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Nariz em Bordeaux, boca no Mediterrâneo

Com histórias de superação após a guerra civil e relevo que faz lembrar o do Chile, o vinho libanês tem despertado atenção do mundo todo. De olho no mercado brasileiro, produtores promovem degustação hoje em São Paulo

26 novembro 2014 | 17:37 por marcelmiwa

Os produtores do Líbano estão de olho no Brasil e, para mostrar seus vinhos, organizaram uma grande prova, marcada para hoje na casa do cônsul do Líbano em São Paulo. O Paladar provou os vinhos em primeira mão e apresenta a seguir as notas de prova de cada um deles – faltou o vinho ícone do país, o Chateau Musar, importado pela Mistral.

O interesse pelos vinhos libaneses tem sido crescente. E não sem razão. O país ocupa território que foi um dos berços da vitivinicultura da humanidade, mas, por causa de guerras, entre outras complicações que prejudicaram a produção vinícola por muito tempo, ficou fora do mercado. Porém, desde os anos 1990 a produção vem crescendo e se aprimorando: no início da década de 1990, quando terminou a guerra civil, havia apenas quatro vinícolas no Líbano. Hoje, contam-se 45.

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O relevo do país lembra bastante o do Chile. A costa volta-se para o Mediterrâneo e, conforme se avança para o interior do país, existem duas cadeias de montanhas que modulam o clima. O comprido Vale do Beqaa ocupa o espaço entre as cordilheiras do Líbano e Anti-Líbano e é a principal zona de produção de vinhos do país. O clima árido, mas com fácil acesso a água para irrigação (de degelo das montanhas), altitudes entre 800 e 1.200 metros e solo argilo-calcário e aluvial se mostra adequado para as variedades bordalesas, com maior foco na Cabernet Sauvignon, e algumas castas mediterrâneas em que a Syrah é a principal. Em muitos dos vinhos há o complemento da Merlot, Petit Verdot, Cinsault, Grenache e Carignan. A influência da França nos vinhos libaneses é evidente, graças não apenas ao clima, mas ao período em que o país esteve sob influência do governo francês, entre as guerras mundiais.

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Os vinhos libaneses mostram caráter único, mas sem assustar os mais conservadores. De forma objetiva, os tintos (que dominam a produção) têm nariz em Bordeaux e boca do Mediterrâneo, algo como o Languedoc. Traduzindo em sensações, os aromas são de frutas vermelhas ou negras bastante maduras, algo de baunilha e especiarias pelo trabalho “bordalês” com as barricas. Na boca, são potentes, com taninos marcantes (o lado “mediterrâneo”) e sem notas herbais.

Na degustação provamos os vinhos de dez vinícolas libanesas. Na prova, seis amostras se destacaram, das quais apenas duas ainda não exportadas para o Brasil.

 

FOTOS: Daniel Teixeira/Estadão

ATIBAIA 2010

Origem: Batroun

Preço: R$ 285, na Zahil

Foi o destaque da degustação. A descrição de nariz bordalês com boca mediterrânea o retrata com precisão. No nariz, fruta vermelha e negra cristalizada, pimenta e violeta. Na boca os taninos aparecem com potência e bom polimento. O vinho segue crescendo, mostrando camadas de aromas, com toques de terra, cravo e alcaçuz. O único vinho de Batroun, na costa do Líbano, é um corte de Cabernet Sauvignon (65%), Syrah (30%) e Petit Verdot (5%).

IXSIR GRANDE RESERVE 2009

Origem: Vale do Beqaa

Preço: R$ 150, na Grand Cru

No nariz, chega a passar a sensação de muito maduro, com geleia de frutas negras e balsâmico. Na boca, taninos finos e textura aveludada. No final, algo de toffee, cravo e baunilha, mas a fruta não perde força. Corte de Cabernet Sauvignon e Syrah, passa 12 meses em barricas francesas. Feito com consultoria do bordalês Hubert de Boüard, proprietário do Château Angélus, em St-Émilion.

CHÂTEAU KSARA 2005

Origem: Vale do Beqaa

Preço: R$ 208,90, na Interfood

A safra mais antiga do painel prova que tintos libaneses podem melhorar na garrafa. Os taninos amaciados deixam o vinho mais fácil de beber, com aroma de frutas negras doces, tabaco e amêndoa. O vinho é quente (álcool), mas sem agredir.

CHÂTEAU QANAFAR 2011

Origem: Vale do Beqaa

Preço: Sem importador

Tinto que tem começo, meio e fim coerentes, com taninos potentes e finos e bom frescor para compensar os 14% de álcool. Mescla de Cabernet Sauvignon, Merlot e Syrah passa 12 meses em barricas francesas. No nariz, o vinho tem personalidade internacional, isto é, não tão exótico. Os aromas são de frutas negras e vermelhas bem maduras e limpas, com algo de cedro, baunilha e terra.

CHÂTEAU OUMSIYAT ‘LE PASSIONÉ’ 2009

Origem: Vale do Beqaa

Preço: Sem importador

A família Sleiman produz vinhos e arak desde 1950. Mescla de partes iguais de Syrah e Cabernet Sauvignon, tem aromas de frutas negras tostadas. A textura é polida, com taninos finos e intensos casa bem com a acidez é correta. Na boca, permanece o sabor de licor de cereja.

CHÂTEAU KSARA CUVÉE DE PRINTEMPS 2012

Origem: Vale do Beqaa

Preço: R$ 71,90, Interfood

Proposta mais jovial, descontraída e barata dos tintos libaneses. Frutado e leve, este vinho não passa por madeira e seus aromas são de frutas vermelhas frescas (morango e framboesa). Os taninos são discretos e no final aparece um toque herbal.

>>Veja a íntegra da edição do Paladar de 27/11/2014

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