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Elena Pantaleoni: La grande donna del vino naturale

Elena Pantaleoni, proprietária da vinícola La Stoppa, na Emilia-Romagna, é a grande dama do vinho natural na Itália. Ela ganhou projeção ao ser uma das estrelas do novo filme de Jonathan Nossiter, Natural Resistance (Resistência Natural).

04 fevereiro 2015 | 18:52 por marcelmiwa

Em uma região antes menosprezada pelo mundo do vinho – a Emilia-Romagna começa a ganhar respeito além do simples Lambrusco –, a fórmula encontrada por Elena e seu enólogo Giulio Armani mescla cultivo orgânico, vinificação natural e longas macerações com as cascas das uvas. Seu rótulo emblemático, Ageno, é um vinho laranja – branco feito majoritariamente com Malvasia di Candia, que fica 30 dias em contato com as cascas e ganha feições únicas: taninos discretos, bom frescor e aroma expressivo. Para fazer vinhos como faz, ela precisa de uvas com ótima sanidade, resultado de produção limitada, o que sacrifica a rentabilidade da vinícola. “Mas é fundamental ter visão de longo prazo. Meu objetivo é ver La Stoppa continuar com a mesma reputação após minha existência.” Elena fez sua primeira visita ao Brasil na semana passada e falou ao Paladar.

La Stoppa. Vinícola mescla cultivo orgânico, vinificação natural e longas macerações. FOTOS: Divulgação

Como surgiu La Stoppa?

Ficou com água na boca?

Eu estudei literatura e trabalhava em uma livraria. Meus pais compraram La Stoppa em 1973 e em 1991, quando meu pai faleceu, fui trabalhar na vinícola. Quatro anos depois minha mãe se mudou para o Chile. Fiquei com a responsabilidade de continuar com o legado.

Os vinhos mais famosos da Emilia-Romagna são os Lambruscos. Embora alguns produtores se esforcem para atingir um bom padrão, ainda não são referência de qualidade. Isso dificulta seu trabalho?

O Lambrusco está mudando. Ainda é dominado por marcas comerciais, mas o fortalecimento de subdenominações como Lambrusco di Modena, Sorbara ou Grasparossa tem ajudado a mostrar versões mais autênticas desse vinho.

Das letras às uvas. Elena Pantaleoni é destaque no novo documentário de Jonathan Nossiter, sobre vinho natural.

Mas em geral você é contra as leis de denominação de origem.

Uma DOC não garante um bom vinho. São só regras que homogeneízam e estandardizam a produção. A codificação está aí para simplificar o gosto, facilitar a vida das pessoas, por isso também o sucesso de guias com pontuações. Os vinhos tradicionais da minha região são frisantes. Não faço vinho tradicional, mas tento exprimir a vocação de nosso vinhedo em Piacenza.

Vinhos naturais são vistos como difíceis, com alguma turbidez e aromas não convencionais. Isso é um obstáculo?

Para nós, eu e Giulio Armani (enólogo), a personalidade da uva está nas cascas. Se você tem uma fruta com ótima qualidade é natural tentar extrair o máximo da casca. Agora, é perigoso confundir vinhos naturais com vinhos extremos. Em minha vinícola faço alguns vinhos fáceis e democráticos, que também são naturais, como o Trebbiolo ou o Barbera. Para mim, um bom vinho é aquele que primeiro reflete um local, depois as condições da safra e por último as variedades utilizadas.

Mas La Stoppa é reconhecida pelos vinhos mais extremos, como o Ageno e o Macchiona…

Sim, é fato. O reconhecimento vem da personalidade desses rótulos. A produção é menor. Ageno é um vinho laranja, isto é, um vinho branco que fica em contato com as cascas por 30 dias e ganha a coloração alaranjada. Sua base é uma variedade autóctone e aromática, chamada Malvasia di Candia. Já o Macchiona é uma mescla de Bonarda e Barbera, de vinhedos em encostas e também macerado por 30 dias. Esse rótulo só libero ao mercado quando acho que o vinho está pronto. Por exemplo, a safra 2007 foi liberada antes da 2006 e a safra 2002 só saiu da nossa adega em 2012.

Se arrepende de algo?

Gostaria de fazer um espumante com segunda fermentação na garrafa, mas não dá. Nossos vinhedos estão em um local onde a uva amadurece demais e teria problema para as leveduras conseguirem trabalhar na segunda fermentação.

Vinho da semana

LA STOPPA TREBBIOLO 2012

Emilia-Romagna, Itália

Quanto: R$ 66, na Piovino ()

Embora o nome insinue o corte de Trebbiano e Nebbiolo, o vinho é resultado do corte de 60% Barbera e 40% Bonarda. Fermentado com leveduras indígenas e sem passagem por madeira, é repleto de frutas negras no nariz, tudo limpo e direto. A boca reforça a lembrança de um Cru de Beaujolais, onde a fruta aparece com ótimo frescor, álcool imperceptível e taninos finos e discretos. Para servir fresco.

>>Veja a íntegra da edição do Paladar de 5/2/2015

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