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Novos vinhos de velhas vinhas portuguesas

Brasileiro e inglês lançam quatro rótulos da Quinta da Boavista, uma das mais tradicionais propriedades de Portugal, com consultoria do enólogo do Pétrus

11 maio 2016 | 18:50 por José Orenstein

Do Porto

Às margens plácidas do Douro, em Portugal, um brasileiro, um inglês e um francês anunciaram na semana passada os mais recentes frutos de uma ambiciosa empreitada. Apresentaram ao mundo os primeiros vinhos da nova etapa de uma das mais emblemáticas vinícolas da região, a Quinta da Boavista.

A entrada desse trio estrangeiro em terras lusitanas estava longe de ser uma invasão ou uma declaração de independência; pelo contrário, é uma aposta alta em Portugal, tem o apoio e a colaboração entusiasmados dos locais, e gera altas expectativas no mundo do vinho. 

 

  Foto: Divulgação

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A história começou em 2013, quando o brasileiro em questão, o empresário Marcelo Lima, e o inglês, o ex-correspondente do New York Times e editor da Condé Nast Tony Smith, compraram a Boavista. Sócios na Lima Smith, que já havia adquirido a Quinta da Covela, também na região do Douro, queriam expandir os negócios. “Já tínhamos visitado mais de 30 propriedades. Aí apareceu a Boavista. É uma oportunidade dessas que só aparecem, sei lá, a cada 50 anos. Não podíamos deixar passar”, diz Lima. 

Arremataram a quinta por alguns milhões de euros (não revelam quantos) e começaram a alimentar o sonho de produzir grandes vinhos na famosa propriedade.

A Quinta da Boavista fica na área do Cima Corgo, a 130km da cidade do Porto, rio Douro acima. Aparece já nas primeiras demarcações vinícolas da região, feitas em meados do século 18 pelo Marquês de Pombal, o grande modernizador do império português. Ela figura também nos mapas feitos um século depois, nos meios de 1800, pelo Barão de Forrester e que até hoje são referência. O inglês, que ganhou o título o nobiliárquico de Fernando II (cunhado do nosso d. Pedro II), teria arrendado parte da propriedade e frequentava a quinta, famosa pela qualidade das uvas e dos vinhos que produzia.

Gonçalo Lopes, viticólogo, Tony Smith, dono da vinícola, Jean-Claude e Jeff Berrouet, enólogos consultores, e Rui Cunha, enólogo da Boavista e da Covela

Gonçalo Lopes, viticólogo, Tony Smith, dono da vinícola, Jean-Claude e Jeff Berrouet, enólogos consultores, e Rui Cunha, enólogo da Boavista e da Covela Foto: Divulgação

Os 40 hectares de vinhas da propriedade se espalham em socalcos, pequenos terraços que cobrem os morros à beira do rio. Há quem diga tratar-se da mais bela região vinícola do mundo. A beleza, a história e, principalmente, as ótimas condições climáticas e de solo seduziram então o francês do primeiro parágrafo deste texto a se juntar ao inglês, ao brasileiro e aos enólogo e viticólogo portugueses, Rui Cunha e Gonçalo Lopes, que já trabalhavam na propriedade. O francês é Jean-Claude Berrouet, por 44 anos o enólogo do mítico Château Pétrus, de Bordeaux. 

Ele foi contratado pela Lima Smith como consultor e ajudou a elaborar o projeto dos vinhos. Por enquanto, não serão produzidos vinhos do Porto na Boavista. “É algo que exige uma expertise que não temos”, diz Tony Smith. Os rótulos chegam às lojas a partir de junho: vão para Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha, Bélgica e Brasil. 

São quatro vinhos tranquilos (não são fortificados, como os vinhos do Porto), que exploram a singularidade da Boavista, suas vinhas velhas retorcidas pelo tempo, suas cepas de uva autóctones, o seu terroir. São vinhos caros, classudos, para mostrar que essa trupe anglo-brasilo-franco-portuguesa tem altas ambições. 

Conheça a safra 2015 do Douro:

BOAVISTA TOURIGA NACIONAL (R$ 257) 

Vinho de entrada da marca, é o único da quinta que estagia em barricas de 500 litros. É feito exclusivamente com a Touriga Nacional, um das mais tradicionais castas da região duriense (como os portugueses se referem à área), extraída de vinhas novas da propriedade.

 

  Foto: Divulgação

BOAVISTA RESERVA (R$ 473)

Já um nível acima do Touriga Nacional, este Reserva traz um corte de vinhas novas e velhas, com diversas castas locais, como Touriga Franca e Tinta Barroca, colhidas em 2013. Vinho de corpo médio, tem os taninos mais finos e um final longo. 

 

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QUINTA DA BOAVISTA VINHA DO ORATÓRIO (R$ 1.587)

A vinha do Oratório data de 1930 e está numa altitude entre 70 e 100 metros. É cultivada seguindo princípios orgânicos – ou biológicos, como se diz em Portugal. De lá vêm as uvas de castas locais variadas com que se faz este vinho muito harmonioso e complexo.

 

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QUINTA DA BOAVISTA VINHA DO UJO (R$ 1.587)

A vinha do Ujo está numa altitude um pouco maior que a do Oratório, entre 150 e 200 metros, virada para o sul. É também inteiramente orgânica e composta de vinhas velhas, do começo do século passado. É um vinho de personalidade, mais fresco que o do Oratório. 

 

  Foto: Divulgação

*O jornalista viajou a convite da Lima Smith

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