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E da água fez-se a cerveja

Fundador de uma das maiores cervejarias artesanais americanas, o barbudo Greg Koch revolucionou o mercado dos Estados Unidos produzindo bebidas premiadas e reverenciadas, mesmo quando elaboradas em grande escala

20 fevereiro 2013 | 23:35 por danielmarques

A barba vasta, as sandálias simples, a magreza e o discurso improvisado ouvido com fervor por um grupo de 70 devotos remetiam a uma pregação religiosa. Mas era apenas uma pausa no Beer Train, evento organizado no fim de semana passado por Samuel Cavalcanti, da cervejaria curitibana BodeBrown. O pastor em questão era Greg Koch, fundador da Stone Brewing Co.

Não à toa, ao apresentar o convidado ilustre ao presidente da companhia responsável pelo trem que levou os cervejeiros de Curitiba a Morretes na manhã de sábado, Cavalcanti disse: “Se Garret Oliver (mestre cervejeiro da Brooklyn Brewery) é o papa, Greg Koch é deus”.

Greg Koch. Eleito o executivo mais  admirado do ano de  2012 pelo San Diego Business Journal. FOTO: Denis Ferreira Netto/Estadão

A quase onipotência das ideias de Greg entre os que o rodeavam no tour dava força ao epíteto. Fazer cerveja de qualidade, comercialmente rentável e capaz de varar fronteiras sem perder competitividade é o sonho de muitos dos que estavam ali. E Greg é o exemplo da viabilidade desse modelo: sua empresa faz cerveja de qualidade artesanal em escala industrial – foram 21 milhões de litros, em 2012.

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A receita para o sucesso ele diz que está em fazer um bom produto e entregá-lo sempre bom. “Se você quer que as pessoas pensem que o que você faz é fantástico, deve entregar um produto fantástico.” No livro The Craft of Stone Brewing Co. (US$ 16,50, na Amazon), que escreveu com o sócio Steve Wagner, ele avisa: se você não gosta do que fazemos e do jeito que fazemos, então não é nosso consumidor e não precisamos mudar nosso jeito para atender a seu gosto. Diz que não faz concessões ao consumidor e às regras de mercado: “Meu concorrente é a baixa expectativa sobre cervejas”.

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Se beber, vá de trem

A ideia do americano se repetia na fala dos produtores que o cercavam. “A rejeição me interessa”, dizia Samuel, da BodeBrown, organizador do evento. “Se uma pessoa não gosta da minha cerveja, tudo bem: há quem goste. A gente trabalha com a rejeição, não com o padrão”.

Greg elogiou as cervejas brasileiras que provou. Atencioso, estendia o copo a todos que lhe ofereciam a bebida. Cheirava, bebia, comentava, opinava com expressões faciais. Convidado a discursar, sugeriu aos cervejeiros que “trabalhem juntos” para ganhar mercado.

Na hora do brinde, Samuel fez uma homenagem ao amigo americano: abriu uma Double Bastard de 3 litros, produzida pela Stone Brewing Co., que havia comprado numa viagem aos Estados Unidos. A garrafa estava guardada há dois anos e abri-la no Brasil, com Greg Koch, era uma promessa antiga. Foi o que justificou contrariar a recomendação do produtor de consumir as cervejas da marca em até três meses. Greg fez questão de pegara garrafa e servir no vagão. Guardou para si a última dose: queria avaliar a ação do fermento depois de dois anos de ação dentro da garrafa.

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Na chegada à Morretes, Greg Koch subiu no teto vagão e deu um mosh – aquele pulo que artistas costumam dar na plateia em shows. Antes de pular sobre os cervejeiros, discursou sobre a necessidade de união dos produtores de cerveja artesanal, gritou por mudanças no mercado, clamou por uma revolução – e voou para os braços da plateia exultante.

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