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Marinheiro de primeira beberagem

04 outubro 2012 | 08:00 por luizhorta

Vinhos provados a bordo do Friendship

Uma vantagem indiscutível de degustações em barcos é que, qualquer que seja a quantidade de álcool ingerida, o andar vacilante de marinheiro, ao estilo de Popeye, disfarça. Foi o que aconteceu no fabuloso Friendship, navio da Pipadouro.

O barco não é enorme, nada de navio de cruzeiro ou transatlântico. É um “wooden yatch classic” de 66 pés, casco duplo feito de mogno de Honduras, mas tem um charme histórico suficiente para encantar. Saiu dos mesmos estaleiros que serviam à Marinha britânica, modelos semelhantes levavam almirantes para embarcar nos seus, estes sim, grandes navios. Tem o conforto de quartos, uma suíte com banheiro, é todo extremamente cuidado, madeiras envernizadas e enceradas, metais polidos como para uma inspeção da Marinha. É como uma sóbria sala de clube inglês flutuante singrando (já tentei encaixar esse verbo em inúmeros textos, hoje consegui) os mares e tem ótima cozinha, nos dois sentidos: equipamento e os pratos que brotam dela. Pode ser alugado para passeios, jantares ou mesmo viagens.

Foi flutuando no Rio Douro, que os chamados Douro Boys ofereceram uma seleção supimpa de seus vinhos, do… Douro. Diante de tanta distração dourada, paisagística e ornamental, além do fulminante pôr do sol, os vinhos precisavam ter presença para serem notados. Vinhos comuns sumiriam. Mas estou falando de Van Zeller, Niepoort, Crasto, Vallado e Meão. Enquanto comíamos finger food e víamos a noite tardia baixando sobre o rio, degustamos. Fazia calor, os boys são hospitaleiros, encontram-se tanto que já se tornaram uma espécie de show, e os vinhos desses sujeitos que mostraram que havia mais que porto para ser extraído daquele chão duro foram notáveis (e eu tenho vinho do porto no DNA, brilho de alegria diante de um tawny, mas reconheço que o atrevimento deles recompensou, fazendo vinhos de mesa não fortificados na região). Aprendi para sempre, montanhês que sou, com o wine writer Jorge Lucki, o que é proa, o que é popa (“lembre-se da expressão vento em popa”).

Ficou com água na boca?

A longa degustação terminou sob as estrelas, o barquinho fazendo meia-volta, já longe, quase entrando na Espanha. Cristiano Van Zeller serviu, sem alarde um último cálice, um tawny 1962. Brindamos, descemos muito mais civilizados do que embarcamos. Curiosamente, mantivemos até o hotel o mesmo jeito oscilante de caminhar de velhos lobos do rio.

Lusco-fusco. Tomei notas numa caderneta pequena, com a letra cada vez maior, pois foi escurecendo. Espero não ter cometido erros horríveis na anotação das safras. Relevem, por favor. Foram quatro brancos, todos demonstrando como os brancos portugueses são cada dia melhores. O VZ 2011 (provei também outras safras do branco que passa por madeira de Van Zeller, mas falarei deles em coluna posterior), ainda com bastante carvalho por integrar, mas com acidez e corpo para segurar a tarefa. O Redoma 2009, um dos primeiros brancos do país a me encantar, anos atrás, muito elegante. E os da Quinta do Vallado 2004 e 2006, uma boa comparação de sua capacidade de evolução na garrafa. O 04 ganhou densidade, alguma potência, ficou equilibrado e é uma delícia.

Daí passamos aos tintos. Era um pouco triste esvaziar as taças no rio, vontade de engolir todo o líquido. O Quinta do Crasto Reserva 2010 foi um alvoroço, excelente, taninos muito finos, ótima acidez, um estilo claramente de vinho do Douro, lembranças de um LBV sem o açúcar residual e o álcool. Vinhaço. O Meandro 2010, bastante floral no nariz, ainda com os taninos bem secantes, menos “in your face” que o Crasto, mas é como o segundo vinho do Meão e não pretende ser tão expressivo. O sensacional Batuta 2006, que já provara recentemente, Niepoort em grande estilo. O Vallado Reserva 2007, fechado no nariz, mas com uma boca incrível, a elegância engarrafada, um dos mais franceses do grupo, e no caso, isso é um elogio. O Charm 2008, leve defumado nos aromas, gostoso, era uma Magnum e foi um dos vinhos que continuei bebendo depois da degustação.

Então vieram as surpresas, as novidades de rótulos manuscritos, essa alegria para os jornalistas de vinho, ver a cozinha das vinícolas, o que eles andam aprontando para o futuro. Foram dois vinhos ainda nascentes. O Crasto Roriz, um dos melhores da noite, nariz complexo com traços de alcatrão, potente com delicadeza, essa difícil qualidade, longo, taninos macios, um acontecimento. E o Monte Meão (Granito) 2009, primeiro single vineyard da Quinta do Vale Meão, só de Touriga Nacional. Muito fino, mineral quase salgadinho, fresco, fácil de beber, mas com a devida austeridade, um gentil-homem português. Encantou.

Frederica. Como os vinhos da Quinta do Vale Meão eram os favoritos (para cheirar) de minha gata Frederica, que morreu na semana passada com 10 anos, peço licença para fazer esta homenagem à minha olfadora favorita, mencionando-a, pela última vez na coluna, junto ao seu aroma de vinho predileto.

Ficou com água na boca?