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É de birra. Mas não só

Carolina Oda

Gruit Beer: a cerveja da Idade Média

Antes do uso do lúpulo, quem ditava sabor e amargor da cerveja era o gruit, uma mistura de ervas e botânicos. Agora. há cervejarias resgatando essa tradição

22 fevereiro 2017 | 19:23 por Carolina Oda

Na Idade Média a cerveja era bem diferente de como é hoje. Além de ser mais escura e defumada, não era o lúpulo que dava sabor e amargor para equilibrar o dulçor do malte, mas sim o gruit, palavra que significa “erva” em alemão antigo. O gruit é uma mistura de ervas e outros botânicos que foi amplamente usada nas receitas cervejeiras por séculos e era um dos pontos de determinação de qualidade. Cada um tinha a sua mistura, que variava de região para região como era costume em diversos países da Europa, como Alemanha, Bélgica, e  Grã-Bretanha. Dizem que mais de 40 botânicos eram utilizados, entre eles mírica, aspérula, alecrim, lavanda, milefólio, zimbro e artemísia...

Além do amargor, a mistura podia conter botânicos tóxicos, alucinógenos e afrodisíacos. Sendo assim, o controle por parte dos governantes era rigoroso e os monastérios tinham o monopólio para produzir e vender o aromatizante das cervejas.

O gruit começou a cair em desuso por motivos que envolvem conservação, saúde e política. Por volta de 1400, o lúpulo já era altamente difundido na Alemanha e Países Baixos como conservante natural da cerveja. Em 1516, a Lei da Pureza alemã declarava que cerveja só poderia ser feita com água, malte e lúpulo, decretando o fim do uso do gruit no país. O que incentivou a lei foi não só o fato de que pessoas estavam passando mal com a combinação das ervas, mas também a reforma protestante. Afinal, quem vendia o gruit eram os monastérios católicos e isso era mais uma forma de diminuir o seu poder.

Algumas cervejarias têm resgatado a tradição das Gruit Ales e temos a oportunidade de nos sentirmos na Idade Média. De versão brasileira, a primeira engarrafada chega nesta semana a São Paulo - a Loberboy, da cervejaria Seasons de Porto Alegre, em lote único e limitado. Como Gruit não tem estilo base definido, foi escolhido o Gose, estilo típico alemão com destacada acidez e um toque de sal como base. Na sua receita tem sálvia, semente de coentro, gengibre, artemísia e cidró.

“A ideia é que os temperos não fossem ser identificados individualmente, mas sim que todos estivessem em harmonia. Daí misturas como as da sálvia e gengibre, condimentados, quentes e com um traço de mentolado, com ervas amargas e contrabalançadas com o herbal ligeiramente adocicado do cidró e cítrico do coentro”, explica o criador Leonardo Sewald, sócio e cervejeiro da Seasons. “É um resgate histórico de algo que era uma expressão gastronômica, religiosa, política e cultural da Europa antiga, mas adaptada e pensada para o paladar moderno.”, complementa. E, sabendo que a legislação brasileira não permite chamar de cerveja uma bebida sem lúpulo, a Seasons usou lúpulo na composição da receita: 1g. 

E fica a cutucada: quantos botânicos nativos será que poderíamos encontrar por aqui para um gruit brasileiro? Por que não? Quem se habilita?

Loverboy 

 

  Foto: Seasons|Divulgação

Como o lote é único e pequeno, somente alguns pontos de venda terão a Loverboy (500 ml). Entre eles: Cateto R$ 57; Balcão 304 R$ 60; Barcearia R$ 59; Original Pork's R$ 57,60

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