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Cervejeiros ciganos fixam residência em São Paulo

Com a mudança no Plano Diretor, que permite a instalação de cervejarias em algumas áreas da cidade, marcas que terceirizavam a produção estão montando casa própria. É o caso da Tarantino, a maior entre as ex-sem endereço fixo já anunciadas – as outras são Trilha e Dogma, de agosto deste ano

08 novembro 2017 | 20:33 por Heloisa Lupinacci

Na Marginal Tietê, passando a ponte Júlio de Mesquita Neto, a segunda travessa da pista sentido interior é a rua Miguel Nelson Bechara. “Vire à direita”, diz o Waze. “Em trezentos metros você chegará a seu destino.” Fica ali, no número 316, o galpão que vai abrigar, a partir de março, a Cervejaria Tarantino.

Gilberto Tarantino, o Giba, vem animado abrir o enorme portão. “Bem-vinda à Cervejaria Tarantino”, diz, brincalhão, apontando os 2.400 metros quadrados de vazio. A área, dividida em um pátio de concreto com mil metros quadrados e um galpão de 1.400 metros quadrados, vai abrigar a primeira cervejaria de grande porte na cidade de São Paulo. 

Gilberto Tarantino, o Giba

Gilberto Tarantino, o Giba Foto: Amanda Perobelli

Ela se junta às micros Trilha e Dogma, ambas inauguradas em agosto, para marcar uma mudança radical na cidade onde antes era proibido instalar cervejarias.

Ficou com água na boca?

A Tarantino é a terceira cervejaria paulistana anunciada nos últimos três meses, no rastro da mudança do Plano Diretor que, pela primeira vez, autorizou cervejarias no perímetro urbano. Será bem maior e vai reunir produção, espaço para cursos e eventos. “Aqui vão ficar os tanques de fermentação, ali a sala de degustação”, vai mostrando Giba. Volta para o pátio. “Neste espaço, vamos montar mesas e ali será a tela de cinema para exibições ao ar livre.” Sobe uma escada. “Este é o espaço para eventos, aulas, palestras”, detalha. Poderia parecer papo de maluco, mas o Giba vem preenchendo espaços vazios há alguns anos. 

Cervejaria Trilha, localizada na Pompeia

Cervejaria Trilha, localizada na Pompeia Foto: JF Diório|Estadão

Em meados dos anos 2000, enquanto quase todo mundo ainda discutia se a Brahma com a água de Agudos era melhor e apenas alguns sortudos sabiam o que era o Frangó (aquele bar na Freguesia especializado em cerveja e coxinhas...), Giba estava descobrindo as IPAs. Viajava muito para os EUA – trabalhava com importação – e conheceu as IPAs lupuladas, o combustível da Revolução Cervejeira.

Virou hop head (apelido simpático para os fãs da flor que dá amargor e aroma para a cerveja) e enfiou nessa cabeça-de-lúpulo que ia importar suas cervejas favoritas para o Brasil.

Assim nasceu a Tarantino Importadora, em 2009, responsável por apresentar aos brasileiros as norte-americanas Rogue, Founders, Jolly Pumpkin e Anderson Valley, a escocesa Brewdog (levanta a mão quem descobriu o mundo da cerveja em um gole de PunkIPA!), as italianas Baladin e Del Ducato, e a dinamarquesa Mikeller – que é “a” cervejaria que desenhou o modelo cigano: o cervejeiro cria receitas e produz em fábricas ao redor do mundo. 

Toda essa turma – de Teo Musso, o galã da Baladin, a James Watt, o infant-terrible da Brewdog – foi apresentada aos brasileiros pelo Giba. Não é pouca coisa.

A importação amargou. Com os anos, parcerias mal-sucedidas e um punhado de histórias amargas como lúpulo fizeram Giba deixar de importar. A última marca que trazia, a Brewdog (ele é um dos sócios do Bar da Brewdog), anunciou a mudança de importadora na última semana – agora quem traz PunkIPA é a Interfood.

No meio dessa história, Giba criou sua marca própria, a Cervejaria Tarantino, em 2013, uma cervejaria cigana com receitas desenvolvidas por Doug Odell, da pioneira e premiada Odell Brewing Co. A partir da inauguração da sede paulistana, passam a ser brassadas no Bairro do Limão, sob comando do cervejeiro Alexandre Sigolo (ex-Burgman e um dos fundadores da escola Sinnatrah). 

A história da Tarantino retrata a mudança que está fermentando no agitado fim de 2017: a abertura de fábricas. O cenário cervejeiro na cidade há pouco se baseava no modelo cigano, em que cervejeiros que criam receitas para serem feitas em fábricas – Blondine, Invicta, Dádiva e BrewCenter são as principais. Isso porque era proibida – e cara – a instalação de fábricas na capital. 

O novo Plano Diretor permite as fábricas em determinadas áreas. A conversa ainda dá ruído: as licenças de operação são expedidas por diferentes órgãos, de diferentes instâncias, com diferentes diretrizes. Há as zonas mistas, que podem abrigar cervejarias pequenas, com venda local, e as zonas industriais, que podem abrigar fábricas maiores. Resultado: as ciganas vão fixando residência.

Cervejaria Dogma é uma das que vai se estabelecendo na capital paulista

Cervejaria Dogma é uma das que vai se estabelecendo na capital paulista Foto: Dogma

A Trilha, por exemplo, tem a fábrica pequena em Perdizes e produz lotes maiores na Dádiva. Mesma coisa a Dogma: as experimentais são produzidas nos tanques menores na cervejaria na Santa Cecília. E a produção em escala é terceirizada. 

Vantagens da cervejaria urbana

Tende a reduzir o preço. O cigano encomenda sua cerveja para uma cervejaria e a vende para um distribuidor, criando uma etapa extra, que deixa a cerveja mais cara. A rota fábrica-consumidor é imbatível.

Aproxima o bebedor do produtor. É a verdadeira face do “apoie seu cervejeiro local”. Você vai até a fábrica, conhece o cervejeiro, diz o que está achando, isso vai construindo um negócio fundamental para que esse mercado evolua, a cultura cervejeira. O consumidor entende melhor o que está bebendo; e o cervejeiro conhece melhor seu público e o que ele deseja.

Cria turismo cervejeiro. A mudança põe São Paulo no roteiro que já tem Porto Alegre (aliás, a Tupiniquim deve finalizar seu taproom no próximo mês!), Belo Horizonte (Wäls e Backer são paradas obrigatórias na capital mineira), Curitiba (e a mítica Bodebrown) e, em outra escala, Nova York, Chicago e quase qualquer cidade norte-americana. 

Aumenta a variedade da oferta. A máxima do movimento cervejeiro é beba menos, beba melhor. Mas para isso ser verdade é necessário ter diversidade de oferta. E a onda recente de aberturas de cervejarias aponta em linha reta para essa direção.

 

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