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Irmãos produzem vinho na Síria, apesar da guerra

Sandro e Karim Saadé, do Domaine de Barylus, não pisam em seus vinhedos há cinco anos, mas contornam as adversidades com insistência e conquistam críticos com bons vinhos e bebedores com uma bela história

26 janeiro 2016 | 16:28 por Isabelle Moreira Lima

Os irmãos Sandro e Karim Saadé estavam empolgadíssimos em participar da Vinexpo, maior feira de vinhos da França, realizada em Bordeaux em junho do ano passado. Seria a primeira vez que levariam seus rótulos do Château Marsyas e do Domaine de Bargylus produzidos no Líbano e na Síria, respectivamente, para o evento. Chegando lá, a coisa toda foi meio decepcionante, contaram ao Paladar em entrevista por telefone. “Ficamos mais tempo explicando as adversidades que passamos para produzir em um país em guerra do que falando dos vinhos em si ou fazendo negócios”, afirma Sandro.

Trabalhador em vinhedo da Domaine Bargylus, em Lattakia, Província mediterrânea na Síria

Trabalhador em vinhedo da Domaine Bargylus, em Lattakia, Província mediterrânea na Síria Foto: Divulgação

É que, de fato, as intempéries são muitas. Para começar, faz cinco anos, desde que a guerra civil explodiu na Síria, que Sandro e Karim não pisam no Domaine Bargylus. O risco de sequestro, bombardeio ou fogo cruzado é muito alto. Por sorte, têm uma equipe treinada em que confiam e que lhes passam boletins diários do que acontece nos vinhedos, que se estendem por 12 hectares na província mediterrânea de Lataquia, no Noroeste da Síria.

Para saber a hora exata em que a vindima deve ser feita, amostras das uvas viajam de taxi dos parreirais nas encostas das montanhas Al-Ansariyah, em um isopor com gelo até Beirute, onde serão testadas em laboratório e analisadas pelos irmãos. O trajeto, que pode ser percorrido em três horas e meia em um dia bom, pode levar uma semana ou mais quando as fronteiras estão fechadas -- um negócio de risco quando se leva em conta a importância de colher na hora certa.

As uvas viajam de táxi em geladeiras térmicas para que os irmãos decidam o momento da colheita

As uvas viajam de táxi em geladeiras térmicas para que os irmãos decidam o momento da colheita Foto: Jamal Saidi|Reuters

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Os desafios parecem permear todas as fases de produção. Para evitar problemas com eventuais embargos, os irmãos mantêm um estoque de rolhas e garrafas suficientes para embalar duas safras. A compra do carvalho francês é feita de forma programada: começam a recolher as assinaturas necessárias com meses de antecedência.

Até agora, na maior parte das vezes, as adversidades têm sido vencidas. Os vinhos dos irmãos Saadé, pela história e pela qualidade, conseguiram entrar na carta de restaurantes estrelados de Paris e Londres como o L’Atelier de Joel Rebouchon e no Dinner, de Heston Blumenthal. Em Paris, uma garrafa do corte tinto da Bargylus, onde o Syrah domina e divide espaço com a Cabernet Sauvignon e a Merlot, custa 36 euros. O branco, feito com Chardonnay e Sauvignon Blanc, sai por 28 euros.

Os vinhos chamaram atenção de críticos como James Suckling, que deu 90 pontos para o branco da Bargylus, que ao ser degustado “traz o desejo por paz no Oriente Médio”; e Jancis Robinson, que se disse “impressionada pela profundidade de sabor” do corte tinto de 2007. O Reino Unido e Dubai são os principais mercados, mas agora os irmãos também vendem para Paris, Malta, Hong Kong e Japão e estão em busca de um importador no Brasil.

Sandro Saade, dono do Domaine Bargylus, e o consultor francês Stephane Derenoncourt

Sandro Saade, dono do Domaine Bargylus, e o consultor francês Stephane Derenoncourt Foto: Jamal Saidi|Reuters

Eventualmente, no entanto, os Saadé se deparam com problemas como a explosão de morteiros, que em junho passado arrebatou 15 vinhas de seu precioso Chardonnay. A autoria do crime é apenas uma suspeita: a três quilômetros há uma cidade dominada por integrantes do Estado Islâmico (EI).

“Para nós não é um problema falar sobre os obstáculos de se produzir nessas condições, em uma zona de guerra. Muita gente pensa que não há álcool no país. Para nós é uma missão mostrar que há sim vinho na Síria e que o Bargylus é um símbolo”, disse Karim.

 

Vinhos do Domaine de Bargylus são servidos em degustação

Vinhos do Domaine de Bargylus são servidos em degustação Foto: Jamal Saidi|Reuters

Quando resolveram começar a fazer vinho em 2003 para realizar um sonho do pai, um empresário com negócios em diversas áreas, desde transportes a imóveis, a situação era diferente. A Síria não estava em guerra e, para os irmãos sírio-libaneses, não fazia sentido escolher entre o país e o Líbano para encontrar seu terroir. “Nossa origem está nos dois países e, portanto, queríamos que a nossa produção também ocorresse nos dois lugares. Sem falar que era muito tentador fazer o primeiro vinho sírio do mercado, uma vez que a produção estava parada desde o começo do século 20”, conta Sandro.

Com a consultoria do superespecialista bordalês Stéphane Derenoncourt, os irmãos escolheram a costa montanhosa de Jebel Al-Ansariye, o Monte Bargylus do Império Romano, que se aproveitou das mesmas encostas para plantar suas uvas. Como se pode ver, a tradição da produção síria remonta da Antiguidade, mas hoje o Domaine Bargylus faz os únicos vinhos sírios comercializados do mundo.

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