo L’Ermita no Priorato (o vinho não chega ao Brasil).

Em 1999, usou o instinto para desbravar a região de Bierzo, no caminho de Santiago de Compostela, onde hoje produz com o sobrinho Ricardo, uma versão mais jovem de Palacios: também estudou em Bordeaux e também sonhava em empreender e se descolar da vinícola da família. Fundaram a Descendenties de J. Palacios, S.L.

Nos anos 2000, com a morte de seu pai, José, Palacios assumiu também a direção da vinícola da família em Rioja, onde produz “deliciosos tintos com a uva local Garnacha”, de acordo com a crítica inglesa Jancis Robinson.

Embora diga respeitar a agricultura convencional (“afinal, comemos todos os dias”), Palacios tenta se voltar para a agricultura orgânica. “Meus vinhos top são orgânicos. Mas não tenho uvas suficientes para os outros. Tentamos convencer os produtores, mas a maioria não entende a importância da agricultura orgânica.”

Quanto ao preço, diz que nada deve mudar com o prêmio. “O que encarece o vinho é ter pouca terra disponível. E, claro, a dificuldade em conseguir gente para trabalhar em encostas íngremes. As pessoas veem as montanhas daqui e fogem.”

Os vinhos de Palácios são importados pela Mistral (www.mistral.com.br, telefone 11 3372-340).

Opiniões: Vinicultor ‘da alta costura’

Manoel Beato, sommelier do Fasano, considera a produção de Palacios a melhor da Espanha. Para ele, o enólogo conseguiu fazer o grande vinho clássico que almejava. “Os vinhos dele são extremamente concentrados, mas ao mesmo tempo têm um timbre de acidez e frescor, o que dá um poder de longevidade, além de fazer com que se tornem agradáveis na juventude.”

Há 15 anos, Beato esteve na região com Palacios, que o levou de jipe para uma visita de horas aos vinhedos. “Geralmente, essas visitas são feitas rapidamente. Ele não. Nos levou para o meio do penhasco. O grande prazer dele está ali na terra. Nos falou que o grande vinho se faz no parreiral”, diz.

O sommelier do Varanda Grill, Tiago Locatelli, para quem os vinhos de Palacios são “maravilhosos”, também esteve no Priorato. Para ele, ficou marcada a dificuldade da produção. “Tudo é pequeno. Os produtores são familiares, é difícil cultivar a terra, que não permite máquina. Tudo é feito à mão. E aí tem que subir pelas ribanceiras, amarrar as pessoas em cordas ou elas caem.”

Com tanta dificuldade e excelência, para a sommelière Gabriela Monteleone, o prêmio dado a Palacios até demorou. “Os vinhos dele são feitos como joia, são vinhos de alta costura.”

Os 5 nomes do priorato

O marco da virada do Priorato, região montanhosa e de solo mineral, foi em 1989, quando o enólogo René Barbier juntou cinco amigos com a ideia de dividir vinhedos antigos abandonados e uvas – Carignan e Garnacha. Nasceram cinco rótulos: Clos Morgador (Barbier), Clos Dofi (Palacios, que mais tarde passou a ser chamado Finca Dofi), Clos Erasmus (Daphne Glorian), Clos Martinet (José Luiz Perez) e Clos de l’Obac (Carles Pastrana). No fim da década de 1990, a região já tinha alguns dos vinhos mais respeitados da Europa.

VINHOS

Finca Dofi 2011

Origem: Priorato, Espanha

Preço: R$ 556,61

Exuberante, é dotado de aromas florais. Este tinto que combina Garnacha, Cabernet Sauvignon e Syrah tem notas de erva-doce e frutas vermelhas e um frescor quase como de sorbet. De corpo médio, é vibrante e levemente apimentado. A acidez mantém excelente equilíbrio. É longo e persistente, com final mineral e rico.

Pétalos del Bierzo 2011

Origem: Bierzo, Espanha

Preço: R$ 167,12

Potente e concentrado, este varietal da uva Mencía passa por estágio de alguns meses em barricas de carvalho. Tem aromas florais marcantes e também de frutas silvestres maduras. Na boca é aveludado, fresco e intenso. A boa acidez se combina de forma harmoniosa com taninos polidos, elegantes. Final longo e persistente.

Herencia Remondo La Montesa Crianza 2004

Origem: Rioja Baja, Espanha

Preço: R$ 105,74

Intenso, elegante e fresco, este Tempranillo amadurece em barril de carvalho francês novo por quatro meses. Depois do estágio, adquire notas de framboesa, com toques de geleia de morango, chocolate e notas de pimenta-branca. É equilibrado, com baixa acidez e taninos suaves. Corpo de leve a médio.

La Vendimia 2012

Origem: Rioja Baja, Espanha

Preço: R$ 111,32

Jovem e aromático, este tinto é um corte de Garnacha e Tempranillo. Tem notas de flores, morangos silvestres, cerejas, ameixas e alcaçuz. É um vinho bastante frutado, com taninos aveludados e boa dose de acidez. No nariz, aparecem os aromas florais, especialmente rosas, misturado ao de cravos e orquídeas.

>>Veja a íntegra da edição do Paladar de 9/4/2015

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