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Isabelle Moreira Lima

'Talvez achem que sou parte da mobília', diz Steven Spurrier com 50 anos no mundo do vinho

O inglês Steven Spurrier acaba de ser eleito como o Homem do Ano pela revista inglesa 'Decanter'

08 março 2017 | 20:57 por Isabelle Moreira Lima

Leia a íntegra da entrevista com o inglês Steven Spurrier, que acaba de ser eleito como o Homem do Ano pela revista inglesa Decanter, um título muito respeitado entre enólogos e enófilos

A crítica inglesa Jancis Robinson disse que o senhor é um herói não reconhecido, que merecia mais crédito do que jamais recebeu. O que acha disso?

Nunca esperei receber este prêmio, soube antes do Natal que receberia o título e fiquei profundamente honrado. Na verdade, nos últimos dois anos venho tentando emplacar o nome do produtor chileno Eduardo Chardwick. Eu suponho que seja verdade o que Jancis diz, já que estou envolvido em tantos aspectos do vinho -- como comerciante, professor, escritor, jornalista e finalmente produtor do espumante inglês Bride Valley, sou presidente disso e daquilo. Talvez achem que sou parte da mobília, já que estou nessa área há tantos anos.

 

Ficou com água na boca?

Com toda essa experiência, como avalia o vinho que bebemos hoje?

É melhor que o de ontem, mas o de amanhã será ainda melhor. Isso não quer dizer que todas as safras de Mouton-Rothschild serão melhores que a extraordinária de 1945, certamente não; mas que o vinho que é produzido hoje é mais claro, mais limpo e mais expressivo de seu terroir do que era no passado. Há alguns poucos vinhos que não são bons, o que não era o caso há uma década. Na premiação anual da Decanter de 2004, apenas 60% dos vinhos receberam algum tipo de prêmio. Hoje, são 70% de um universo de 16 mil vinhos. E não é que os juízes sejam menos severos, a qualidade geral dos vinhos é que está cada vez maior.

 

  Foto: Rafael Arbex|Estadão

 

O sr. acha que o vinho que vamos beber em 20-30 anos será muito diferente do que bebemos hoje?

Há questões sobre o aquecimento global e a reação a ele é que produtores estão procurando lugares mais frescos, de alta elevação, virados para o norte. A moda de muito álcool, superextração e muita madeira, graças a Deus, acabou. Harmonia é a coisa mais importante em um vinho depois do sabor, e isso é o que as pessoas procuram cada vez mais. Destilados e coquetéis estão de volta e agradam aqueles que querem mais álcool. Os consumidores não precisam beber vinho para isso, só bebem aqueles que têm prazer, seja de paladar ou intelectual. O vinho já faz parte de um estilo de vida e continuará assim, mas tem que ter um gosto bom.

 

O que o cativa em um vinho quando o prova pela primeira vez? O que espera encontrar quando abre a garrafa e o que é a pior coisa que pode acontecer?

O vinho é uma viagem de descobertas sem fim. Hoje mesmo eu estava em uma prova de vinhos italianos de 30 produtores em que eu conhecia apenas cinco! Se eu estou em uma degustação de Chianti ou de Barolo, sei que tipo de vinho devo encontrar ali, mas ainda assim cada vinho vai ser diferente, particular. Tem acontecido também de provar vinhos de lugares e com uvas que eu nunca ouvi falar antes. Para o vinho ser interessante, ele tem que me dizer algo sobre ele, sobre a variedade da uva, sobre sua origem. E se ele faz isso com clareza e equilíbrio, sei que trata-se de um bom vinho, não importa o preço. A coisa mais decepcionante é exagero, muito disso ou daquilo, o que deixa o vinho desequilibrado.

 

Depois de tantos anos provando e trabalhando no mundo do vinho, como mantém o ânimo?

