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O fazendeiro fazedor de cerveja

Jack Joyce, um dos fundadores da Rogue, morto na semana passada, deixa como legado a premiada cervejaria, famosa por suas cervejas potentes. O Paladar foi à fazenda de lúpulo que Jack convenceu seus sócios a comprar

04 junho 2014 | 21:16 por Redação Paladar

Por Rafael Tonon

Especial para o Estado, de Oregon

Quem visita um dos 12 bares e salas de degustação da cervejaria Rogue Ales nos Estados Unidos – no Oregon, em Washington e na Califórnia – vê, na parede, ao lado de quadros e prêmios conquistados em 24 anos de existência, a foto de uma senhora nua em uma banheira. A estranha imagem diz muito da história de uma das mais importantes cervejarias americanas e da personalidade de um dos seus fundadores, Jack Joyce, morto na semana passada aos 72 anos.

 

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Jack Joyce, um dos fundadores da Rogue, deixa como legado a premiada cervejaria. FOTO: Divulgação

Jack e dois amigos de faculdade abriram um pub no porão de uma casa em Ashland, Oregon, em 1988, para vender as cervejas que faziam. O negócio começou a dar tão certo que decidiram abrir uma filial. Jack foi a Newport procurar um imóvel. Uma nevasca obrigou-o a ficar três dias na cidade. Foi quando ele conheceu Mohave Neimi, dona do Mo’s Clam Chowder (especializado na famosa sopa de mariscos).

Mo tinha o lugar perfeito para o pub de Jack: um barracão com estrutura pronta, a um preço razoável. Ela impôs duas condições para o aluguel: que Jack alimentasse os pescadores locais em tempos difíceis e mantivesse para sempre uma foto sua – nua – na parede do bar. Ele aceitou.

A Rogue Ales, hoje com uma produção de 10 milhões de litros de cerveja por ano, é uma das pioneiras da revolução cervejeira americana e responsável por impulsionar a cultura cervejeira no Oregon, um dos principais Estados produtores de cervejas do país – são 171 cervejarias artesanais que produziram 1,3 milhão de barris somente em 2013.

Mais de 50% da cerveja produzida no Estado é consumida ali mesmo. Mas hoje a produção dos mais de 37 rótulos da Rogue chega a todos os Estados americanos e 32 países – incluindo o Brasil, onde ela conquistou fãs de carteirinha (e isso não é força de expressão, já que é possível ter documento de identidade como cidadão da Rogue Nation).

Do campo. O histórico rural de Jack Joyce, que na adolescência trabalhou em fazendas e vinha de família que produzia cerveja e uísque na Escócia, convenceu seus sócios a investir em fazendas próprias para produzir os insumos utilizados nas cervejas da empresa.

Em 2008, a Rogue comprou 42 hectares para cultivar lúpulo e outros ingredientes, dando início a um movimento ground to bottle (do solo para a garrafa), similar ao movimento farm to table (da fazenda para a mesa) que tomou a gastronomia no final da década passada.

O Paladar visitou a fazenda, que produz por ano 30 toneladas de lúpulo em sete variedades, além de outros insumos como centeio, mel, abóbora, chipotle e até rosas usadas principalmente nas oito cervejas da série Rogue Farms.

Na fazenda, a Rogue controla todo o processo do lúpulo, do cultivo à secagem. A ideia surgiu na esteira da crise econômica de 2007, para garantir a variedade de cultivo da flor que dá à cerveja aromas únicos e característicos.

Para ressaltar a importância dessa diversidade, a cervejaria produz rótulos que levam muito lúpulo, como a 7 Hop IPA, feita com todas as variedades da flor cultivadas na fazenda em Independence.

O rótulo chega ao Brasil ainda neste mês, com mais cinco da série Rogue Farms (como a OREgasmic Ale, feita com ingredientes 100% do Oregon, e a Single Malt Ale), trazidas pela importadora Tarantino.

“Além de serem conhecidas pela presença de lúpulo, as cervejas da Rogue são muito autênticas, únicas, como essas feitas a partir dos ingredientes cultivados em suas fazendas. É uma cervejaria que é revolucionária há 30 anos”, afirma Gilberto Tarantino, dono da importadora.

Também em 2008, a Rogue começou a produzir cevada em uma fazenda de 256 hectares em Tygh Valley, no oeste do Estado, que produz mais de 400 toneladas do grão.

“Jack sempre foi um rebelde, um inovador, mas sem sair do caminho. Por causa dele nos tornamos fazendeiros e nos mantivemos fiéis às raízes de cidade pequena, mesmo tendo virado uma nação”, diz Brett McKercher Joyce, filho de Jack e CEO da Rogue Ales.

Pode parecer exagero dito assim, mas a chamada Rogue Nation, iniciada por Jack com aquele pub em Ashland, tem hoje um museu, um jornal (com uma redação que trabalha 24 horas), uma universidade, uma destilaria (que produz gim, vodca e uísque), uma produtora de filmes e até uma bandeira.

Com a morte de Jack, a Rogue deve seguir combinando tradição e inovação, criando cervejas potentes e curiosas, como a Voodoo Maple Bacon Ale, com aroma de maple e bacon defumado, e megapremiadas, como a Hazelnut Brown Nectar, que desde 1996 ganhou mais de 50 prêmios internacionais. “Vamos continuar o legado de Jack Joyce, sendo revolucionários, resistindo aos padrões. A Rogue vai seguir os passos de seu fundador e permanecer, em suma, incorrigível.”

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