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Heloisa Lupinacci

Encontro mundial de birrentos

A primeira edição brasileira do festival Mondial de la Bière começa hoje

13 novembro 2013 | 14:31 por Heloisa Lupinacci

Começa hoje, no Rio de Janeiro, a primeira edição brasileira do festival Mondial de la Bière, um dos principais eventos do calendário cervejeiro mundial (foi criado no Canadá em 1994 e tem edição na França desde 2009).

A depender de seus principais convidados, o evento poderia bem se chamar Mondiale de la Birra: os dois principais nomes da cervejaria artesanal italiana já estão no Rio. Teo Musso, da Baladin, abriu as portas para a produção de birra artigianale, e Giovanni Campari, do Birrificio del Ducato, aproveitou essas portas abertas para fazer experimentações, arrebanhando prêmios e medalhas.

Eles integram o júri do concurso de melhor cerveja e dividem sua experiência cervejeira em palestras (veja a programação completa de palestras e workshops no site do festival). Teo Musso fala hoje, às 18h50, sobre A Cultura das Cervejas na Itália. A Amanhã, às 17h30, é a vez de Giovanni Campari palestrar sobre Del Ducato e sua Correlação com a Cultura Italiana. As duas são gratuitas (paga-se para entrar).

Principal atração do evento, o concurso avalia todas cervejas sem levar em conta o estilo. O júri, formado por oito jurados, entre os quais estarão Musso, Campari e o editor do site norte-americano The Ale Street News, Tony Forder, analisa amostras sem identificação alguma. A cada prova, identificam o estilo da amostra. No final, elegem as melhores entre todas e a melhor de cada estilo. As vencedoras serão anunciadas amanhã às 14h, que é para todo mundo poder prová-las ao longo do fim de semana.

Ficou com água na boca?

Serviço – Praça Onze. Hoje, das 16h às 23h; amanhã e sáb., das 11h às 23h; dom, das 11h às 20h. Ingresso: R$ 40, por dia, ou R$ 120, todos os dias. Informações: (21) 3035-3100 e?nbsp;www.mondialdelabiererio.com

TEIMOSO VOCACIONAL

FOTOS: Divulgação

Foi no Piemonte, em meados da década de 1990, que Teo Musso brigou com o pai, viticultor, para fazer cerveja e dar início ao movimento da birra artigianale italiana. Hoje a Baladin – pronuncia-se “baladã” – é cultuada mundialmente, Musso já fez as pazes com o pai e até já lançou cervejas maturadas em barris de vinhos doados por produtores da região.

Hoje, além da cervejaria em sua Piozzo natal, ele é dono de hotel, restaurantes e pubs em três continentes (Europa, Estados Unidos e África). Pouco antes de embarcar para o Rio de Janeiro, Musso deu a seguinte a entrevista ao Paladar, por e-mail.

Esta é sua segunda vez no Brasil. Qual foi sua impressão da cerveja brasileira em 2011, quando veio para o Congresso Brasileiro de Ciência e Tecnologia Cervejeira, e o que espera agora?

Em 2011, encontrei o alvorecer da revolução cervejeira artesanal. Ligado demais aos estilos clássicos, eu acho. Desta vez, espero encontrar mais da criatividade que os brasileiros decerto têm. Como fanático da segunda fermentação em garrafa, gostaria de ver essa pegada no Brasil. Estou curioso para conferir a evolução da cervejaria artesanal brasileira.

Você acha que há um estilo brasileiro de fazer cerveja?

Para mim, a cerveja deve ser a expressão de seu país e do mestre cervejeiro. E aí vai meu conselho: façam cervejas que representem a biodiversidade do Brasil e sua alma festeira.

Como era o cenário na Itália quando você começou e como é agora?

Em 1996, quando eu e uns poucos colegas começamos a fazer cerveja artesanal na Itália, pouca gente conhecia isso. Antes de nós só se bebia cerveja industrializada pasteurizada ou de produtores artesanais estrangeiros. A cultura artesanal era zero. Nós começamos a difundi-la. Hoje, as 5 artesanais iniciais se multiplicaram em quase 600… Mas é preciso continuar trabalhando para que a divulgação seja ainda maior.

A cerveja italiana é cara no Brasil. Conversando com importadores, eles me disseram que ela já é cara aí na Itália e que o governo impõe dificuldades que encarecem a produção.

Produzir cerveja na Itália tem custos elevadíssimos, sobretudo pela burocracia. Os números ainda não permitem chegar a uma economia de escala e a escolha dos ingredientes muito específicos e a embalagem muitas vezes influem no preço final. Em consequência da comparação com o vinho e com o mercado da restauração na Itália, a embalagem da cerveja tem de ser de alto nível.

Que conselho você daria a alguém que queira criar uma microcervejaria hoje?

Que entre nesse negócio com muita atenção. É um trabalho belíssimo, mas não é fácil. É exigente, mas obviamente apaixonante. Quando alguém me faz essa pergunta, mando fazer cuidadosamente as contas e pensar não só na paixão em si, mas como vender o fruto dessa paixão. Equilibrar sustentabilidade é fundamental. Sugiro para quem quiser começar que pense primeiro num bar de cerveja (como fiz em 1996 em Piozzo).