Acho que nunca me senti entediado um dia sequer em toda a minha carreira. Cansado, exausto, assoberbado pode ser, mas nunca entediado. Eu vejo o vinho através de um caleidoscópio: a cada vez que provo um mesmo vinho ele é diferente. Por outro lado, há vinhos que se mostram sempre do mesmo jeito, o que é reconfortante. Mudar é bom, mas uma referência tem que se manter confiável.

 

Produção de vinho era a última fronteira a ser explorada pelo sr., que agora tem o projeto do espumante Bride Valley, na Inglaterra. Como tem sido essa experiência?

Eu não faço o vinho em Bride Valley, mas eu interfiro muito seriamente no corte antes do engarrafamento e também antes do dégorgement (processo que retira os sedimentos da garrafa por congelamento e pressão) para escolher a “dosage” (nível de açúcar a ser adicionado à bebida). Busco, acima de tudo, equilíbrio. Quero fazer um vinho que expresse o nosso solo, que tem muito calcário. O estilo de Bride Valley é vivaz e elegante, exatamente como eu esperava que fosse. Quanto à quantidade, depois de uma safra muito boa em 2014, tanto a de 2015 quanto a de 2016 foram baixas, menos de um quarto de garrafa por vinhedo, devido ao clima instável. Espero uma colheita muito melhor neste ano.

 

É impossível falar com o sr. e não perguntá-lo sobre o Julgamento de Paris. O que acha de ser visto como responsável pelo desenvolvimento dos vinhos da Califórnia e de ajudar os franceses?

O Julgamento de Paris teve três grandes impactos: o primeiro foi colocar os vinhos da Califórnia no mapa, como eu esperava, mas não imaginava que ocorreria tão dramaticamente; o segundo, foi um “chacoalhão” no vinho francês, que fez com que eles parassem de se fiar nos louros do passado; o terceiro, e mais importante na minha opinião foi que abriu a possibilidade para que vinhos desconhecidos mas de qualidade possam ser julgados junto a vinhos célebres, e se os juízes são qualificados (caso do Julgamento de Paris em 1976), os resultados serão respeitados. Isso deixou o mundo do vinho mais aberto e é o aspecto do Julgamento de Paris que mais me deixa orgulhoso.

 

E se o sr. pudesse imaginar uma nova versão do Julgamento de Paris, qual seria?

O mundo do vinho está tão variado hoje que os vinhos e as regiões já são comparadas o tempo todo. O último grande julgamento aos moldes do de Paris foi feito por Eduardo Chadwick em que os vinhos chilenos eram colocados frente aos melhores Bordeaux e toscanos, a começar pela Prova de Berlim em 2004. Eu acho que um painel internacional de Pinot Noir seria fascinante. Não um julgamento, mas uma degustação para ver o quão diferente essa maravilhosa cepa pode se mostrar em diferentes locais do mundo e como, ainda assim, mantém-se (ou deveria manter-se) inequivocadamente Pinot Noir.

 

Qual sua opinião sobre os vinhos brasileiros? Acha que evoluíram?

O vinho espumante no Brasil é a bola da vez e será mais importante a cada dia. Quanto aos outros estilos, acredito que são o elemento europeu, as famílias que chegaram da Itália no fim do século 19 que continuam aí e que fazem um vinho como o de seus antepassados faziam, que marca o vinho brasileiro e que o deixa mais acessível que os argentinos, chilenos ou uruguaios. A primeira coisa que as vinícolas brasileiras precisam fazer é conscientizar os brasileiros de sua qualidade.

 

Como educador, que dicas o sr. daria para as pessoas que estão entrando agora no mundo do vinho? Algo que nos faça aproveitar melhor a bebida?

O vinho é um produto feito para dar prazer pelos seus sabores, seu sentido de lugar e sua habilidade de acompanhar uma comida, uma companhia ou de ser apreciado sozinho. Tenha a mente aberta, prove diferentes tipos de vinho e não desista.

Ficou com água na boca?