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Os gaúchos roubaram a cena

As Tupiniquim e a Seasons são consideradas as melhores cervejas nacionais

18 março 2015 | 17:19 por Heloisa Lupinacci

Se você quiser visitar as duas melhores cervejarias do Brasil basta andar 20 m. A Tupiniquim e a Seasons ficam na mesma calçada, numa ruazinha no bairro Anchieta, em Porto Alegre. Elas foram eleitas a melhor cervejaria nacional e a segunda melhor cervejaria nacional, respectivamente, no Festival Brasileiro da Cerveja, encerrado no domingo em Blumenau. E a Basilicow, da Seasons, ainda emplacou como a cerveja do ano.

Em uma caminhada de 1 km visita-se Tupiniquim, Seasons, e mais quatro cervejas premiadas no festival: Irmãos Ferraro, Baldhead, Babel e Lagom.

Christian Bonotto (Tupiniquim), Leonardo Sewald (Seasons), Márcio Santos, André Bettiol e Fernando Jaeger (Tupiniquim). FOTO: FERNANDO SCIARRA/ESTADÃO

Os gaúchos roubaram a cena este ano. Somadas, as cervejarias do Estado levaram 47 medalhas, 16 delas de ouro. Só no bairro industrial de Anchieta foram 30 medalhas. Os porto-alegrenses tomaram o trono dos curitibanos – a Bodebrown (campeã em 2013 e 14), ficou em terceiro.

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“A gente foi lá para ganhar”, diz, sem rodeios, o gaúcho André Bettiol, um dos cinco sócios da Tupiniquim. E, para isso, a cervejaria desembarcou no festival com versões experimentais de alguns de seus rótulos de maior sucesso, como a Saison de Caju, que passou por barril de carvalho, e novidades fresquinhas, alinhadas às últimas tendências do mercado cervejeiro, como as cervejas sour e berliner weisse (leia ao lado).

A história da Tupiniquim começa igual à de quase todas as cervejarias artesanais: era uma vez cinco amigos que gostavam de cerveja. Só que em vez de fundar uma cervejaria, abriram uma importadora, a Beer Legends. “Mas a gente sempre quis fazer nossas cervejas”, conta Bettiol. As primeiras cervejas foram lançadas em janeiro de 2014. Catorze meses depois, são 45 rótulos (alguns em parceria com Jeppe Jarnit-Bjergsø , da Evil Twin, e, Brian Strumke, da Stillwater) e dois importantes prêmios: além de melhor cervejaria do Brasil, ganhou o troféu de melhor cervejaria da América do Sul (em maio, na South Beer Cup).

A grande maioria das vendas e da produção da Tupiniquim é da linha básica – pilsen, weiss, red ale e pale ale. Vendidas em garrafa de 1 litro (a uma média de R$ 25), são cervejas de “apresentação”. “O litrão é um costume no Sul, por conta da proximidade com Argentina e Uruguai, onde essas garrafas são bem comuns”, diz Christian Bonotto, outro dos cinco sócios.

É o litrão que paga as contas da cervejaria e, com isso, libera os cervejeiros para experimentar nos outros 41 rótulos. E aí é IPA com brett, sour com levedura de champanhe, saison envelhecida em barril e por aí vai.

Mas vamos andar 200 metros para ir à Seasons, que ainda temos muita cervejaria para visitar. A Seasons, de Leonardo Sewald, é uma cervejaria pioneira. Foi a primeira se instalar em Anchieta e Sewald foi o primeiro cervejeiro no Brasil a achar que dava para cultivar lúpulo em território nacional.

Hoje, na frente da Seasons, há um belo pé de lúpulo centennial todo florido. Quando colhem as flores, eles fazem a Harvest Ale, uma pale ale com lúpulo fresquíssimo. “Mas nesta safra não vamos fazer”, diz João Kolling, gerente comercial da cervejaria. Por quê? “Porque ganhamos essa medalha e agora todo mundo quer Basilicow”, explica, quase reclamando. A cervejaria planejava lançar a witbier com manjericão só na primavera, mas com o prêmio de melhor cerveja do ano, estão reprogramando toda a produção.

“Essa cerveja é difícil de fazer, é difícil acertar a mão no manjericão, mas agora todo mundo quer a tal cerveja com manjericão.” Não esperavam ganhar esse prêmio? “Com essa cerveja, não. Imaginávamos ganhar com outra, mas não com essa.”

Roteiro. Anchieta forma um polo cervejeiro claro. Hoje, com a abertura da Cervejaria Oito, são oito cervejarias. Mas novas fábricas devem se instalar no bairro ainda neste ano. A cada entrevistado para esta reportagem, o número aumentava. O primeiro disse que vai abrir mais uma, chegando a nove. O segundo, que a previsão é de 11 cervejarias até o fim do ano. E o terceiro, disse que ouviu dizer que serão 12.

Apesar da concentração, o roteiro turístico-cervejeiro nunca sai das conversas iniciais. “Sempre tem um começo de conversa, mas a gente trabalha muito nas cervejarias e aí fica só no começo”, diz Kolling. “A gente não tem tempo nem espaço para isso hoje. Aqui o dia começa às 4 da manhã”, concorda Bettiol.

Saldo total

O Estado do Rio Grande do Sul ganhou ao todo 47 medalhas, sendo 16 de ouro. É o mesmo número de medalhas que as cervejarias paulistas ganharam. Porém, os prêmios principais – melhor cervejaria e melhor cerveja – ficaram concentrados nas mãos dos gaúchos. Os paranaenses ganharam 40 medalhas no total, sendo 12 de ouro – e ficaram com terceira melhor cervejaria (Bodebrown) e segunda e terceira melhores cervejas – Bastards Jean Le Blanc e RedCor Ryequeoparta, da Cervejaria Araucária.

