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Jancis reedita seu 'Oxford Companion to Wine'

Isabelle Moreira Lima

05 agosto 2015 | 21:10 por redacaopaladar

É quase lugar-comum afirmar que o vinho é uma coisa viva, que se transforma com o tempo. Mas não é só a bebida que evolui. As formas de produção, as tendências de mercado, as preferências do consumidor, tudo está em constante mudança. Nos últimos anos, regiões antes inimagináveis entraram no mapa da vinicultura – Alasca, Noruega, Taiti. Nas prateleiras, surgiram produtos como vinhos naturais e o vinho laranja.

Agora imagine o trabalhão que a inglesa Jancis Robinson, uma das mais influentes críticas de vinho da atualidade, teve para atualizar seu Oxford Companion to Wine (Ed. Oxford University Press), uma espécie de dicionário do vinho, nove anos depois da última edição.

“É só pensar no quão diferente está o mapa da produção do vinho. Há novos produtores no norte da Europa que antes não eram capazes de amadurecer uma uva. Reescrevemos tudo sobre geologia”, conta a crítica.

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 FOTO: Divulgação

Em 912 páginas, Jancis e a coautora Julia Harding reúnem quase 4 mil verbetes, sendo 300 deles novos. A nova edição, que será lançada em setembro na Inglaterra e em outubro nos Estados Unidos, contou com 187 colaboradores – acadêmicos, produtores e experts.

Em entrevista ao Paladar por e-mail, a inglesa mais poderosa do mundo dos vinhos e autora dos principais livros de educação sobre o tema disponíveis do mercado – Atlas Mundial do Vinho (Globo Estilo, 400 págs.), em parceria com Hugh Johnson, e Wine Grapes (Ecco, 1280 págs.), sobre mais de 1,3 mil cepas, entre outros – falou sobre tendências, variedades que ganham popularidade, mudanças de comportamento do consumidor, aquecimento global.

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Qual a maior mudança em relação à última edição? Algum verbete novo que seria inimaginável no passado?

O conceito de vinho ideal mudou completamente: de encorpado, alcoólico e amadeirado para refrescante, transparente e geograficamente expressivo. Além disso, outras variedades de uvas que não as famosas internacionalmente estão mais populares. Há uma extensa lista de 300 verbetes no começo do livro. Alguns exemplos: mineralidade, aplicativos de vinhos, Hong Kong.

Como foi o trabalho de revisão para a nova edição?

Precisamos fazer um trabalho intensivo porque a última edição era de 2006. Quase dois terços dos 4 mil verbetes tiveram de ser dramaticamente revisados, alguns deles totalmente reescritos. Julia Harding e eu trabalhamos concentradamente por dois anos nesta edição, além de termos recebido o auxílio dos nossos colaboradores.

Como autora de alguns dos livros mais populares do mundo do vinho, há algum assunto ou formato novo que gostaria de experimentar no futuro?

Agora eu estou escrevendo um breve guia sobre os aspectos básicos e práticos do vinho para aquelas pessoas que não querem livros muito longos, que querem saber apenas o básico. A Penguin vai publicar 24 Hour Expert em fevereiro. Apresentei a primeira série de TV sobre vinho nos anos 1980 e, nos 1990, apresentei o premiado programa de tevê na BBC Jancis Robinson Wine Course. Gostaria de levar o vinho às telas novamente.

O que é o melhor e o pior de escrever sobre vinho?

O melhor é que a atividade combina lindamente estímulo intelectual com prazer sensorial. O pior é que envolve consumo de álcool durante o dia de trabalho. Eu tento cuspir tudo quando estou degustando, mas há sempre um efeito indesejado.

Na sua opinião, o que é a coisa mais interessante acontecendo hoje no mundo do vinho?

Eu estou empolgadíssima que muita gente jovem em diferentes partes do mundo está se interessando por vinhos. O vinho não é mais um produto de nicho, mas é um interesse comum e unificador.

E quais os maiores desafios?

O mercado de vinho é tão competitivo que os produtores só se mantêm se a qualidade do produto melhorar a cada ano. O problema deles é encontrar o consumidor certo. O sistema de distribuição do vinho é terrivelmente complexo. A internet ajuda, mas não parece ser rápida o suficiente.

E qual o impacto do aquecimento global? Ele de fato já preocupa os produtores?

Na Europa, o aquecimento global é amplamente benéfico. Na Austrália e na Califórnia, pode ser mais problemático porque há problemas com a água – má qualidade e escassez. Este está começando a se tornar um problema na América do Sul também.

Qual a sua avaliação do vinho brasileiro?

Não experimentei uma ampla variedade de vinhos brasileiros nos últimos tempos, mas, do que degustei, o espumante foi o que mais me impressionou. Agora, tenho certeza de que há bons vinhos nas novas regiões produtoras no Sul.

Novos Verbetes

Após a revisão, a autora precisou incluir mais 300 novos verbetes que refletem o momento atual como:

- Aplicativos de vinhos: não dá para não falar de apps como Vivino, Hello Vino e Drink Wine 360.

- CellarTracker (site): rede social que reúne críticas, notas de degustação e histórias dos usuários.

- Concreto: tanques de concreto para vinificação se tornaram populares no Novo Mundo, no lugar da madeira.

- Vinhos falsificados: grande problema atual, especialmente na China.

- Mtsvane: uva da Geórgia usada em brancos cujo nome significa “jovem e verde”.

- Vinho natural: uma das tendências atuais, prega o mínimo de intervenção possível no processo de vinificação.

- Vinho laranja: feito com uvas brancas, que fica em contato com as cascas.

- Qvevri: vaso de argila usado na Antiguidade na Geórgia, resgatado hoje.

Oxford Companion to Wine

Editora: Oxford University Press, 912 páginas

Preço: Pré-venda na Amazon.com por US$ 43,80 (US$ 33,15 versão online)

>>Veja a íntegra da edição do Paladar de 6/8/2015

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