Paladar

Bebida

Bebida

Talagadas, doses, goles e pitadas

Foi um corre-corre de engradados todos os dias. Empilhados e empurrados num serpenteado desengonçado para desviar dos passantes e chegar às salas – um corredor com público nem sempre é uma passarela. Nas caixas cinzas, centenas de copos, taças e xícaras que só se mostravam quando alinhados na mesa. Pudera: foram os líquidos que os preencheram os destaques do 7º Paladar – Cozinha do Brasil, em que as bebidas estiveram em evidência. Uma em especial, a cachaça, servida em taça ou copinhos, em pelo menos 13 aulas.

09 maio 2013 | 04:36 por danielmarques

Na talagada histórica da cachaça – afinal são mais de 400 anos de produção no País –, os três anos consecutivos em que deu as caras em aulas próprias nas edições do Paladar – Cozinha do Brasil podem parecer uma bicadinha. Mas a dose aumentou em 2013, serviu muita gente e fez o destilado se firmar como a grande bebida nacional.

Nenhum destilado no mundo tem a diversidade da cachaça. FOTO: Felipe Rau/Estadão

Não à toa, foi protagonista na degustação Mapa da Cachaça, de Maurício Maia; dividiu o paladar com limão e mel, na aula Mel, Cachaça e Limão, com Manoel Beato e Jerônimo Villas-Bôas; e com o café, sob a tutela de Maia e Ensei Neto, em Café e Cachaça: Uma Só Geografia; foi ingrediente da Neocaipirinha DOC, com Jean Ponce e Fábio Dias; e dos licores trazidos por Cesar Adames; além de ter sido servida como aperitivo nas aulas de Jefferson Rueda, Edinho Engel, Eduardo Maya, Helena Rizzo, Leo Botto e Paulo Leite, Rodrigo Oliveira e Lourdes Hernández, entre outros.

São 30 mil alambiques espalhados pelo Brasil, 5 mil marcas registradas e 1,4 bilhão de litros produzidos por ano, segundo Maurício Maia. O consumo cresceu nos últimos quatro anos. “Não existe nenhum destilado no mundo que tenha a diversidade da cachaça”, disse Manoel Beato, na degustação conjunta com mel e limão. Ainda assim, a resistência persegue a bebida. “Muita gente acha que caipirinha é um drinque menor, só por ser um produto nacional”disse Jean Ponce, barman do D.O.M., enquanto preparava uma das dezenas de drinques da noite de domingo na aula Neocaiprinha DOC.

Pura, como ingrediente ou acompanhada, a bebida tipicamente brasileira foi multifuncional nos três dias de evento. Virou vapor para camarões na aula de Helena Rizzo sobre produtos colhidos no meio da mata; fez a transição entre os pratos do mar e da terra na harmonização de cervejas selecionadas por Paulo Leite e os pratos de Leo Botto; deu coragem a quem refutava em comer o bolinho de miolo de boi com espinafre, ideia de Jefferson Rueda para a aula Trocando em Miúdos, fez Maurício Maia sonhar com possibilidades dela com café depois da experiência dividida com Ensei Neto; e acompanhada dos méis nativos do Brasil, no encontro de Manoel Beato e Jerônimo Villas-Bôas, questionou a matemática pela infinidade de combinações possíveis.

Ficou com água na boca?

No ano em que o compartilhamento de ingredientes foi destaque, a cachaça não fez por menos. Mostrou-se flexível e desinibida (não pelo efeito estimulante nos neurônios), harmonizada com pratos e varando fronteiras além das degustações.

>> Veja todas as notícias da edição do Paladar de 9/5/2013

Ficou com água na boca?