Siga o mapa cervejeiro na capital gaúcha

TUPINIQUIM

Ganhou 14 medalhas, sendo 6 de ouro (está fora desta conta o ouro da Yba-iá, em parceria com a Colorado e a norueguesa Nogne). A Tupiniquim aposta num perfil de cerveja: IPAs e saisons secas, com alta drinkability. Um exemplo é a minha favorita, a Clássica, feita com a americana Stillwater, uma saison, com brett e manga. Mas há exceções a esse perfil, caso da Monjolo, imperial porter com dulçor destacado que ganhou ouro, e da também premiada dubbel, que ainda não foi lançada.

SEASONS

Gosta de IPA? Vá direto na Seasons. Eles ganharam o grande prêmio de melhor cerveja do ano, mas comemoraram mesmo quando viram que estavam no topo do pódio da concorrida categoria american IPA. Eram 64 cervejas inscritas e eles levaram ouro com a Green Cow e prata com a Holy Cow. A Holy Cow #2 ganhou a prata na categoria imperial american IPA. No total, a Seasons ganhou 10 medalhas (dois ouros e oito pratas)

IRMÃOS FERRARO

Para entender a diferença de IPA à moda americana e à moda inglesa, há um mini-roteiro em Anchieta: Depois da Seasons, vá à Irmãos Ferraro, que ganhou ouro com a Loca, uma english IPA com aromas herbais e terrosos sobre uma base de caramelo do malte. O final é seco e amargo. A outra medalha foi para a Nera Reale, uma foreign stout maturada com nibs de cacau. As cervejas da Irmãos Ferraro devem chegar em distribuição regular a São Paulo até o meio do ano.

BALDHEAD

Gostou da ideia de entender diferenças regionais? Vá à Baldhead experimentar o perfil australiano. A cervejaria ganhou um ouro na categoria autralian pale ale com a Melonhead. O estilo é semelhante à american pale ale, mas o malte é mais caramelizado, o final do gole é mais seco e a expressão do lúpulo é um pouco diferente: mais focada no aroma que no amargor. O lúpulo usado, o australiano ella, remete a melão, daí o nome da cerveja – que não leva a fruta. As cervejas da Baldhead devem começar a chegar regularmente a São Paulo no meio do ano.

BABEL

A uma quadra da BR-116, também em Anchieta, a cervejaria foi inaugurada no fim de 2013 – ela é do engenheiro Humberto Frohlich, que se encantou com cervejas, foi estudar, começou a fazer cerveja e então decidiu montar a fábrica. Já no começo de 2014 abriu o The Pint Brewpub, que serve as seis cervejas produzidas pela Babel, além de convidadas. Ganhou duas medalhas de bronze: uma para a Blonde (uma blonde ale com menos expressão de fruta e final de gole mais seco do que a média do estilo) e uma para a Lucky Jack, na categoria ordinary bitter.

LAGOM

Foi a segunda cervejaria a se instalar em Anchieta. E para provar as cervejas feitas nessa fábrica, só tem um jeito: ir a um dos dois bares deles na capital gaúcha (um no bairro do Bonfim, outro em Moinhos). Ganhou bronze na categoria cerveja com fruta ao estilo belga com a Lagom Framboise. Uma cerveja vermelho-viva, com a fruta destacada e boa acidez. Para o Luis Celso Jr., sommelier, ela tem “o brilho de ‘algo mais’ das grandes cervejas”. A Lagom tem planos de engarrafar e passar a distribuir para outros Estados, mas ainda sem previsão de data.

CORUJA

Conhecida pela Viva e pela Extra Viva, cervejas que vêm numa garrafa de remédio com o rótulo impresso sobre o vidro, a cervejaria que fica no Centro Histórico ganhou três medalhas: ouro para a Strix, uma heller bock, e prata para Coice (strong ale) e para a Weizenbock.

ABADESSA

A Abadessa é uma cervejaria alemã no Brasil. Fundada pelo alemão Herbert Schumacher, ela é fiel à tradição germânica e à lei de pureza. Neste ano, no festival, apresentou algumas cervejas que fogem um pouco desse padrão. Elas formam uma linha de cervejas com extra carga de lúpulo. A German IPA foi criada em parceria com a Seasons – o centro de distribuição da Abadessa fica, adivinha?, em Anchieta. Mostraram também a Hopfenweizen, uma weizen mais lupulada, e a Sticke Alt, desenvolvida pelo mestre cervejeiro alemão Oliver Wesseloh.

BARCO

Apresentou no festival a Barco Folk Double Amber Ale, uma amber ale com carga extra de malte (de um tipo só) e com uso de um só lúpulo. É a beleza da simplicidade e provavelmente é a melhor cerveja que a Barco já lançou. O aroma é herbal, o amargor é médio e o final é seco e refrescante. A Barco – que escolhe suas receitas a partir de concursos – ganhou duas medalhas: ouro para a Viúva Negra (doppelbock) e prata para a Ça Va (saison com cominho e semente de coentro).

PERRO LIBRE

Com menos de um ano de vida, a Perro Libre, instalada no bairro de Chácara das Pedras, ganhou duas medalhas no festival. Ouro para a Viva la Revolución, uma pilsen com carga extra de lúpulo (um dos melhores lançamentos do ano passado), e prata para a Dog Save the Queen, na categoria Strong Ale. Mais recentemente, lançaram a 803, uma black rye IPA (IPA escura com centeio), homenagem ao Dia da Mulher que levantou uma bela discussão: a ideia é demonstrar que não existe cerveja “para mulher” – o vídeo de lançamento é genial, clique aqui para ver.

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