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É uma casta portuguesa, com certeza

Vinhos de castas obscuras feitos fora das regiões tradicionais de Portugal começam a surgir por aqui. Produtores tentam explorar a variedade genética do país - nomes como Fonte Cal, Síria, Rufete e Donzelinho vêm aí

17 maio 2017 | 20:31 por Isabelle Moreira Lima

Portugal sempre se orgulhou de seu tesouro genético, afinal ter mais de 250 variedades de uvas autóctones não é para qualquer um. Mas só agora parece ter tido o estalo de que pode jogar melhor com o que tem, ou seja, explorar minuciosamente esse catálogo. 

Nos últimos meses, castas desconhecidas e de nomes esquisitos como Rufete, Síria e Fonte Cal não só começaram a entrar no radar dos bebedores mais antenados como levaram o título de revelação da Essência do Vinho, maior feira de vinhos portugueses do mundo, realizada no início do ano, no Porto. A boa notícia é que pouco a pouco elas começam a chegar também às prateleiras brasileiras.

A cepa Donzelinho, natural do Douro

A cepa Donzelinho, natural do Douro Foto: Instituto da Vinha e do Vinho|Divulgação

Este “descobrimento” tardio das variedades é consequência da estratégia de impedir a entrada massiva de cepas francesas na reestruturação dos vinhedos portugueses, ocorrida nos anos 1980, como explica o presidente da Vinhos de Portugal, Jorge Moreno. “Em Portugal, não se quer Cabernet Sauvignon ou Merlot. O que se quer é Touriga Nacional, Baga, Loureiro, Alvarinho.” 

As castas obscuras vêm tanto de regiões familiares para nós, como o Douro (Donzelinho, Sousão) e o Alentejo (Tinta Grossa, Moreto e Manteúdo), quanto de regiões que também estão sendo desbravadas. Três chamam a atenção neste novo e alargado mapa: Trás-os-Montes, mais conhecida por aqui pelo cancioneiro de Roberto Leal; Beira Interior, um agrupamento de cidades que parecem ter saído de um conto de fadas; e Algarve, famosa por suas belas praias. 

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Há ainda, regiões que se recusam a esmaecer, como Carcavelos, na região de Lisboa, a menor Denominação de Origem Controlada (DOC) de Portugal e que teve sua área de vinhedos reduzida ao mínimo graças à especulação imobiliária. (De lá, saem a Ratinho e a Galego Dourado, usadas em licorosos).

Trás-os-Montes. Paisagem de vinhedo da Valle Pradinhos

Trás-os-Montes. Paisagem de vinhedo da Valle Pradinhos Foto: João Pedro Marnoto|Divulgação

A ideia da preservação é levada tão a sério que hoje, além da iniciativa privada das vinícolas, há uma entidade que se dedica exclusivamente à pesquisa genética, a Associação Portuguesa para a Diversidade da Videira (Porvid), mantida por uma série de vinícolas, cooperativas e outras associações. Ela investiga os chamados “field blends” (sistema de plantação em que diferentes variedades eram plantadas juntas) para (re)descobrir uvas que ficaram no passado e, mais do que isso, seus clones, em busca de suas melhores versões, entre outras atividades.

Entre as vinícolas que mergulharam na pesquisa está a Real Cia. Velha, que neste ano está de olho na Donzelinho e na Rufete. “A Rufete sempre foi tratada como a Touriga Nacional e ficava péssima. Ela é aromática, mas mais leve e tem cor mais clara. Hoje, descobrimos o jeito de tratá-la e ela gera o vinho ideal para a sardinha, por exemplo, algo difícil de harmonizar”, explica Moreira, que tem 36 tanques para experimentar essa e outras castas misteriosas. Ou seja, esse movimento é só o começo.

 

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ALGARVE

Esta é a fronteira vinícola ao sul de Portugal, separada de seu vizinho Alentejo por uma cadeia de montanhas que vai desde a divisa com a Espanha até o Atlântico. Com cenários idílicos, tem uma longa tradição na produção de vinhos, principalmente os fortificados, ainda que seja mais conhecida mesmo pelo potencial turístico. 

O clima é temperado e varia de ameno a quente, como no Alentejo, mas com uma frescura noturna a mais graças à proximidade com o mar. O solo é predominantemente arenoso, mas há pontos com argila e calcário, e há também raras zonas xistosas nas encostas das serras. O que é impossível ignorar é a capacidade solar do local, com 3 mil horas de muita luz por ano.