Você sabia que em português birra quer dizer teima e fazer uma coisa mesmo que todos digam o contrário? Eu acho interessante que a palavra que define cerveja em italiano de certa forma resuma sua história em português.

Bello! Nós, da Baladin, eu, particularmente, somos muito teimosos. Se não fosse assim, não acho que hoje estaria aqui dando uma entrevista. Comecei a fazer cerveja porque tinha necessidade de exprimir minha sensibilidade com o sabor e porque, para mim, cerveja é uma forma de expressão. Fui teimoso muitas vezes: ao decidir lançar na Itália minha cerveja em garrafa para distribuir até os confins da minha região; ao querer voltar a ser agricultor para produzir grande parte da matéria-prima, porque todos devem saber que “cerveja é terra”.

Tem, mas quase acabou. A Baladin é importada pela Tarantino e pode ser achada no Empório Alto dos Pinheiros (atualmente só tem a Super Bitter, R$ 60, em garrafa de 750 ml). Na Cervejastore.com.br, tem só a Super de 250 ml por R$ 23,42.

PAIXÃO, MALTE E OUSADIA

Giovanni Campari decidiu virar mestre cervejeiro enquanto ouvia Teo Musso falar sobre suas criações – o primeiro rótulo de Musso, a Super, da Baladin, foi lançado em 1997. O Birrificio del Ducato, de Giovanni Campari nasceu dez anos mais tarde, em 2007. Hoje, os dois grandes cervejeiros italianos artesanais estão no Rio como jurados do festival. De lá, Campari falou ao Paladar por e-mail.

O que você espera provar no festival?

Espero provar cervejas interessantes. Eu sei que o movimento cervejeiro no Brasil está crescendo rapidamente. A prova é que brasileiros estão ganhando mais e mais prêmios em competições internacionais.

Você é descrito como um mestre cervejeiro criativo e inovador. Qual conselho daria a um cervejeiro que busca inovar?

Fico feliz de ser chamado de criativo. Acredito que as cervejas que faço sejam reflexo de um processo profundo que reflete meu mundo interior. Elas são feitas de cultura, inovação, paixão e conhecimento. É necessário ter ideias, ser inovador e, às vezes, testar os limites. Mas o mais importante é ter conhecimento técnico e controle do processo.

O que você tem testado ultimamente?

Meus últimos testes envolvem fermentação espontânea. Estou misturando cervejas sauer maturadas em barris, algumas vezes adicionando frutas silvestres da minha região. Essas cervejas precisam de um ano de barril no mínimo para completar a fermentação (na nossa bodega, temos mais de cem barricas). Também estou fazendo algumas experiências com novas variedades de lúpulo. Em breve, vamos lançar uma série de cervejas “varietais”, com só um tipo de lúpulo (single hop) e só um tipo de malte (single malt).

Como é o cenário da cerveja artesanal italiana hoje?

A cena da cervejaria artesanal italiana é uma das que mais cresce no mundo. Quando começamos, em 2007, havia menos de 150 microcervejarias, agora são quase 600 e a cada mês novas cervejarias abrem as portas. Em 2007, o mercado italiano estava sendo apresentado à cerveja artesanal e muitos consumidores (especialmente donos de bares) eram céticos. Hoje, a percepção sobre a cerveja artesanal italiana mudou, e isso se deve muito aos prêmios que ganhamos em competições internacionais. Em seis anos, o Birrificio del Ducato ganhou 57 medalhas.

A Itália é um país esquisito. É o único lugar do mundo com tantas culturas e tradições gastronômicas diferentes, fruto de nossos 2.500 anos de história. Mas é o pior lugar do mundo para fazer negócios: os impostos são extremamente altos e a burocracia é opressiva. Por isso, as cervejas italianas não são competitivas no mercado global.

A cerveja italiana é cara no Brasil. Conversando com importadores, eles me disseram que ela já é cara na Itália e que o governo impõe dificuldades que encarecem a produção.

A cerveja italiana é cara basicamente por dois motivos: imposto alto e produção em pequena escala. Preço sempre é um problema, especialmente quando você está exportando, e aí o que encarece é: taxação, custos de transporte, margem de lucro da cadeia de distribuição, etc. É difícil controlar o preço final, quase impossível.

Teo Musso, da Baladin, também vem para o Mondial de la Bière. Ele tem alguma influência sobre seu trabalho?

Teo é o primeiro cervejeiro artesanal italiano. Ele é um pioneiro do nosso movimento. Mas, acima de tudo, ele tem o dom de ver as coisas além, onde outras pessoas não conseguem enxergar. Esse talento de prever cenários é típico dos empreendedores de maior sucesso, como ele. Em 2005, eu fui muito influenciado pela Xyauyú (barley wine). Naquela época, eu era cervejeiro caseiro. Estava ouvindo Teo falar sobre suas criações quando fui iluminado pela ideia de virar mestre cervejeiro.

Tem, mas só sobrou a mais cara. Do Birrificio del Ducato, encontram-se apenas dois rótulos nas lojas – os outros acabaram. L’Ultima Luna e a La Prima Luna de 300 ml custam R$ 77,50 na Cervejoteca, R$ 80 no Empório Alto de Pinheiros, e R$ 83,13 na Cervejastore.com.br.

Ficou com água na boca?