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Borbulhas de Mr. Spurrier

O inglês que organizou o célebre Julgamento de Paris, quando o vinho francês teve de se curvar ao californiano, comandou no Ibravin uma degustação com espumantes do Hemisfério Sul que lembrou um Big Brother enófilo

30 abril 2014 | 22:15 por joseorenstein

Na sexta-feira passada, 25, algumas dezenas de homens de terno reuniam-se para beber – mal passava das 9h da manhã. Umas poucas mulheres completavam a turma de narizes e línguas que estão entre os mais afiados do País para discernir aroma e sabor de vinho. Estavam ali em torno de Steven Spurrier, o inglês que, em 1976, organizou o Julgamento de Paris – uma degustação às cegas em que vinhos californianos se saíram melhor que consagradas garrafas francesas. A história virou filme e Spurrier, uma espécie de enocelebridade. Sua missão agora era conduzir uma degustação com espumantes do Hemisfério Sul – com destaque para os brasileiros.

O mestre de cerimônias com voz grave e empolada anunciou ao microfone: “Podem se acomodar. Doucement, como dizem os franceses”. Era uma sala fria e austera da Fecomércio, repleta de mesas encimadas por 11 taças tipo flûte, de cristal, ideais para se tomar espumante. Um copo d’água, um potinho de metal com bolachas de água e sal Bauducco, um guardanapo e um baldinho de plástico preto compunham a cena.

Nas cadeiras, um brinde dado pelos organizadores do evento, do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin): duas taças de plástico, uma verde, outra amarela, numa sacola em que se lia “Beba com descontração”.

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Spurrier. FOTOS: Rafael Arbex/Estadão

Na frente da sala, uma grande mesa reunia o júri, com Spurrier ao centro. De cabelos cinza lisos, escorridos e partidos ao meio, costume cinza com lencinho escapando do bolso do paletó, o inglês convidou os nove outros jurados homens e a única jurada para uma sala ao lado. Uma parede-biombo ostentava, para o lado de cá, dois telões.

Iria começar o julgamento de 11 taças de espumantes feitos pelo método charmat. No salão frio ficaram a plateia de enólogos, sommeliers, jornalistas, suas taças e os telões.

Começou uma espécie de Big Brother enófilo. Uma câmera trepidante filmava os gestos do júri, típicos numa degustação: o serviço do vinho, a erguida da taça e os giros do líquido que está lá dentro, a intrometida do nariz na taça, o gole, a bochechada, os meneios de cabeça com o líquido na boca e a discreta e concentrada cuspida no baldinho.

O ambiente é silencioso. Ouvem-se apenas cochichos, tilintar de taças – e a inevitável cuspidela. De vez em quando, póc, póc, espocam rolhas abertas no bastidor.

Tradicional | Os favoritos foram o brasileiro Miolo Millésime, o neozelandês Hunter’s Miru Miru e o brasileiro Cave Geisse Blanc de Blanc

Do lado de cá, a plateia que assiste aos jurados pelo telão também degusta. Chega um garçom com uma garrafa a tiracolo, envolta num plástico preto, amarrado no bico com umas voltas de plástico magipak – é uma degustação às cegas. Meio nervoso, ele serve o espumante – não pode errar a sequência da bebida. “Mas, se errar, corrige”, ri Antônio, que diz nunca ter posto uma gota de álcool na boca. Um estrépito: strike!

Na mesa da primeira fila, o vice-presidente do Ibravin, Dirceu Scottá, derruba sem querer as finas taças enfileiradas a sua frente. Ainda não eram nem 10h30 da manhã. Cristal é um perigo: mais cedo, antes da degustação começar, 20 taças haviam sido destroçadas por um garçom desastrado.

Pelo telão viam-se jurados compenetrados sorvendo das taças sem emitir comentários, anotando impressões. Ainda assim, os microfones abertos captavam as assoadas de nariz de Spurrier.

Terminada a bebedeira da manhã (foram 11 espumantes provados), os jurados comentaram, um por um, o que beberam. Os vinhos mereceram elogios como “ter formado um bom colchão de espuma sobre a língua”. Mas alguns pecavam por excessiva acidez ou pouca borbulha. Spurrier sentencia: “Vinho tem que ter charme”. Ouvidos os pitacos, hora do intervalo.

Charmat | Os favoritos foram o neozelandês Sileni Sparkling Brut e os brasileiros Giacomin Brut e Cordelier Brut

O mestre de cerimônias volta ao microfone: “Peço uma gentileza, sejam pontuais, as usual. Respeitemos a british pontuality”. No intervalo, enquanto Spurrier rebatia os espumantes com uma xícara de café com leite, contou ter recebido £ 4 mil para estar ali – e ter escolhido vir de classe econômica para poder embolsar um troco a mais.

Ele se disse surpreso com a boa votação de um espumante – no caso, o neozelandês – que teria passado do ponto.

De volta ao salão e ao Big Brother, veio a segunda bateria de degustação, com os mesmos rituais transmitidos pelo telão. O garçom Antônio alerta, antes de servir um espumante: “Não vá ficar de fogo!”. Os baldinhos estão lá para evitar isso.

Depois de ver seu espumante ser o mais bem votado entre os feitos pelo método tradicional, Adriano Miolo, enólogo da Miolo, comemora: “É um momento histórico. Provamos que o espumante nacional está muito à frente dos concorrentes”.

Intervalo para o almoço. Os enófilos trocam impressões, cartões e tomam água ou suco antes de voltar para ouvir a palestra de Spurrier, que encerraria o evento. Não sem antes um momento de tensão: a jornalista e sommelière carioca Deise Novakoski tomou o microfone para reclamar daquele julgamento – “pouco representativo” e “injusto”. “Não poderia me calar diante disso”, disse. Spurrier assumiu o microfone na sequência, calou sobre Novakoski e falou sobre o mercado de espumantes no mundo.

A próxima chance de ver Spurrier em ação será em outra telona: uma nova versão de O Julgamento de Paris, o filme, virá em breve. A primeira, de 2008, não agradou a Spurrier. Desta vez, à la Hitchcock, ele fará uma ponta: vai aparecer de garçom numa das cenas do longa.

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 1/5/2014

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