São quatro as denominações de origem: Lagos, Portimão, Lagoa e Tavira. Em geral, todas elas fazem tintos aveludados e encorpados 

(salvo Lagos, que faz vinhos de corpo leve) e brancos delicados e frescos. Entre as principais cepas da região estão o Arinto, Malvasia Fina, Manteúdo e Síria para os brancos, e Castelão e Negra Mole, para os tintos.

O maior problema enfrentado pelos vinhos do Algarve hoje é a competição por terras com o mercado imobiliário, que disputa cada metro quadrado com altíssimo potencial turístico. “Há pouca oferta e muita procura”, diz José Luís Santos Lima, que comanda a Casa Santos Lima, gigante de Lisboa que produz vinhos na região próxima à casa de veraneio da família detentora. 

 

Prove:

Al-Ria Tinto V.R. Algarve 2013 (R$ 92 na Vinho & Ponto), que traz o frescor do litoral neste tinto de corte.

 

  Foto: Vinho & Ponto|Divulgação

 

BEIRA ALGARVE 

A região mais montanhosa de Portugal, com altitude entre 400 e 700 metros, produz os vinhos mais aromáticos. Aqui, seu nariz vai denunciar a metros de distância a principal característica das cepas locais, cuja máxima é “cheirai as flores do campo”. A DOC Beira Interior foi criada em 1999, mas a produção de vinho ali começou com a formação da nação portuguesa, muitos séculos atrás. 

Conto de fadas. Além de fazer vinhos aromáticos, Beira Interior tem alto potencial turístico

Conto de fadas. Além de fazer vinhos aromáticos, Beira Interior tem alto potencial turístico Foto: Instituto da Vinha e do Vinho|Divulgação

São cerca de 16 hectares de vinhas divididas em três sub-regiões (Castelo Rodrigo, Cova da Beira e Pinhel), onde as castas mais comuns são as brancas Síria, Fonte Cal, Malvasia Fina e Arinto e as tintas Rufete, Mourisco, Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz, que nascem em solos majoritariamente graníticos. 

Os verões são curtos e secos e os invernos, prolongados e gélidos, o que explica o frescor marcante e o maior desafio para a maturação dos tintos.

Mas, se você quer entender Beira Interior, não ligue para essas informações e apenas concentre-se na Síria, 80% da produção das uvas brancas da região. Tem aromas cítricos (laranja, limão, grapefruit), de pêssego e de melão, mas o que sobressai mesmo são as flores silvestres. 

Outro presente da região é a raríssima Fonte Cal (há quem diga que só pode ser achada na Beira Interior), que faz vinhos florais estruturados e densos, com o pecado de ter pouca acidez. Por isso é geralmente cortada com Síria e Arinto. A Adega Castelo Rodrigo traz alguns bons exemplares do que a Beira Interior faz. 

 

Prove: Castelo Rodrigo DOC Síria 2015 (R$ 79 na Ojorim), que entrega todo o prometido na descrição da cepa.

 

  Foto: Ojorim|Divulgação

TRÁS-OS-MONTES

No extremo Nordeste de Portugal, a região tem uma variedade de microclimas que vão da umidade absoluta, perto da montanha que a isola do resto do país, até a total aridez, na fronteira com a Espanha. Os solos são graníticos, muito pobres e pouco produtivos, com algumas manchas de xisto. O curioso aqui é que não há outra região de Portugal com tamanha densidade de vinhedos: são 69 mil por hectare. Mas as duras condições faz com que os rendimentos sejam baixíssimos. São três as sub-regiões: Chaves, Valpaços e Planalto Mirandês.

 

Prove: Navalheiro Tinto 2014 (R$ 35 na Wine For), um vinho de corte e corpo médio que mostra o potencial dos três meses de inverno e oito de inferno.

 

  Foto: Wine For|Divulgação

Onde.

Adega Alentejana. Tel.: (11) 5094-5760.

Adega Bartolomeu. Tel.: (62) 3215-4500.

Galeria dos Vinhos. Tel.: (11) 3345-1950.

Mistral. Tel.: (11) 3372-3400.

Ojorim. Tel.: (11) 98155-1751.

Palácio dos Vinhos. Tel.: (11) 4702-6118.

Vinho & Ponto. Tel.: (11) 4421-1705.

Wine Brasil. Tels.: (11) 3459-9247 e 3926-4624.

Wine For. Tel.: (11) 4873-2101.

Wine Lovers. Tel.: (11) 5531-0081.

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