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Mudança no clima desafia vinicultura

O aquecimento climático já está alterando a produção de vinhos no mundo. Agora, vinicultores pesquisam plantas e técnicas para preservar a qualidade da bebida no futuro

02 dezembro 2015 | 15:17 por redacaopaladar

Por Isabelle Moreira Lima

Os vinhos que os mais de 150 chefes de Estado estão bebendo em Paris nesta semana, na 21ª Conferência do Clima da ONU, podem não existir em alguns anos. Se o planeta ficar ainda mais quente, uma cepa como a Syrah pode deixar de existir tal qual a conhecemos, assim como a Borgonha dificilmente conseguirá manter seus célebres “climats” intocados.

Os vinhos que bebemos hoje já são diferentes dos que os nossos avós consumiam. Claro que houve uma forte modernização no processo de vinificação, mas há mudanças expressivas no cultivo das uvas. Vindimas em todo o mundo têm acontecido duas ou três semanas mais cedo do que há 50 anos; os níveis de álcool dos principais tintos estão mais altos em 1% ou 2% em relação aos anos 1970.

Olivier Julien, tradicional produtor do Languedoc – que já está quente demais para a Syrah –, disse à revista inglesa Decanter que desistiu da Grenache porque, nos últimos anos, o vinho que ela gera tem batido 15% de teor alcoólico. Há quem enfrente a possibilidade de sair de determinada denominação de origem porque não consegue produzir as cepas obrigatórias com a qualidade que deseja.

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Aquecimento. 73% do território viticultor da Austrália pode se tornar inviável até 2050. FOTO: David Gray/Reuters

Na maior parte das regiões produtoras, a temperatura subiu entre 1°C e 2°C na segunda metade do século 20. Mas o aquecimento não foi uniforme: as áreas mais atingidas foram o oeste dos EUA, sul da Europa, Austrália e Chile. Há estudos que apontam que regiões mais próximas do oceano Atlântico podem ser um refúgio para a viticultura até 2050.

Para alguns, a saída é plantar vinhedos em terrenos de maior altitude. A italiana Ferrari, de Trento, há três anos só planta acima de 300 m do nível do mar. “Fomos subindo gradualmente nos últimos 20 anos. O último vinhedo que plantamos está a 700 m”, contou ao Paladar o presidente da casa Matteo Lunelli.

Mas em algumas regiões esta alternativa é impossível – como em Bordeaux, pela geografia – ou já se mostrou ineficaz, uma vez que geadas podem ser mais frequentes em maiores altitudes. Sem falar que terroir não é algo que se transfere de um lugar para o outro. Seria então o fim dos grandes vinhos?

Os otimistas diriam que eles apenas mudarão de endereço. A Inglaterra, um país que consome e entende bem do assunto, mas nunca foi conhecida por sua produção, pode entrar no jogo. Antes muito fria para as cepas clássicas de Champagne (Pinot Noir, Chardonnay e Pinot Meunier), hoje faz premiados espumantes.

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Os precavidos fazem pesquisas e mais pesquisas. Neste ano, Bordeaux testa 52 diferentes variedades de cepas estrangeiras em um esforço comandado pelo Instituto para Pesquisa de Agricultura da França. A preocupação nasceu com a safra de 2003, ano de calor extremo, em que as uvas geraram vinhos com aromas de fruta cozida, baixa acidez e vida curta.

Mas há os que defendem que a saída é achar o clone certo. Em 2006, estudos técnicos mostraram que o alto grau alcoólico dos vinhos da região de Howell Mountain, em Napa Valley, não se deu pelo aquecimento da região, mas pela seleção das plantas, derrubando a tese de que o calor gera frutas muito doces e, consequentemente, vinhos muito alcoólicos.

No Brasil, a preocupação é com a crescente boa reputação dos espumantes. As mudanças nas temperaturas aqui tendem a realçar características das regiões: as áreas secas ficariam mais secas, e as úmidas, ainda mais úmidas, o que seria uma “temeridade”, afirma o diretor da ABS André Logaldi, um estudioso do clima. Mas, segundo ele, o País não negligencia essa questão e há estudos da Embrapa em curso sobre as mudanças no Vale dos Vinhedos. “Acredito que os nossos espumantes não correm risco em um futuro imediato e em cem anos, muito progresso pode ser alcançado em benefício da viticultura.”

De uma forma ou de outra, pode-se ver como bom presságio que o mais importante debate realizado sobre mudança climática ocorra na França, maior produtor de vinhos do mundo. Se você está curioso para saber o que os líderes vão beber lá, aqui vai uma amostra: o branco Meursault 1er Cru “Santenots” 2011, o tinto Domaine Marquis d’Angerville Chateau Beychevelle 2009, e a Champagne Philipponnat Cuvee 1522.

>> Veja a íntegra da edição de 4/12/2015

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