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Maculador da lei germânica

Por Edson Franco

02 maio 2013 | 00:13 por redacaopaladar

O acaso fez com que um empresário carioca desse o pontapé inicial no processo. Marcelo Carneiro era sócio de uma editora e estudava as artes do ofício em uma universidade francesa até 1994, quando seu pai morreu. A tragédia obrigou o jovem empreendedor a voltar ao Brasil e assumir os negócios da família, dona de uma pequena fazenda e uma indústria farmacêutica em Ribeirão Preto.

Foi quando apareceu o empresário Cesário Melo Franco, um dos donos da Cervejaria Xingu. “Ele chegou e disse: ‘Vocês são bons em brincar de químico. Então por que não montam uma microcervejaria? Esse negócio está bombando nos Estados Unidos’”, lembra Marcelo.

Sem mestres que dominassem um repertório capaz de ir além das pilsens, Marcelo importou o cervejeiro americano Rick Wisk, que desenvolveu nove chopes. E foi com eles que, em 1995, a recém-nascida Colorado iniciou os trabalhos que iriam colocar o nome de Ribeirão Preto no mapa nacional das cervejarias artesanais.

Marcelo Carneiro desafiou a ortodoxia cervejeira com ingredientes como mel e café. FOTO: Patricia Cruz/Estadão

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Foi um começo difícil. “As pessoas provavam e achavam todas as bebidas ruins, amargas. Estavam acostumadas demais com as pilsens leves”, conta Marcelo. Dois eventos simultâneos ajudaram a impulsionar os negócios. Com a importação mais constante de rótulos e o fato de os brasileiros estarem viajando mais, surgiu um grupo de aficionados dispostos a encher seus copos com variedade.

A resistência diminuiu, mas não o suficiente para fazer da Colorado uma marca popular. Durante os dez primeiros anos da companhia, Marcelo seguiu à risca os ditames da Lei de Pureza da Cerveja, regulamentação criada pelos alemães em 1516 que delimita os únicos ingredientes permitidos na formulação da bebida: cevada, lúpulo, água e fermento. Nada mais. Ao rasgar as páginas da lei, o empresário deu o salto que expandiu as fronteiras da empresa.

Mandioca e rapadura. A Colorado apostou na mestiçagem e maculou a pureza germânica com ingredientes nacionais. A partir de 2005, mandioca, rapadura, mel e café ganharam espaço nas receitas. Foi um sucesso. Tanto que as cervejas Cauim, Indica, Appia e Demoiselle são hoje as artesanais mais facilmente encontradas nos supermercados brasileiros.

O crescimento despertou a atenção das grandes cervejarias. A Antarctica, que na época ainda tinha sua fábrica em Ribeirão, propôs uma fusão. Inspirado em outras pequenas cervejarias que sucumbiram diante do assédio das gigantes, Marcelo sequer considerou a hipótese do acordo. E hoje quem está ficando gigante é ele. A Colorado produz 100 mil litros de cerveja por mês e tem planos de quintuplicar esse volume nos próximos anos. Precisa correr.

O que no início era apenas um negócio virou paixão. Apesar dos planos expansionistas, o que ainda mais dá prazer a Marcelo é passar horas numa câmera refrigerada no subsolo de sua companhia.

Ali, ele esconde um verdadeiro tesouro de experiências com lúpulos, cervejas armazenadas em barris de cachaça ou uísque e novas fórmulas com ingredientes nacionais.

Entre as preciosidades, estão 14 alquimias cervejeiras que, por ora, enfrentam o trâmite de liberação pelas autoridades agropecuárias. Em média, a burocracia faz com que o prazo de chegada das criações da Colorado até as papilas gustativas dos bebedores demore um ano. “Isso é bom para as grandes e ruim para nós, que vivemos de novidade, mas não me desanima, não”, diz Marcelo.

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