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Drinques e performances no concurso mundial de coquetelaria no Rio

18 julho 2012 | 17:43 por heloisalupinacci

(Foto: MARCOS DE PAULA/AE)

Por Luciana Nunes Leal

RIO – Bebidas de boa qualidade, gotas de essências, frutas frescas, folhas de temperos e gelo, batidos em uma coqueteleira bem fechada, são ingredientes suficientes para um amador preparar um ótimo drink em casa. Mas, quando se trata de uma competição para escolher o melhor bartender do mundo, o coquetel perfeito se junta a uma série de outras exigências.

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É preciso elegância, limpeza, técnica, destreza, simpatia, roupa impecável, conversa agradável. E jamais decepcionar o cliente, especialmente se for um dos jurados do Diageo World Class 2012, o campeonato realizado entre segunda-feira e quinta-feira da semana passada no Copacabana Palace, no Rio. O italiano performático, o dinamarquês meticuloso, o japonês concentrado, o inglês sorridente estavam entre os 39 concorrentes. Venceu o australiano moderno, Tim Philips, formado em Londres, a meca dos grandes profissionais da atualidade.

Até caldo de cana entrou na receita de uma das provas, em que os 16 selecionados nos dois primeiros dias foram a uma feira livre em Copacabana e compraram o que viram pela frente. Maxixe, ovo de codorna, temperos de todos os tipos e frutas pouco conhecidas até dos brasileiros, como atemoia, estavam nas sacolas dos melhores bartenders do mundo.

“Tive medo que os drinks ficassem muito doces”, disse o inglês radicado nos Estados Unidos Gary Regan, papa da coquetelaria mundial, citando um dos pecados mais comuns da coquetelaria.

“Felizmente não foi o que aconteceu. Eles souberam misturar de maneira sábia. Você até pode fazer coquetéis mais doces no seu bar, se é a preferência dos clientes, especialmente na América do Sul e no Caribe. Mas não em uma competição global como esta”, disse Gary, um dos jurados do World Class deste ano. No fim da tarde de quarta-feira, ele confessou: “Hoje tomei um dos melhores drinks da minha vida.” Mas manteve segredo sobre o favorito.

Vencedor do campeonato de 2011, o japonês Manabu Ohtake, que comanda o bar do hotel Cerulean Tower, em Tóquio, comentava, entre um workshop e outro, a evolução técnica dos competidores. “É preciso praticar diariamente, sem falta”, diz Manabu. Diante da pergunta sobre o que é mais importante no preparo de um bom coquetel, o japonês não cita qualquer bebida ou ingrediente. “O mais importante é que o cliente não fique desapontado. Ele está no bar para se divertir e não se irritar. Não é possível demorar para fazer um drink e depois não ficar gostoso”, ensina.

Além da prova em que usaram produtos tipicamente brasileiros, os bartenders tiveram de preparar drinks inspirados em estrelas de Hollywood, recriar clássicos dos anos 60, preparar coquetéis harmonizados com pratos latino-americanos, correr contra o relógio para preparar de três a seis coquetéis em oito minutos, e inventar uma receita especial, exibindo as habilidades em apresentações de oito minutos para cada jurado.

Nesta última prova, dez finalistas capricharam na criatividade não só dos drinks, mas da apresentação. O japonês Shigeki Yoshida, que trabalha no mesmo bar do campeão do ano passado, decorou suas criações com lâminas finíssimas de abacaxi caramelizado. O italiano Dennis Zoppi, do Smile Tree, em Turim, fazia uma coreografia impossível de imitar. O inglês Andy Mil, do London Cocktail Club, mexia um drink com a mão direita e chacoalhava a coqueteleira com a esquerda. Em suas pranchetas, os jurados davam notas separadas a quesitos com “criatividade e apresentação”, “aroma e equilíbrio” e técnica.

Entre os 39 competidores, estava o brasileiro Paulo Freitas, de 29 anos, do bar do hotel Copacabana Palace. Escolhido melhor bartender do País na competição local do World Class, ele não passou para o terceiro e quarto dias da disputa, mas acompanhou de perto as apresentações dos companheiros. “Todos que estão aqui são campeões em seus países, então não há dúvida que sairão bons drinks. O diferencial é controlar os nervos, ser um bom anfitrião, uma espécie de showman. Tem que ser preciso, não pode deixar respingar bebida, o que é difícil quando se está nervoso. Tem que fazer o drink mais limpo possível”, comentava Paulo.

Além dos jurados, que dão pequenos goles de cada coquetel, alguns bartenders tomam um copinho de destilado ou uma cerveja para relaxar. Mas pouco se bebe durante a competição. Na maior parte do dia, a clima é de atenção aos mínimos detalhes, com aplausos efusivos no momento em que os bartenders agitam as coqueteleiras.

Este ano, pela primeira vez o World Class foi tema de um reality show, gravado por uma produtora inglesa. Além de toda a preocupação com o júri, os competidores ainda tinham de dividir atenção com dois apresentadores, um americano e um inglês, câmeras e microfones gigantes por todos os lados. E não podiam errar na dose.

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