Paladar

Bebida

Bebida

Só de birra

Heloisa Lupinacci

Para perder de vez a birra com lagers

Um texto para acabar com o preconceito

09 julho 2014 | 19:04 por Heloisa Lupinacci

As cervejas se dividem, grosso modo, em duas grandes famílias, ales e lagers. (Há híbridas e lambics, que não são nem uma coisa nem outra, mas elas são em muito menor número.)

As ales são chamadas de cervejas de alta fermentação e tudo nelas é alto: são mais expressivas, aromáticas – e isso se deve ao fato de fermentarem em temperaturas mais altas (de 18°C a 20°C), o que gera mais compostos que dão aromas. As lagers são cervejas de baixa fermentação, e tudo nelas fala mais baixo: tendem a ser pouco aromáticas e na boca são mais austeras. Como fermentam em temperatura mais baixa (de 10°C a 12°C) não têm compostos que dão aromas frutados, são mais sisudas e tendem a ter mais aparentes notas de malte.

Bom, no final do século 19, na República Checa, o mestre cervejeiro alemão Josef Groll criou a Pilsner Urquell, que deu origem ao estilo pilsen – lager clara, límpida e refrescante. Fácil de beber, ela caiu no gosto do mundo e virou a cerveja standard. As megacervejarias fazem milhões de hectolitros de pilsen e dominam, há décadas, supermercados, bares, festas e geladeiras domésticas com essa cerveja (que de pilsen mesmo não tem muita coisa, o certo é chamá-la de standard light lager, ou lager clara normal).

Resultado desses anos monocromáticos: a lager clara virou a vilã, o ícone da “cervejinha”, sem graça, sem gosto, sem corpo, sem nada. Por metonímia – a figura de linguagem que toma a parte pelo todo – os bebedores de cerveja pegaram birra das lagers como um todo e abraçaram as ales com força total. (É preciso que se diga uma coisa: é mais fácil fazer uma boa ale do que uma boa lager, que exige controle mais rígido da produção e, por ser menos exuberante, a lager não esconde bem eventuais defeitos.)

Acontece que tem muita lager boa por aí. E nem precisa entrar no precioso universo das originais, as alemãs e checas.

Sugeri uma rodada de lagers claras para ninguém nunca mais dizer que lager é sem graça. São cervejas gostosas e ponto final. Provaram essas cerveja comigo o professor Rene Aduan, beer sommelier, e Raphael Rodrigues, do blog AllBeers.

FOTOS: Fernando Sciarra/Estadão

Harviestoun Schiehallion

Origem: Alva (Escócia)

Preço: R$ 16 (330 ml)

A primeira coisa que passa pela cabeça é: “quando eu for rica, essa será minha cerveja do dia a dia”. É tão fresca e leve que o instinto é tapar o copo para ela não flutuar. E já no nariz começa a se exibir, com flores brancas, ramo seco, casca de cítricos e crosta de pão. Na boca, continua exibida. Tem a base maltada e o amargor elegante típico das lagers. E, sobre essa mesa, o buquê aromático delicado que já tinha se insinuado no nariz. Combina com uma salada com queijo feta.

Dum Jan Kubis

Origem: Curitiba (PR)

Preço: R$ 16 (330 ml)

A primeira coisa que passa pela cabeça é: “quando eu for rica, essa será minha cerveja do dia a dia”. O texto não está repetido à toa. A Jan Kubis dá a mesma vontade de encher a geladeira que a Schiehallion dá, mas com perfil diferente. Ela é colorida. Boa para convencer quem vem das ales que lagers não são sem graça. No nariz, frutas tropicais e cítricas. Na boca, um quê de explosão das ales, sem perder a fleuma de lager. Combina com sobrecoxa grelhada.

Burgman Casanova

Origem: Sorocaba (SP)

Preço: R$ 15 (500 ml)

‘Ousada!’, exclamou um. ‘Legal!’, festejou o outro. A Casanova é legal mesmo. O rótulo destaca o uso do lúpulo motueka, variedade neozelandesa, combinado a lúpulos alemães. É aromática sem ser exibida. Leve, tem amargor fino, é fácil sem ser normal. Combina com salada caesar.

Fuller’s Frontier

Origem: Londres (Reino Unido)

Preço: R$ 18 (330 ml)

Lançada no fim de 2013, tem fermento de ale, processo de lager e lúpulos norte-americanos. A cervejaria a descreve como ‘lager da nova onda’. Fácil de beber. Notas aromáticas, cítricas, são discretas. Combina com salada caprese.

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 10/7/2014

Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Estadão.
É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Estadão poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Você pode digitar 600 caracteres.