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Saca essa rolha

Isabelle Moreira Lima

Nestes vinhos portugueses, a terra vale mais que a casta

Os rótulos da Quinta dos Murças, no Douro, que chegam ao Brasil em março, são vinhos com foco na região em que suas uvas crescem

15 fevereiro 2017 | 21:38 por Isabelle Moreira Lima

Na primeira vez em que encontrei o português José Luís Moreira da Silva, que assina os vinhos da Quinta dos Murças, ele afirmou que ficaria feliz se fosse conhecido, daqui a algumas décadas, como o enólogo que não deixa marcas. De maneira quase existencial, disse ao modo português e em meio a uma ventania no Cima Corgo que “gostava de desaparecer”. Essa ideia ele já começou a por em prática e pode (não) ser vista nos três rótulos que chegam em março ao Brasil: Margem, Minas e VV 47. 

São vinhos com foco objetivo na região em que suas uvas crescem a começar pelo nome. Neles, vale mais a terra que a casta e a atuação da vinícola é tão precisa quanto discreta, como se mostrassem uma nova cara do Douro – mais um entoar o hino dos vinhos de terroir? Os três, importados pela Qualimpor, foram lançados em Portugal em outubro e, em novembro, esgotaram. 

 

  Foto: Divulgação

O Minas (R$ 149, preço estimado), por exemplo, é feito com frutas que crescem com intensa exposição ao sol em vinhas de até 30 anos vizinhas às cinco minas d’água que abastecem a quinta. A vinificação tratou de transportar para a garrafa as características que esse ecossistema concede: frescor e explosão de fruta. 

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O Margem (R$ 420), uma seleção de uvas de baixa altitude cultivadas às margens do Douro, é o “cavalo selvagem” do grupo, de alta concentração, apesar da pouquíssima extração (apenas quatro horas de pisa a pé em lagares), e impacto imediato, com sua acidez altíssima e seus taninos “extrovertidos”, além dos 14,5% de álcool.

Por fim, há o VV47 (R$ 790), o ícone da casa. Mas, note, aqui “ícone” não se aplica à ideia duriense: sai a potência tradicional da região e entra uma elegância que a casa quer impor como marca. O nome faz referência à vinha vertical de 1947, sistema que não só caiu em desuso como foi proibido quando a região foi tombada pela Unesco. Mas, segundo Zé Luís, é a verticalidade que dá graça e cara ao vinho, por aproveitar melhor a luz no amadurecimento da fruta e o vento como condutor de frescor e aliado contra pragas e fungos. “A verticalidade é a nossa identidade e queremos replantar videiras deste modo”, diz o enólogo, em prova em São Paulo, emendando que se for preciso brigará na Justiça para obter a liberação.

Com tanta determinação, fica difícil crer que o enólogo à frente de um dos mais audaciosos projetos do Norte de Portugal pode, simplesmente, tornar-se invisível.

AS VINHAS VERTICAIS DA QUINTA DOS MURÇAS

As vinhas verticais da Quinta dos Murças, localizadas na região mais central do Douro, na sub-região do Cima Corgo, destoam de toda a paisagem local. Lá, por (quase) toda a parte, os vinhedos são plantados em patamares horizontais, os chamados socalcos, que se organizam uns sobre os outros formando um visual célebre e único. 

José Luis Moreira, enólogo Quinta dos Murças

José Luis Moreira, enólogo Quinta dos Murças Foto: Divulgação

Mas na Quinta dos Murças, isso não importa, a verticalidade, muito popular em outras margens de rio, como na do Mosel, na Alemanha, é que é a vedete. E o resultado disso, os que visitam podem sentir, é uma ventania selvagem capaz de levar tudo o que não se agarra firme nas mãos e de emitir o som que batiza a linha de entrada da casa, a Assobio. 

“Sou um grande defensor das vinhas verticais e de diferentes castas plantadas juntas. Elas se tornam mais equilibradas e as raízes se grudam mais ao solo, descem mais, ficam mais profundas, causando menos erosão”, afirma o enólogo José Luís Moreira da Silva.

Fundada em 1714 e comprada em 2008 pelo grupo Esporão em 2008, a Quinta dos Murças lançou seus primeiros vinhos em 2010. Naquela época, eram elaborados pelo enólogo-chefe da casa alentejana, o australiano David Baverstock, responsável pela reforma da vinícola em 2011 em estilo simples e eficiente, ou “australiano”, como sugeriu José Luís. Lá, são utilizados lagares de pedra com pisa a pé por não mais que quatro horas, grandes cubas de concreto e barricas de carvalho francês sempre usadas. “Eu os compro e os empresto ao Esporão quando novos. Eles usam para vinificar seu Private Label branco e me devolvem do jeito que eu gosto. Não quero odorizar os vinhos”, afirma o enólogo no grupo há dois anos.

Há pouco menos de um ano, a propriedade foi escrutinada por um grupo de franceses do Loire que vaticinaram a existência de oito terroirs distintos. Pode-se esperar, portanto, novos vinhos que explorem as características de cada um deles e de minúcias de parcelas específicas.

Além dos três lançamentos, a Quinta dos Murças tem no Brasil seus três vinhos de entrada Assobio (branco, tinto e rosé), o Reserva e vinhos do Porto.

 

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