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Guarde bem este nome: Itata

Na moda, não é difícil constatar que elementos do passado são constantemente reinventados para se transformar em novas tendências. No mundo do vinho acontece o mesmo. Os tintos e brancos com massivo uso de carvalho já foram valorizados e hoje estão em baixa. Os muito concentrados e os fruit bombs, idem. O momento agora é de vinhos mais elegantes e frescos, que remetam a um estilo ancestral, mas com personalidade original.

25 junho 2014 | 20:29 por marcelmiwa

E o Chile está entrando firme nessa história da volta ao passado e de fazer vinhos originais. “O novo Chile é o velhíssimo Chile”, explica o jornalista chileno e especialista em vinhos Eduardo Brethauer.

O velhíssimo Chile, no caso, é a região Itata, que entre meados do século 19 e início do século 20 foi responsável por 80% da produção de vinho chileno, perdeu a força nos anos 1930 e está renascendo com base no trabalho de algumas famílias que se dedicam ao cultivo das vinhas numa área dominada por pinho e eucalipto. Ali, está sendo retomada também uma cultura ancestral, a do vinho pipeño – feito em enormes pipas de madeira. A vitivinicultura local está recuperando a importância, graças a características que você pode conferir a seguir.

FOTOS: Marcel Miwa/Estadão

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UVAS

Em Itata, as videiras geralmente são arbustos que saem de um  tronco (grosso, nas videiras velhas) e chegam até o chão. Os cachos se escondem sob os ramos e folhas e essa proteção dá um ritmo de maturação mais lento, o que resulta em menor potencial alcoólico e maior acidez dos vinhos.

As vinhas velhas estão plantadas conforme o costume da época, mescladas no campo. É possível encontrar videiras de País, Moscatel, Cinsault e Moscatel rosa lado a lado, sem ordenamento. A País foi uma das primeiras variedades cultivadas no Chile. Normalmente é uma variedade de pouca complexidade aromática e certa rusticidade nos taninos.

Mas em Itata as vinhas velhas, centenárias em muitos casos, estão plenamente adaptadas ao terroir e conseguem amadurecer seus frutos com maior equilíbrio.

A Moscatel de Alexandria, também antiga, mostra equilíbrio entre maturação e acidez e tem sido utilizada para produção de espumantes pelo método tradicional (um pouco diferente do estilo dos moscatéis brasileiros). São secos, com aromas florais e minerais.

O grande destaque da região é a Cinsault. A variedade, do Mediterrâneo, chegou a Itata na mesma época que a Carignan chegou ao Maule, a partir de 1850. Tem a rusticidade domada pela idade das plantas, com a vantagem de precisar de menos calor que a País para amadurecer os frutos.

Se os chilenos sentiam a falta de identidade em seus vinhos, aqui há de sobra. Além dos aromas exóticos de especiarias, com aroma que remete ao de pimenta-rosa.

E a variedade local deve crescer ainda: plantações mais recentes concentram o foco em uvas de clima frio, como Pinot Noir, Chardonnay, Sauvignon Blanc e Riesling.

TERROIR

Clima. Itata está a cerca de 500 quilômetros ao sul de Santiago. O clima é mais frio que nas regiões ao norte, com temperaturas oscilando entre 10°C e 30°C nos dias de verão e média anual de 17°C. O cultivo das vinhas está concentrado na zona Entre-Cordilheiras. “O clima permite o cultivo da videira sem auxílio de irrigação, já que há um bom regime de chuvas, concentrado no inverno”, diz o enólogo Claudio Barría, que trabalha na capacitação dos agricultores locais para produção familiar de vinhos finos.

Solo. O Ph.D. em geologia aplicada a viticultura Pedro Parra explica que o solo local é vulcânico e a melhor situação para vinhos de qualidade ali está nas encostas, como a de Guarilihue, menos fértil e, portanto, melhor para as vinhas.

OS PRODUTORES

Embora muitos produtores ainda sejam pequenos e não disponíveis no mercado brasileiro, vale a pena ficar de olho em nomes como Viña Neira, Magenta, Zaranda e Rogue Vine, que já obtiveram bom reconhecimento no guia de vinhos sul-americanos Descorchados 2014.

O guia também indica a volta da moda dos vinhos Pipeños, feitos da forma tradicional, em grandes pipas de madeira como se fazia nos tempos áureos da região, quando os vinhos de Itata eram vendidos nessas pipas e nelas transportados até o porto de Tomé, em Concepción. Como as variedades estavam (e ainda estão) todas misturadas no vinhedo, eram vinificadas todas juntas, com cachos pisados com os pés, fermentação espontânea e nenhuma filtragem. É um estilo que tem ressurgido, mas com maior controle de fermentação e assepsia dos tanques.

As grandes vinícolas chilenas também têm apostado na região: o grupo San Pedro apresentou recentemente um experimento chamado Los Despedidos (nome dado à possível consequência caso os enólogos não chegassem a um acordo sobre esse vinho) com País e Cinsault; A Viña Montes já produz um Cinsault na linha Outer Limits; Miguel Torres também já engarrafa o vinho Días de Verano, um moscatel produzido com uvas de Itata; a Viña Bisquertt faz o rosé Escaping, Kissing & Missing de País e a Casa Lapostolle tem comprado uvas de viticultores de Itata para os primeiros experimentos.

Recuperar as vinhas de Itata é a última esperança de muitas famílias da região, onde o cultivo de pinus e eucalipto exerce forte pressão sobre os pequenos agricultores. A Associação de Enólogos do Chile está empenhada e até a Arauco, maior empresa florestal do Chile, começou a investir na viticultura por pressão da comunidade local para tentar reverter o quadro: são mais de 1 milhão de hectares dedicados às madeiras e 50 hectares para a viticultura.

O que tem aqui. A boa notícia é que um dos grandes destaques da região pode ser encontrado por aqui. São os vinhos da vinícola De Martino Viejas Tinajas branco e tinto (R$ 101, cada) e Gallardía del Itata branco, rosé e tinto (R$ 65,10 cada), ambos importados pela Decanter Vinhos.

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 26/6/2014

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