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Noé e o bafômetro

Por Dias Lopes

10 julho 2013 | 22:07 por redacaopaladar

Para quem consome por deleite a mais sagrada das bebidas, o livro Comer como Dios Manda, do espanhol L. Jacinto García Gómez (Ediciones Destino, Barcelona, 1999), é uma leitura confortante. Em três capítulos dedicados à liberação gastronômica trazida pelo cristianismo e os controles dietéticos fixados pela Igreja Católica, o autor mostra como o vinho se incorporou à civilização cristã. A Bíblia cita aproximadamente 450 vezes a expressão “ao lado da vinha”. Para os católicos, o vinho é imprescindível na celebração da Eucaristia. Consagrado na missa, transforma-se simbolicamente no sangue de Jesus. Na Última Ceia, após tomar vinho e comer pão, representativo do seu corpo, o fundador do cristianismo ordenou aos apóstolos: “Fazei isso em memória de mim” (1 Cor. 11,25).

Quando partiam para terras distantes, com a missão de difundir os ensinamentos de Jesus, os monges da Idade Média sempre levavam galhos de videira, que plantavam ao se estabelecerem em qualquer lugar. “Metaforicamente falando, cultivá-los e elaborar o vinho representava o mesmo que difundir a mensagem evangélica”, acrescenta García Gómez. Obviamente, os monges também foram grandes bebedores. O autor não se refere apenas aos frades ébrios, barrigudos e de bochechas vermelhas das caricaturas, mas, sobretudo, às comunidades religiosas.

Na Idade Média, o consumo de vinho por pessoa oscilava entre um e quatro litros por dia. Servia também como remédio, revigorava os enfermos, dava força física aos camponeses e soldados. Era igualmente a mais higiênica das bebidas. Misturado à água, corrigia sua potabilidade duvidosa e matava a sede. Na cozinha, ajudava a amaciar e temperar carnes. Tanto os monges se excediam no vinho que, no século 6º, a Regra de São Bento – o conjunto de regulamentos da vida nas comunidades monásticas – fixou em 270 ml (menos de dois cálices) o volume que cada um podia beber às refeições.

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Em nenhum momento a Bíblia denigre a bebida da Última Ceia, pelo contrário. O mesmo se diga da embriaguez, às vezes tratada de modo benevolente, como no caso de Noé. Cessado o Dilúvio Universal, o patriarca bíblico saiu da arca, lavrou a terra, plantou a vinha, fez o vinho, bebeu demais, embebedou-se, tirou a roupa e… tchibum! Ao acordar do porre, abençoou os dois filhos que ocultaram sua nudez com um manto e condenou o terceiro por deixar de tapá-lo. Para García Gómez, porém, a embriaguez bíblica mais atrevida seria a de Lot. Ele foi embebedado com vinho pelas filhas, que aproveitaram para se deitar com o pai e assegurar a continuidade biológica da família – não havia outro homem por ali.

“Nessa história sagrada, o vinho, em vez de ser considerado maligno e pecaminoso, capaz de induzir e favorecer as mais baixas paixões e comportamentos, aparece como um produto nobre e benéfico, sem o qual não se teria conseguido tão proveitoso objetivo”, ressalta García Gómez. Jamais defenderíamos tanta permissividade. Bastaria ter de volta o direito de ir a uma festa ou restaurante, beber um cálice de vinho e voltar para casa dirigindo o automóvel, sem que uma blitz policial nos acusasse de “infração gravíssima”. Claro que ela precisa existir. Mas podia ser menos draconiana.

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